Traição e Ultimatos: Entre Uma Mãe Que Busca o Perdão e Um Marido Que Faz Chantagem Emocional – O Duro Retrato de Uma Família Portuguesa à Beira do Abismo

Traiu e ainda impõe condições

Ouve, Beatriz, não tenho nem tempo, nem paciência para ouvir as tuas lamentações intermináveis.

Ou desligas já esse modo de vítima ofendida e continuamos a viver normalmente, ou amanhã faço as malas e ficas tu a explicar à nossa filha porque é que o pai foi embora.

Tu explicas! Entendeste?

Normalmente, como, Duarte? perguntou ela em voz baixa. Como se nada tivesse acontecido? Como se eu não tivesse lido aquelas mensagens?

Como se o Ricardo Oficina não te tivesse enviado um SMS às duas da manhã a dizer que tinha saudades das tuas mãos?

Duarte suspirou alto, e começou a tirar as sapatilhas sem desatar os atacadores, carregando com força no calcanhar.

Outra vez Sempre o mesmo disco. Já te disse em bom português: acabou. Estou em casa? Estou. Estou contigo? Estou. Dou dinheiro? Dou.

Que te falta mais? Queres que me ajoelhe? Esquece, não vais ver isso!

Não é isso. Só queria que me tratasses como sempre, em vez de me falares como se eu te fosse um peso. Estás sempre a responder mal, sempre com ironias, piadas más…

Porque és insuportável! interrompeu ele. Andas pela casa feita fantasma, com aquela cara de quem acabou de comer limão.

Achas que dá gosto voltar para casa assim? Mal entro, leva logo com interrogatório ou então fazes de conta que nem existo!

Qualquer mulher decente já teria engolido o assunto pela família. Mas não, tu tens mesmo que estar sempre a mexer na ferida.

Passou por ela em direção à cozinha, batendo-lhe no ombro. Beatriz vacilou, mas ficou firme.

Sempre achou que tinha tirado a sorte grande. Duarte o bem-sucedido, decidido, excelente pai. Tinham uma filha, a Maria Inês, de cinco anos; casa própria; ambos empregos estáveis.

A traição, que aconteceu há seis meses, não tinha sido um puro acaso o marido levava uma segunda vida há uns tempos.

Beatriz soube por acaso Maria Inês andava a brincar com o telemóvel do pai, quando apareceu uma notificação: Ricardo Oficina queria saber se o Duarte já tinha comprado aquela lingerie que lhe ficava tão bem.

Quando a verdade veio ao de cima, Duarte nem sequer tentou negar. Primeiro calou-se, depois irritou-se, por fim atirou:

Sim, aconteceu. Foi e já passou. Não faças um drama, estou aqui, não estou?

Durante estes seis meses, nem um pedido de desculpas, nada de arrependimento. Nem parecia sentir-se culpado, e era isso que mais magoava Beatriz.

Quando ela entrou na cozinha, já o marido estava sentado, a mexer no telemóvel. Tinha à frente o prato de peixe no forno, que ela tinha tapado com cuidado, para não arrefecer.

Poupaste no sal? resmungou ele, destapando o prato. Ou as lágrimas tiraram-te o paladar?

Duarte, basta. A Maria Inês está no quarto, ouve tudo.

Que ouça riu-se, levando mais um garfo à boca. Assim aprende que a mãe faz de tudo para o pai fugir de casa. É isso que queres? Que eu me vá embora?

Eu só queria que fosses uma pessoa decente. Prometeste que ias lutar pela família. Achas que magoar-me é trabalhar para isso?

Duarte pousou o garfo.

Escuta, querida. Uma família é como um projeto, e eu empenho-me neste projeto. Brinco com a miúda, pago-lhe os cursos e levo-a ao colégio.

Tu querias que a filha tivesse pai? Tem. Agora não sou obrigado a ser simpático só porque há três meses andas com esta cantiga!

Já avisei: ou assunto arrumado de vez ou vou-me embora. E se for, ficas sem dinheiro.

Dividimos a casa, vais ter de vender o apartamento. Vais-me pagar milhares.

Tens esse dinheiro? Não tens. Vais acabar de aluguer, noutro bairro, outra escola para a Maria Inês. Vais sujeitá-la a isso?

Beatriz calou-se. Ele conhecia-lhe as fraquezas melhor do que ela própria. Só de pensar na filha a mudar de vida, a perder os amigos, a viver num T1 velhinho, enquanto a mãe anda pelos tribunais, arrepiava-a.

Então fica calada concluiu Duarte. Come, vá lá. Estás só pele e osso, fico maldisposto só de olhar.

***

À noite, quando Maria Inês já dormia abraçada à sua coelha de peluche, sentei-me na varanda sem conseguir parar de pensar.

Duarte sempre foi o bom pai padrão: não bebia, nunca foi violento e a Maria Inês adorava-o.

Papá, és o meu herói dizia-lhe todas as manhãs.

Como é que eu iria destruir este mundo dela?

Do quarto, ouvi a voz do Duarte falava ao telefone com alguém. Fiquei à escuta, apesar de não querer.

Sim, está combinado para amanhã. Claro. Olha, já te disse, resolve-se. Ela chora, depois acalma. Não tem para onde ir, estamos todos no mesmo barco.

Fiquei gelada. Era assim que ele falava de mim… Abri a porta da varanda de rompante.

Duarte estava estendido no sofá, de pernas para o ar. Mal me viu, despachou logo a chamada.

Com quem falavas? perguntei.

Com um colega. Queres a lista dos contactos? estendeu-me o telemóvel, teatralmente. Vá, faz de detetive outra vez.

Mas se eu vir aí uma mensagem apagada, seja o que for, amanhã vou direitinho para casa da minha mãe. E depois não me venhas chorar.

Achas isto normal, Duarte? aproximei-me. Sentes mesmo que podes impor condições depois do que fizeste?

Sinto. Porque eu é que sou o homem, e decido como se vive nesta casa. Tu ficas ou vais à tua vida.

Ele levantou-se, aproximando-se de mim.

Mas sabes uma coisa, Beatriz murmurou ao meu ouvido nenhum homem vai amar a tua Maria Inês como eu amo. Vão tolerá-la enquanto fores jovem e gira.

Depois, ela vai ser um estorvo. É isso que queres para ela? Um padrasto que nem quer saber?

És um canalha, Duarte sussurrei.

Sou realista afastou-se, com um sorriso. Olha, vou tomar banho. Deixa-me a camisa vinho preparada. Com ferro, que hoje tinha uma dobra no colarinho. Detesto isso.

Foi para a casa de banho. Fiquei ali, plantada no meio da sala, a sentir-me a encolher.

***

De manhã, começou tudo ao ritmo do costume. Fui fazer panquecas de requeijão, a Maria Inês birrenta porque não queria vestir as meias grossas.

Duarte apareceu na cozinha com a tal camisa acabei por a passar a ferro.

Mãe, vamos no sábado ao jardim zoológico?

Claro, minha querida forcei um sorriso.

Pai, tu também vais? Prometeste que ias mostrar o leão grande!

Duarte fez-lhe uma festa no cabelo, e ao toque da filha, tornou-se outro.

Vou contigo, princesa. Se a mãe se portar bem e não chatear o pai, claro que vamos.

Quase deixei cair a espátula.

Duarte, estás a ouvir-te? sibilei, enquanto a Maria Inês via os desenhos.

O quê? levantou as sobrancelhas, inocente. Estou só a ensinar a hierarquia da família.

Não queres que, por causa das tuas birras, estraguemos o fim de semana, pois não?

Não respondi. Ele, mais uma vez, escudava-se na filha.

***

No trabalho, andei absorta todo o dia. Os colegas perguntaram se estava bem; desviei o assunto, dizendo que andava cansada.

Na hora de almoço, fui espreitar os anúncios de arrendamento. Os preços eram impossíveis, e as casas decentes no nosso bairro desapareciam num instante.

As opções acessíveis ficavam do outro lado de Lisboa.

Duas horas para cada lado. O colégio fecha às seis. Não vou conseguir ir buscá-la a tempo, pensei, fechando o portátil. Para onde é que eu vou? Como dar volta a isto?

Uma hora antes do fim do turno, ele ligou:

Olha, hoje vou chegar tarde. Tenho assuntos. Jantem sem mim. Ah, Beatriz…

O quê?

Compra um vinho tinto, meio doce. Daqueles bons. Depois conversamos, calmamente, sem cenas.

Duarte, eu não…

Não estou a perguntar interrompeu. Estou a dar-te uma oportunidade para melhorarmos o ambiente aqui. Não estragues. Beijinhos para a Maria Inês.

Desligou. Fiquei a olhar para o écran até este se apagar. Arriscar conversar? Mal não faz

***

Maria Inês adormeceu logo, e fui ficando na cozinha. A garrafa de tinto estava na mesa dei por mim a odiar-me por aquela fraqueza.

Duarte chegou perto das onze, levava um ar bem-disposto.

Boa miúda deu-me um beijo, e eu afastei-me instintivamente. Vá, não te armes. Anda, bebe um copo comigo.

Estava a pensar… Devíamos ir de férias. Que tal o Algarve para o mês que vem? Os três. A Maria Inês adora praia, já tenho um hotel em vista.

Duarte, férias?! fiquei atónita. Vivemos como estranhos!

Isso és tu que insistes saboreou o vinho. Eu é que tento remendar as coisas. Mas! Quero que prometas: nunca mais se fala do assunto.

Nem uma insinuação, nada de mexer no telemóvel, nem lágrimas. Só vivemos como se nada disto tivesse acontecido!

E a confiança? encarei-o.

A confiança é um luxo que agora não podes pagar sorriu. Precisas de estabilidade, a Maria Inês precisa do pai, esta casa precisa do chefe de família.

Tens tudo isso. O preço? O teu silêncio. Acho que é um bom negócio.

E se não aceitar?

Pousou o copo devagar.

Então amanhã fazes-te à vida. Estou farto deste empurra-empurra, Beatriz.

Preciso de paz, não de uma mulher a remoer o passado.

Se não consegues perdoar e esquecer não temos futuro.

Mas lembra-te: tiro-te tudo o que conseguir. E vais culpar a tua teimosia!

Saiu, deixando-me ali sentada, na escuridão da cozinha, ouvindo o barulho do duche. Sabia que era rudeza, chantagem pura.

Há mulheres fortes que agarravam no copo e lho atiravam à cara antes de desaparecer noite fora. Mas eu não sou forte

Sou mãe em primeiro lugar, e tenho de pensar na minha filha. Toda a gente erra.

Se o meu marido tropeçou uma vez, por amor à Maria Inês devo tentar esquecer

Mãe? ouvi uma voz baixinha vinda do corredor.

Limpei as lágrimas. Maria Inês estava na porta.

Mãe, tive um sonho mau. Onde está o pai?

O pai está em casa, minha querida peguei-a ao colo, apertando-a forte. Está a tomar banho, não foi a lado nenhum. Vem cá, está tudo bem. Estamos todos juntos.

A sério? ela encostou o nariz ao meu pescoço. Vamos estar sempre juntos?

Fechei os olhos, a sentir o coração a partir-se em mil pedaços.

Sempre, meu amor. Sempre.

Ao deitá-la, decidi: ia manter a família unida. Amanhã começo do zero, faço por esquecer a traição. AmanhãMas na manhã seguinte, enquanto penteava o cabelo da Maria Inês, vi o reflexo das minhas olheiras profundas no espelho. Por cima da camisola cor-de-rosa dela, vi os meus próprios ombros curvados, tão pequenos. Maria Inês sorria despreocupada porque confiava que eu era capaz de tudo. E eu, que prometera lutar por ela, percebi de repente aquilo que tinha tentado ignorar: só uma mãe feliz pode crescer uma filha que acredita que merece respeito.

Quando Duarte desceu para o pequeno-almoço, preparou o café, retirou o telemóvel do bolso. Não sorri. Limpei-me das fraquezas. Aguardei que ele se sentasse, longe das palavras que conhecia de cor. E, com a voz mais calma que alguma vez usei, disse apenas:

Duarte, preciso que apanhes a Maria Inês ao colégio hoje. Tenho algo importante para tratar.

Ele olhou-me de lado, desconfiado. Mas não respondeu. Pegou nas chaves. E eu continuei:
E, quando voltares, já não estarei aqui.

Ele hesitou por um momento, mas o costumeiro desdém voltou-lhe aos lábios.
Vê lá onde vais arranjar melhor do que eu.

Não respondi.
Esperei que saísse. Segurei a mãozinha da minha filha, vesti-lhe o casaco.

No caminho até à escola, o ar estava fresco e o sol mal nascia mas dentro de mim um outro calor começava. Talvez não soubesse como se recomeça, talvez tivesse medo, talvez a dor fosse enorme. Mas, desta vez, o medo de ficar era muito maior do que o de partir.

Beijei Maria Inês na testa, dei-lhe um sorriso novo, invisível, só nosso. Ela foi a correr para o recreio sem imaginar que naquele dia a mãe finalmente escolhera não sobreviver, mas viver.

Fui para casa e comecei a pôr as minhas certezas dentro de uma mala só as essenciais: a coragem, a esperança, e aquela promessa de amor verdadeiro para Maria Inês. O resto eram apenas coisas.

Sabia que viria tempestade. Sabia que Duarte não facilitaria. Mas, enquanto fechava a porta atrás de mim, pela primeira vez senti-me dona do destino, inteira, impreterivelmente livre.

E foi assim, agarrada à mão da minha filha ao fim do dia, que percebi: para a Maria Inês ser feliz, eu precisava também de ser feliz. Mesmo que isso significasse dizer adeus àquilo a que todos chamavam família e, em troca, dar-lhe o exemplo de uma mãe que se escolhe, se ergue e se salva.

Todos os dias a partir daí, Maria Inês perguntou:
Vai ficar tudo bem, mamã?

E todos os dias, olhando-a nos olhos, respondi com a verdade mais simples que conhecia:

Vai sim, filha. Vai ficar tudo bem. Porque agora já temos liberdade em casa. E onde há liberdade, há sempre futuro.

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Traição e Ultimatos: Entre Uma Mãe Que Busca o Perdão e Um Marido Que Faz Chantagem Emocional – O Duro Retrato de Uma Família Portuguesa à Beira do Abismo
Момченце оставено на вратата на родилния дом рано сутринта, а първи го намери двора вечно усмихнатият дядо Жорко.