O Círculo da Manhã: Como um Pequeno Grupo de Vizinhos em Lisboa Aprendeu a Caminhar Junto e que Nem Só de Reclamações Vive um Prédio

O círculo matinal

Na porta do elevador, alguém tinha colado outra vez uma folha com fita-cola: «NÃO DEIXEM OS SACOS AO LADO DO CONTENTOR». A fita já estava mais para um fio de esperança do que para adesivo, e o papel ia-se enrolando nos cantos. A luz do hall piscava, fazendo com que o aviso ora parecesse uma sentença severa, ora uma nota de rodapé mal-humorada tal e qual o grupo do prédio no WhatsApp.

Maria da Glória Fernandes estava ali parada com as chaves na mão, ouvindo o berbequim do vizinho do terceiro andar tentar tocar a melodia do caos, desafinando e recomeçando. Não era o barulho que a irritava. O que a deixava fora de si era o ritual de sempre: grupo do WhatsApp em letras garrafais, respostas passivo-agressivas, provas fotográficas de sapatos alheios pelo corredor, usados como testemunho do declínio moral nacional. E tudo aquilo parecia exigir a opinião dela como se só lhe apetecesse silêncio na cabeça.

Subiu a casa, pousou o saco das compras na cozinha, ainda de casaco vestido, e espreitou o grupo do prédio. Lá estava a mensagem: «QUEM ESTACIONOU NO PARQUE INFANTIL ÀS TRÊS DA MANHÃ???». Foto do pneu incluída. Logo depois: «E JÁ AGORA, QUEM NÃO CUMPRIMENTA NO HALL?» Maria da Glória percorreu aquilo tudo, sentiu a onda habitual de fastio a crescer, e, de repente, percebeu que já estava farta de assistir a discussões dos outros. E de se apanhar, ela própria, prestes a atirar mais achas para a fogueira, nem que fosse pelo pensamento.

No dia seguinte, acordou cedo não por estar descansada, mas porque o corpo, feito despertador velho, tocava sem ser convidado. O quarto estava fresco, os radiadores chiavam. Foi buscar o casaco de treino, encontrou as sapatilhas que tinha comprado para começar a andar (mas andavam pouco), e saiu para as escadas. O cheiro era inconfundível: pó, um toque de tinta barata, e algo indefinido que não se explica e também não se recomenda.

Junto ao elevador, olhou para o placard dos avisos: impressos sobre leituras de contador, um gato perdido, Assembleia de Condomínio Quinta-feira. Maria da Glória tirou da mala um papel já preparado e prendeu-o com tachinhas, cuidadosamente.

«Caminhadas matinais em volta do bairro. Sem conversas, sem obrigações. Quem quiser, às 7h15 junto à porta. Só dar uma volta e cada um para seu lado. Maria da Glória F.»

Admirou-se do quão leve tinha sido escrever aquilo. Não pediu amizade entre vizinhos, nem proclamou que devemos ser humanos. Só passos. Sem mais novelas.

Às 7h12 já estava à entrada confirmou gás e janelas fechadas. Tinha as chaves, o telemóvel e um gorro a proteger-lhe as ideias. Achava que ia esperar um minuto sozinha e, pronto, fingir naturalidade ao regressar.

Mas a porta do prédio abriu-se com um estalo e saiu uma mulher, pelos seus quarenta e tal, cabelo puxado atrás e expressão de quem já vem prevenida para a vida.

É do anúncio?, perguntou enquanto ajeitava o cachecol.

Sim, sou a Maria da Glória respondeu.

Isilda. Tenho problemas de costas, o médico disse para andar mas sozinha é deprimente explicou, logo acrescentando, quase a pedir desculpa: Não sou de conversa.

Ainda bem disse Maria da Glória, solidária.

Pouco depois, apareceu um homem, ligeiramente curvado, casaco escuro, ar de quem pondera se cumprimentar faz parte do programa. Arriscou:

Bom dia. Eu sou o António. Do segundo esquerdo.

Eu sou do terceiro, escapou-se-lhe a Maria da Glória, que já sabia tudo o que acontecia no prédio. Apanhou-se a arrumar as pessoas em prateleiras mentais.

António esboçou um sorriso.

Do terceiro, então. Enganei-me.

O quarto elemento foi um homem alto, de uns sessenta anos, com boina e passada de quem não esqueceu a pista de atletismo da juventude. Não fez perguntas, encostou-se só.

Jorge, disse . Já caminho de manhã. Pensava que era só eu.

Às 7h16 arrancaram. Maria da Glória escolheu o trajecto fácil: à volta do quarteirão, pela padaria, pelo pátio do prédio ao lado, em frente à escola, e regresso. O chão ainda tinha poças daquele frio húmido à moda do Porto, em certos sítios havia gelo. Respirava-se aquele ar cortante que põe tudo em pausa, e ninguém falava nos primeiros minutos, a tentar entender os próprios pés.

Sentiu o corpo primeiro resmungar, depois alinhar-se devagar. Onde costumavam viver os rancores do grupo, surgia um vazio não um vazio assustador, mas daqueles que deixam espaço para se voltar a preencher.

Na esquina, António aventurou-se:

Pensei que era a brincar com o sem conversa. Portugueses não vivem sem conversa.

Se apetecer falar, fala-se respondeu Maria da Glória. Mas sem relatos para a Assembleia.

Isilda soltou um rir contido, que logo se transformou numa careta, passando a mão na lombar.

Má disposição? perguntou Maria da Glória.

Aguenta-se. Só não convém parar de repente.

Jorge caminhava a meia velocidade, como se estivesse a fazer contas aos passos. No regresso, comentou:

Sabe bem. Melhor que um plenário às oito da manhã.

Chegaram de volta às 7h38. Ficaram ali, uns segundos silenciosos, tal como quem espera que baixem para o intervalo.

Amanhã?, atirou Isilda.

Se quiserem, respondeu Maria da Glória.

Eu venho, disse António e acenou, sem se dar ao trabalho de se despedir formalmente.

No dia seguinte eram três. Jorge faltou, mas apareceu Ernestina, vizinha do primeiro direito, casaco encarnado, ar de quem desconfia de tudo.

Eu só venho observar, lançou, sem se apresentar.

Faça boa viagem, disse-lhe Maria da Glória, arrancando sem perder tempo com sermões de integração.

Ernestina foi ao lado de António, e em silêncio ficou. À segunda volta, uma semana mais tarde, já dizia:

Sou contra este tipo de grupinhos. Daqui a nada querem fazer coletas, e quem não dá é o mau da fita.

Dinheiro aqui não entra, respondeu António . Fiquei traumatizado a dividir despesas depois do divórcio, basta-me a Segurança Social.

Maria da Glória ouviu a palavra divórcio e preferiu não puxar assunto. Sabia a rapidez com que os dramas alheios se tornam petiscos de corredor e armas também.

As caminhadas sobreviviam pela rotina. Às 7h15, começavam; às 7h40, cada um para seu lado. Uns faltavam de vez em quando, mas voltavam. Isilda levava uma garrafinha de água, António, um dia sem gorro, passou a volta a resmungar consigo mesmo, mas não arredou pé. Ernestina começou a andar primeiro à parte, depois cada vez mais próxima.

O fenómeno começou a infiltrar-se no resto do prédio. Maria da Glória reparou que, de repente, as pessoas cumprimentavam-se mais. Não por obrigação, mas porque já se tinham visto de cara lavada, sem armadura.

Uma noite, ao regressar do centro de saúde estafada, encontrou Jorge a batalhar no botão do elevador.

Está avariado?, perguntou.

Não funciona só para quem tem medo de lhe dar com vontade, respondeu ele, pressionando com convicção. O elevador subiu, luz fraca lá dentro, espelho riscado.

Jorge virou-se:

Obrigado por isto das caminhadas. Pensei que ficaria a andar sozinho para sempre. Assim até parece que pertenço a um clube, disse, meio risonho.

Maria da Glória sorriu por dentro, mas não se deixou enternecer. Limitou-se a registar: ficou um pouco melhor ali.

Pequenos gestos começaram a aparecer. António, de manhã, avisou Isilda com um gesto que ela tinha o atacador desfeito. Mais tarde, Isilda escreveu no grupo: Obrigada a quem me salvou da queda! Sorrisos para todos. Sem nomes, mas em tom mais leve.

Ernestina trouxe um dia um quilo de sal para deitar nas escadas que congelavam.

Isto é para mim, disse, pousando o saco. Que não quero partir os ossos.

Está bem na mesma, respondeu Maria da Glória.

Deitaram o sal juntas, Ernestina limpou as luvas e resmungou:

Pronto, já que estão aqui…

O WhatsApp do prédio começou a soar menos como a central da polícia. Ainda surgiam discussões sobre lixo e estacionamento, mas agora havia alguém a dizer Vamos com calma, dá para conversar. E aquilo não parecia frase feita, mas recordação de que sabiam ser decentes.

O problema veio no fim de novembro, quando na casa do terceiro começou uma obra patrocinada pelo André, rapaz novo com um cão. Não era a primeira renovações, mas esta, além do berbequim, dava cabo da paciência à noite também. O grupo entrou em modo tradicional: Já chega!, Há crianças aqui!, Isto agora é terra de ninguém?. Ernestina escreveu: Já se sabe quem é, sempre foi igual, não quer saber de ninguém.

Na caminhada seguinte, Isilda ia visivelmente tensa, cada passo parecia vibrar de irritação.

É ele, mesmo por cima de mim. Ontem até às dez, fiquei a noite inteira a ouvir a broca nos ouvidos.

António puxou do código civil:

Pela lei, até às 23h é permitido…

Nem me fale da lei, cortou Isilda. Falo de respeito.

Ernestina, que geralmente era irónica, estava agora no modo destino inevitável.

Ele precisa levar uma lição. Ou aprende ou chamamos a polícia municipal. Não se faz de outra forma.

Maria da Glória sentiu o grupo, tão morno antes, a virar campo de batalha. O medo dela nem era o barulho, era voltarem para o nós contra ele de sempre.

Assinaturas é depois, disse . Primeiro, conversar.

Com aquele? Ernestina parou. Está a brincar? Ele nem liga!

É uma pessoa como nós, respondeu Maria da Glória . Não somos tribunal de bairro.

António olhou para ela avaliativamente.

Vai mesmo tentar?

Maria da Glória queria tudo menos envolver-se. Só queria que o silêncio se instalasse por magia. Mas sabia que, se soltassem a matilha agora, mais valia fechar as caminhadas.

Eu falo, decidiu. Mas venham comigo, sem multidão.

António acenou.

Nessa noite, subiram ao terceiro andar. Maria da Glória mandara mensagem privada ao André: Podemos falar um minuto? É Maria da Glória do prédio. Ele respondeu: Sim, venham, estou em casa.

À porta dele, sacos de entulho, todos organizadinhos. Sinal de que não queria uma lixeira permanente. Maria da Glória bateu. O silêncio da broca era um prémio instantâneo.

A porta abriu-se, André de t-shirt, braços sujos de cal. O cão, um rafeiro castanho-avermelhado, olhou e voltou para a cama.

Boa noite disse, cauteloso. Aconteceu alguma coisa?

Não vimos aqui reclamar, atirou Maria da Glória, a frase soou-lhe ridícula, mas não havia melhor . É um pedido sobre as obras.

António ficou de guarda dourada.

Tento acabar sempre antes das nove, apressou-se André. Mas só posso fazer à noite. De dia é impossível.

Percebemos, disse Maria da Glória. Só que a Isilda, logo por baixo, tem problemas de coluna. Até às dez ainda fica pior.

André suspirou.

Não sabia disso. Pensava que era só o costume mandar bocas no grupo, mas falar cara a cara nunca.

Maria da Glória engoliu em seco. De facto, o contacto directo era raro.

Pode avisar quando precisar mesmo fazer barulho depois das nove? Nos outros dias, tentava acabar antes. E o lixo, evite deixar à noite.

André olhou para os sacos.

Amanhã cedo levo isto no carro. Não gosto de ver aqui também, simplesmente já era tarde hoje.

Pronto, disse António . E em relação ao tempo?

André coçou a cabeça.

Até às nove faço questão de cumprir. Mais tarde só se for mesmo urgente, e aviso sempre antes no grupo. Tento limitar a uma vez por semana.

Maria da Glória acenou.

E o cão, quando ladra à noite

André ficou vermelho.

É quando saio, fica a chorar. Vou tentar comprar-lhe um brinquedo novo, para não incomodar. E, se virem que está a ser demais, falem comigo. Mas não usem o grupo logo, pode ser?

Saíram dali, e na escada António disse em voz baixa:

Afinal, é normal. Só é novo cá. E sozinho.

No fundo, estamos todos sozinhos, de uma maneira ou de outra, respondeu Maria da Glória, surpreendendo-se pelo tom poeta.

No grupo, no dia seguinte, André anunciou: Vizinhos, obras só até às 21h. Se houver necessidade, aviso antes. Lixo sai amanhã. Uns reagiram com aquele emoji da mão, outros ignoraram. Ernestina comentou ao seco: Vamos ver. Caps Lock, nem vê-lo.

Na volta matinal, Ernestina trouxe ar de poucos amigos.

Então? Falaram?

Falámos, respondeu Maria da Glória . Ele aceitou parar às nove e avisar.

E só isso? ela queria sabor a vitória.

Só, confirmou Maria da Glória . Não estamos aqui para vencer ninguém.

Ernestina resmungou, mas acompanhou o passo. Uns metros depois murmurou, sem olhar:

Enfim. Se voltar a fazer barulho meto logo no grupo.

Força respondeu Maria da Glória, mas comece por falar primeiro com ele.

Isilda, ao lado, disse baixinho:

Obrigada por não terem feito um drama. Já me chegava toda aquela gritaria

Maria da Glória sentiu um nó no peito, respirou o ar gelado e o nó desfez-se no grisalhar da manhã.

Uma semana mais tarde, Jorge deixou de aparecer. Num desses dias, Maria da Glória encontrou-o nos correios do prédio.

Já não o vemos por lá.

O joelho, respondeu. O médico proibiu-me torturas matinais.

Que pena.

Mas vejo-vos da janela. Abro só para vos ouvir passar. Já parece que faço parte.

Foi meio triste, meio divertido.

Quando chegou o Ano Novo, só Maria da Glória, Isilda e António mantinham-se fiéis. Ernestina aparecia de vez em quando, sumia uma semana, reaparecia parecia controlar se o movimento já teria acabado. André, de vez em quando, lá se juntava, se estava esgotado das obras. Caminhava calado, deixava o som da cidade substituir o do berbequim, e saía primeiro.

O prédio não virou postal de revista. Continuavam a aparecer sacos onde não deviam, carros tortos, discussões velhas pelo WhatsApp. Mas agora, Maria da Glória sentia que havia, entre as camadas de azedume, uma memória de como as coisas podiam ser diferentes.

Já em janeiro, numa manhã qualquer, saiu às 7h14. António já estava ao frio a fechar o casaco.

Bom dia, Maria da Glória.

Bom dia, António.

Isilda aproximou-se com cuidado, descendo as escadas salgadas.

Olá. Hoje a coluna não resmunga sorriu, vitoriosa.

Ernestina apareceu, despenteada, sem ironia.

Venho com vocês. Mas não quero ouvir falar do grupo, está bem?

Fechado, assegurou Maria da Glória.

Lá seguiram, passos sincopados, mas juntos. Na esquina, António amparou Isilda que escorregava, tão natural que ninguém pensou em agradecer.

Ao regressarem, André esperava à porta com o cão na trela.

Bom dia. Eu já vou, que vou trabalhar. Mas obrigado por terem vindo com calma aquele dia.

Maria da Glória assentiu:

Afinal, todos vivemos aqui.

Já não era lema de parede, era só um facto; e no fundo, era por isso que estavam todos ali com menos guerra e muito mais humanidade.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

nine + 6 =

O Círculo da Manhã: Como um Pequeno Grupo de Vizinhos em Lisboa Aprendeu a Caminhar Junto e que Nem Só de Reclamações Vive um Prédio
Nikdy som svojim rodičom nepovedala, že som sudkyňa na Najvyššom súde Slovenskej republiky