Diário, 12 de junho
Hoje senti necessidade de registar os meus pensamentos sobre esta situação delicada que se desenrolou cá em casa. A minha filha, Leonor, e a família dela ficaram sem casa praticamente de um dia para o outro, depois das cheias que deixaram o apartamento deles, no Barreiro, completamente inabitável e a precisar de grandes obras. Sem muitas alternativas, vieram ficar comigo, aqui no meu T2 na Amadora.
Era impossível dizer que não, e abracei-os de coração aberto, mas não sem ponderar bastante. No entanto, mesmo antes de virem, conversei com a Leonor e o marido dela, o Ricardo. Fizemos questão de deixar claro que era uma solução temporária e que, assim que conseguissem, voltariam ao sítio deles.
Gosto muito da minha filha é um orgulho para mim e o Ricardo é um bom rapaz, mas sempre defendi a ideia de que cada família tem de ser independente. Para mim, os outros, por mais próximos que sejam, são sempre elementos de fora desse núcleo. E agora percebo ainda melhor quão importante é isto.
Tenho o meu ritmo, as minhas rotinas tão diferentes das deles. Por muito amorosa que seja a Leonor, ela se encaixa no meu contexto, mas o Ricardo é uma presença completamente estranha, e claro que ele também merece privacidade, como qualquer pessoa. Para quê discutir por eu adormecer com a televisão ligada? Ou por eles decidirem trazer amigos para nossa casa sem avisar? Cada um tem o seu entendimento de ordem e limpeza, não vale a pena criar conflitos porque deixei um copo por lavar na bancada. São ninharias, mas sabemos como essas pequenas coisas conseguem minar os melhores laços.
Outro exemplo: temos gostos muito diferentes à mesa. E nem vou falar daquela sensação, quando há visitas inesperadas, de ver desaparecerem os meus pastéis de nata ou o fiambre especial da prateleira sem ninguém avisar. Não vou trancar o frigorífico com um cadeado, mas confesso que olho de lado quando isso acontece.
Também os horários distintos pesam. Por vezes, sinto-me prisioneira de ter que andar em bicos de pés para não incomodar o descanso deles, quando sou eu que acordo cedo para ouvir o meu programa da Antena 1. A convivência forçada pode tornar-se um gatilho constante para pequenos atritos, dores de cabeça e até má disposição. Basta uma faísca mal dada para criar uma grande confusão!
Acima de tudo, porém, não quero ser a juíza da vida da Leonor ou do Ricardo. Ensinei o que tinha a ensinar, e agora só quero ver aquilo que eles estiverem dispostos a partilhar comigo nada mais. Mas vivendo debaixo do mesmo teto, isso é quase impossível.
E, se há coisa que valorizo nesta fase da vida, é saber que posso escolher como, quanto e quando ajudar. Quero fazê-lo de livre vontade, sem obrigação e sem me sentir em dívida para com ninguém. Preciso desse tempo para mim, de que antes talvez nem desse conta.
Sei que isto tudo vai passar e eles vão regressar ao lar deles, mas fica mais claro do que nunca que, por muito que ame a minha família, preciso do meu espaço, da minha liberdade e das minhas rotinas. São pequenas coisas mas, juntas, fazem toda a diferença.







