Estou encostado à janela, segurando o copo de uísque com tanta força que os meus dedos ficaram brancos. O relógio da parede marca cada segundo, num tique-taque ameaçador que só piora o meu mal-estar.
Já é tarde. Muito tarde.
Foi então que vi os faróis.
Um Mercedes preto abranda e estaciona em frente ao prédio. Prendo a respiração. Ao volante, está um homem alto, confiante, desconhecido, nunca o vi na minha vida.
Logo de seguida, a porta do lado direito abre-se.
E é a minha mulher que sai do carro.
Sinto o estômago dar um nó. Sorri um sorriso honesto, caloroso, daqueles que já não lhe via há muito. Inclina-se até ao condutor, diz-lhe algo e ele ri. Ri!
Poucos segundos depois, fecha a porta e começa a caminhar para a entrada. O carro afasta-se em silêncio.
Parece que o sangue me ferve nas veias.
Há quanto tempo isto acontece? Quantas noites dormi tranquilo, sem saber que ela vinha deixada em casa por outro?
A porta do apartamento abre-se e ela entra, relaxada, largando a mala em cima da mesa.
Quem era ele? A minha voz soa baixa, quase ameaçadora.
Ela para subitamente, olhando para mim com espanto. O quê?
O homem que te trouxe. Quem era?
Soltou um suspiro, visivelmente cansada. Por amor de Deus, Tiago. Era o marido da Mafalda. Trouxe-me a casa. O que se passa contigo?
Já não a conseguia ouvir.
O coração e a mente estavam tomados por pensamentos negros, ensurdecidos pelo pulsar do meu próprio sangue.
Levanto a mão, sem controlo.
O som da minha palmada a bater-lhe no rosto quebra o silêncio à nossa volta. Ela recua, leva a mão à cara. No canto do nariz aparece uma fina linha de sangue.
Segue-se um silêncio pesado.
Os olhos dela arregalam-se e, neles, vejo algo que nunca tinha visto: medo.
O meu coração encolhe.
Pisei uma linha.
Uma linha que não devia, da qual não há regresso.
Ela não grita. Não chora. Não diz uma palavra. Apenas pega no casaco e sai.
Na manhã seguinte, recebo os papéis do divórcio.
Fico sem nada nem sequer o meu filho
Aguentei os teus ciúmes durante anos, desabafou friamente na última vez em que falámos. Mas violência nunca.
Supliquei-lhe perdão. Prometi que foi um erro, que não sou esse homem, que nunca mais voltaria a acontecer.
Nada disso serviu.
E depois veio o golpe final em tribunal, ela disse que eu era agressivo até com o nosso filho.
Uma mentira.
Uma mentira vil. Jamais lhe levantei a voz, jamais lhe toquei com raiva.
Mas quem acreditaria em mim? Um homem que bateu na mulher?
O juiz nem hesitou.
Ela ficou com a guarda total.
Eu? Apenas algumas horas por semana. Só o posso encontrar num local combinado, uma vez por semana.
Sem casa. Sem adormecê-lo nos meus braços à noite. Sem fazer-lhe o pequeno-almoço de manhã.
Durante seis meses, vivi só para esses breves momentos.
Para aqueles minutos em que ele corria para mim, a rir, abraçava-me, contava-me as suas histórias.
E, todas as vezes, tinha de o deixar ir. Assistia a afastar-se, enquanto eu ficava sozinho.
Até que um dia, ele disse-me algo que mudou tudo.
A verdade que descobri com cinco anos de idade do meu filho
Ele vai crescendo. Começa a reparar em tudo. A fazer perguntas.
Um dia, enquanto brincava calmamente com os carrinhos, conta-me com voz inocente:
Pai, ontem a mãe não estava em casa. Veio uma senhora ficar comigo.
Fiquei gelado.
Uma senhora? Qual senhora? pergunto, tentando não parecer nervoso.
Não sei. Vem sempre quando a mãe sai à noite.
O meu coração falhou uma batida.
Para onde vai a mãe?
Encolheu os ombros. Ela não me diz.
As minhas mãos tremem.
Comecei a investigar. Precisava de saber a verdade.
E, quando soube, tudo escureceu à minha volta.
Ela contratou uma ama.
Enquanto eu suplicava por cada segundo com o meu filho, ela deixava-o com uma estranha.
Agarrei no telemóvel e liguei-lhe logo.
Porque é que uma estranha cuida do nosso filho, quando eu estou aqui?
A voz dela foi calma, indiferente. Porque assim é mais fácil.
Mais fácil?! Rangia-me os dentes de raiva. Eu sou o pai! Se não estás, ele devia ficar comigo!
Ela suspirou. Tiago, não vou levá-lo sempre até ti quando tenho planos. Isto não é sobre ti.
Aperto tanto o telemóvel na mão que quase o parto.
O que posso fazer? Ir para tribunal? Lutar pela custódia? E se voltar a perder?
Bastou um erro.
Um momento de fraqueza.
E perdi tudo.
Mas o meu filho?
Esse não vou perder.
Vou lutar.
Porque é a única coisa que ainda me resta.







