Vá lá, Mariana, não te exaltes! Os rapazes só vieram ver o jogo, qual é o problema? Já não nos víamos desde o liceu. Mas olha, vai cortando uns pepinos e aquele chouriço que guardámos para o São João. Cerveja já temos, mas petiscar é que está difícil, a voz do Gonçalo ecoava da sala, abafando o som da televisão e o riso forte dos três homens.
Mariana parou na entrada, ainda com as chaves do apartamento cravadas nos dedos. Tinha acabado de pôr o pé em casa, exausta depois de nove horas de trabalho, e só desejava tirar os sapatos autênticas armas de tortura , desmaquilhar-se e deitar-se no sofá com um livro. O dia fora de loucos. Relatório anual entregue à última hora, chefa aos gritos, dois longos engarrafamentos sob uma chuva miudinha. Vinha para casa como quem procura abrigo. Mas ao abrir a porta, sentiu-se em plena estação de comboios na hora de ponta.
O cheiro forte a cerveja barata misturado com traços de petisco pairava no ar. O seu tapete bege favorito da entrada estava juncado de sapatos de homem, alguns nem sequer limpos. Um casaco caído da bengaleira estendia-se pelo chão como um pássaro abatido.
Mariana inspirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. Avançou até à sala e viu a cena: Gonçalo, o seu legítimo marido, afundado na poltrona, enquanto o sofá era tomado pelo Vitinha, o Paulinho e um barbudo, desconhecido. No centro, na sua mesa de vidro, por ela sempre tão bem limpa, amontoavam-se garrafas, sacos de tremoços, batatas fritas e restos de peixe seco sobre um papel de jornal.
Gonçalo, murmurou Mariana. Tínhamos combinado: nada de convidados durante a semana sem avisar. Estou esgotada. Só quero silêncio.
Gonçalo fez-lhe um gesto, sem desviar os olhos do ecrã, onde vinte e dois bilionários corriam atrás da bola.
Pronto, lá vem o drama! Estou cansada, tenho dor de cabeça Mariana, não sejas velha rezingona. Rapazes, digam-lhe lá!
Ó dona da casa, estamos caladinhos! gritou Vitinha, cuyo caladinhos competia com os motores do aeroporto de Lisboa. Quando marcarmos golo, até dançamos! Olhe que devia juntar-se a nós. Quer uma cervejinha?
Dispenso, obrigada, Mariana sentiu o sangue arrefecer de raiva. O que eu quero é a casa vazia e limpa daqui a dez minutos.
Não faças má figura, Mari, Gonçalo lá olhou para ela, vermelho de descontentamento. Vai lá para a cozinha, faz qualquer coisa de jeito. Tens rissóis no congelador. Os rapazes estão esfomeados. Estás aqui só a chatear.
Mariana fitou-o com um olhar tão gelado como nunca antes. Dez anos de casamento. Dez anos a tentar ser a esposa perfeita: conforto, limpeza, jantares deliciosos. Tolerava as tardes na garagem, as visitas constantes da sogra, as meias espalhadas. Mas algo se quebrou ali. Talvez tenha sido aquele monte de escamas do peixe, ou talvez o tom imperativo do vai cozer os rissóis.
Virou costas, sem uma palavra.
Pronto, ficou ofendida, ouviu ao longe. Já volta, vai trazer de comer. Ela amua, mas passa-lhe.
No quarto, sobre a cómoda, estava a carteira de Gonçalo. Tinha o hábito de despejar ali os bolsos ao chegar: chaves, moedas e cartões. Mariana sabia que, na véspera, tinha recebido o prémio trimestral. Um belo prémio, pensado para o arranjo da varanda ou, na pior hipótese, para pneus novos.
Olhou para o cartão dourado do banco.
O plano surgiu de relance, audaz e louco, impossível para a Mariana de sempre dócil e apaziguadora. Mas essa Mariana ficara para trás. No seu lugar estava uma mulher ávida de respeito. Ou pelo menos de uma pequena compensação moral.
Com passos firmes, pegou no cartão. De seguida, abriu o roupeiro e tirou a pequena mala de viagem. Roupa interior, pijama de seda (aquele que Gonçalo chamava de escorregadio e chato), carregador do telemóvel, nécessaire.
Da sala, ecoou um grito coletivo: Goooooolll! As paredes estremeceram. Alguém saltou no sofá.
Mariana vestiu o sobretudo e calçou-se. Olhou-se ao espelho: olhos cansados, expressão decidida.
Rissóis, hein? Vais ver os teus rissóis, murmurou ao reflexo.
Saiu sem ruído. A porta fechou-se sem que ninguém notasse: o barulho da televisão disfarçava tudo.
Na rua, o frio húmido dejou-a quente por dentro. Com adrenalina a borbulhar-lhe nas veias, chamou um táxi e não foi no económico: pediu logo um negócios.
Um Mercedes preto, com bancos em pele, apareceu em cinco minutos. O motorista, de fato impecável, saiu para lhe abrir a porta.
Boa noite. Para onde vamos?
Para o Hotel Palácio Real, por favor, respondeu Mariana. O mais luxuoso da cidade, cinco estrelas, mármores e porteiros de fraque. Já tinha sonhado a entrar, mas nunca pensou fazê-lo como hóspede.
Excelente escolha, afirmou o motorista.
Durante o caminho, o telemóvel começou a vibrar na mala. Era Gonçalo. Certamente, o intervalo chegara e a fome apertava. Mariana pôs o telefone em silêncio. Que procurasse, pensasse que ela fora ao supermercado pela maionese.
O átrio do Hotel Palácio Real cheirava a perfume caro e flores. O candeeiro de cristal iluminava tudo. Mariana dirigiu-se à receção. A recepcionista, com um sorriso perfeito, olhou para ela.
Boa noite. Tem reserva?
Não, Mariana pousou o cartão dourado do marido no balcão. Preciso de um quarto. Suite, se possível com jacuzzi e vista para o Tejo.
A rapariga, prontíssima, digitou o pedido.
Temos a Suite Presidencial no sétimo andar. Pequeno-almoço incluído, spa aberto toda a noite. São dois mil e duzentos euros a diária. Procedemos à reserva?
Dois mil e duzentos euros. Metade do seu ordenado, ou um terço do prémio do Gonçalo. A poupança de anos quis protestar, mas Mariana esmagou-a sem dó.
Quero mesmo, confirmou, firme.
Preciso do seu cartão de cidadão, por favor.
Mariana entregou o documento. O terminal aceitou o cartão. Pagamento efetuado com sucesso. Imaginou o telemóvel de Gonçalo a receber o SMS: Débito de 2 200 EUR. HOTEL PALÁCIO REAL.
Notará logo? Duvidava. A bola era mais importante.
Um porteiro acompanhou-a ao quarto. Mariana ficou sem fôlego: uma cama king-size de linho imaculado, sala espaçosa com poltronas, casa de banho em mármore maior do que a sua cozinha e janela panorâmica sobre a cidade iluminada.
Assim que ficou a sós, descalçou-se e percorreu a alcatifa, os pés livres. Foi ao minibar. Uma garrafa pequena de champanhe custava tanto como uma caixa da cerveja que o Gonçalo e amigos bebiam.
Que se lixe, murmurou, abrindo a garrafa.
Com um copo de espumante na mão, sentou-se e ligou o telemóvel. Quinze chamadas não atendidas. Três mensagens:
Mariana, onde estás?
Foste ao Pingo Doce? Traz maionese!
Mariana, desapareceste? Os rapazes estão cheios de fome!
Nenhuma palavra de preocupação. Só pedidos. Mariana bebeu um gole de champanhe. Como sabia bem.
Entrou mais um SMS:
Mariana, recebi uma mensagem estranha do banco. Dois mil e duzentos euros?! O cartão desapareceu! Foste tu? Diz alguma coisa!
Ah, reparou. Mariana sorriu e ligou para o serviço de quartos.
Boa noite. Gostava de fazer um pedido. Sei que é tarde, mas estou cheia de fome. Uma salada de polvo, bife médio e tiramisù. E uma garrafa de tinto, de preferência bom. Cobrem por favor ao quarto.
Encheu a banheira, misturou sais aromáticos. O telefone começou a tocar de novo Gonçalo insistente.
Só atendeu já imersa na espuma quente.
Estou?
Mariana! Tu enlouqueceste?! Gonçalo gritava. Ao fundo, silêncio estranho. Os amigos calados, pressentindo desgraça. Onde estás? Que despesa foi aquela? Compraste uma mala de noite?
Não, querido, respondeu, calma. Comprei sossego e respeito. Estou num hotel.
Num hotel?! Para quê, mulher?
Porque a casa parecia mercado e cheirava a peixe. Estava cansada, pedi-te que não trouxesses amigos, não ouviste. Mandaste-me fazer rissóis. Mas não quero. Quero bife e banho de espuma.
Estás bêbeda? Volta já para casa! Isso são as nossas poupanças! Era para a varanda!
A varanda pode esperar. Os meus nervos, não. E olha que ainda há-de chegar outra mensagem por causa do jantar. Não te assustes, deve ser mais uns setecentos euros.
Setecentos por um jantar?! Mariana, estás louca?! Temos rissóis no congelador!
Bom apetite, Gonçalo. Que o Vitinha te faça o jantar. Há-de ser bom amigo.
Mariana, chega de cenas! Volta agora! Os amigos já vão embora!
E o cheiro, vai com eles? E a loiça, lava-se sozinha? Não, Gonçalo. Paguei uma diária. Amanhã ainda vou ao spa. Dizem que é ótimo.
Spa? Mais dinheiro? Mariana, faz favor de voltar! Eu limpo tudo, prometo!
Fico feliz pelo espírito de casa. Aproveita e pratica. Volto amanhã ao almoço. Levantares a voz, fico mais um dia. O cartão está comigo.
Desligou. O jantar chegou. Um empregado empurrou um carrinho coberto por toalha branca, talheres de prata, cheiros divinais. De roupão felpudo, Mariana saboreava o bife e olhava as luzes da cidade.
Pela primeira vez em anos, sentia-se Mulher, com M maiúsculo. Mesmo que tivesse de se mimar à conta do orçamento familiar.
A noite correu lindamente. A cama parecia uma nuvem. Ninguém roncava, ninguém puxava o lençol. De manhã, acordou com raios de sol a entrar pelas cortinas. Sentia-se revigorada.
Foi ao spa: piscina, banho turco, massagem. A massagista, de mãos fortes, murmurava: Menina, tem de cuidar mais de si.
Agora vou cuidar, respondeu Mariana, sentindo-se mais leve.
Quando saiu do hotel, já eram duas da tarde. Ligou o telemóvel: uma chuva de mensagens. Por fim, a de Gonçalo: Arrumei tudo. Estou à espera. Temos de conversar.
Chamou outro táxi negócios, claro e voltou para casa.
Ao entrar, sentiu cheiro a lixívia e limão. E um pouco a remorso.
Gonçalo estava na cozinha, à mesa com chá frio. O apartamento brilhava. Nada de lixo, o tapete limpo, loiça organizada, até o fogão reluzia.
Ao ver Mariana, levantou-se, com olheiras fundo. Dormira mal, decerto.
Chegaste, suspirou. Ó Mariana quase que me deu um ataque. Tens ideia do que gastaste?
Mariana pousou a mala, tirou do bolso o cartão e atirou-o para cima da mesa.
Tenho sim. Dois mil novecentos e trinta euros. É o preço da minha paz, e o teu aviso.
Gonçalo levou as mãos à cabeça.
Dois mil novecentos Por uma noite! Mariana, era quase o orçamento da varanda!
Calcula quanto vale uma empregada, uma cozinheira e uma psicóloga ao longo de dez anos, Mariana sentou-se, olhando-o nos olhos. Estiveste demasiado confortável com uma mulher que fecha a boca e serve. A minha voz tem valor. Ontem mostraste que não te importa o que sinto. Trouxeste um grupo para casa sabendo do meu pedido. Fizeste-me sentir de fora na minha própria casa.
Gonçalo tentou protestar, sem convicção.
Não obriguei foi só porque
Não tens boca para dizer não? Os teus amigos valem mais do que a tua mulher? Mariana falou baixo, certeira. Olha, só te aviso: se se repetir, não vou para um hotel. Vou para sempre. Com divórcio à mistura. Garanto-te que sai mais caro do que estes três mil euros.
Gonçalo ficou em silêncio, olhando o cartão, a mulher, a cozinha impecável. A velha Mariana tinha desaparecido; à frente dele estava alguém renascida, linda e, inesperadamente, forte.
Está bem, resmungou, desviando o olhar. Passei dos limites. O Vitinha também já lhe disse para não voltar.
Muito bem, respondeu Mariana, erguendo-se. Tenho fome. Ainda tens rissóis?
O marido sobressaltou-se.
Não mas fiz sopa! Da instantânea, mas com batata. Queres?
Mariana conteve o riso. Sopa instantânea. Um feito quase heróico.
Quero sim, serve lá.
Comeram em silêncio. Gonçalo olhava-a de lado, à espera de tempestade. Mariana provava a sopa (um pouco salgada), e pensava: aquele dinheiro tinha sido o melhor investimento no casamento. Por vezes, para que nos valorizem, é preciso mostrar o nosso verdadeiro valor. Literalmente.
À noite, assistiam a um filme escolhido por ela uma comédia romântica , e a certa altura Gonçalo aproximou-se, abraçando-a.
Mariana
Hmm?
Aquilo lá no hotel era mesmo bom?
Ótimo. Jacuzzi, vista para o Tejo, roupão fofo
Se calhar, um dia devíamos ir juntos. No aniversário, talvez? Depois de pouparmos um bocado.
Mariana encostou a cabeça no ombro dele.
Combinado. Mas agora o teu cartão fica contigo. Nunca se sabe quando me volta a apetecer um bife às tantas.
Gonçalo soltou um riso nervoso e apertou-a mais.
Agora aprendo eu a fazer bifes. Sai mais barato.
Passaram-se seis meses. Agora só havia visitas em casa se Mariana aprovasse, e apenas ao fim de semana. O mais incrível: Gonçalo começou a lavar a loiça sem ninguém pedir. Pelos vistos, o fantasma do Palácio Real e menos três mil euros motivaram-no bem mais do que anos de conversas.
E Mariana abriu uma conta em seu nome: Fundo de Reserva. Todos os meses juntava um pouco. Só para garantir que, quando precisasse, haveria sempre dinheiro para um luxo com vista para o Tejo. Só por saber, sentia-se segura e em paz.
Às vezes, para que nos amem e respeitem, temos de amar-nos primeiro. E nunca, mas nunca esquecer o nosso valor.







