Certa noite recebi um telefonema da minha tia de Lisboa, aquela que só vejo de 20 em 20 anos, convidando-me para o casamento da filha dela — minha prima distante, que não via desde que era uma miúda de 6 anos. Como não sou dada a grandes sentimentalismos familiares, tentei dar uma desculpa, mas ela não me deixou fugir: “Pelo menos uma vez em 20 anos temos de nos encontrar, nem penses em faltar”, disse ela, num tom irrepreensível. Chegou o convite com pombinhos e rosas — assinado pela Svetlana e o Anatólio — e dias antes reforçou o lembrete: lá tive de ir. Pronto, lá se ia o meu sábado… Chego ao restaurante, bouquet na mão, mau humor e vontade de fugir discretamente passado uma hora. Sentam-me na mesa de uma gente jovem e animada — amigos do noivo —, que logo acham imensa graça à “tia gira da noiva”, e vamo-nos conhecendo e animando. Claro que à noiva não a reconheci: de menina morena e envergonhada passou a loira exuberante de peito em riste. Preferia-a miúda. O ambiente era estranho: tias embirrentas, tios rabugentos, noivo de ar aterrorizado, noiva vaidosa do novo físico, e se não fosse a animação da minha mesa, pareceria um velório. As tias de lado olhavam-me de esguelha. Falhei o 1º brinde, no 2º calhou-me a mim. O animador grita: — Agora a jovem e bonita tia da noiva vai dar os parabéns aos noivos! E eu, entusiasmada: — Queridos Svetlana e Anatólio! De repente, silêncio de pedra. Percebo que não vejo a minha tia. “A noiva chama-se Lurdes — sussurra uma tia de rosa. — E o noivo é o António.” “Como Lurdes? Mas aqui diz Svetlana e Anatólio!” “Vêm comer e beber à borla, gente sem vergonha”, resmunga outra tia. E vejo os olhares cravados em mim, já prontos para o escândalo. Sacudo o convite: — Mas está aqui! Luzes, restaurante, salão de festas, tudo igual! Salva-me o empregado: — Ó menina, há outro salão no 2º andar, será que é lá? “Pois, quer jantar de borla nos dois”, rosna a tia de rosa. “A bossa de certas pessoas não tem limites, autêntica aventureira!” “Pois, e ainda dizem que a lata é uma felicidade”, acrescenta outra tia. Não sendo eu nenhuma aventureira, já ganhava fama e os amigos do noivo lá tentam defender-me, só para ouvirem: “Já andou a enfeitiçar os nossos homens!” E a senhora de rosa para rematar: “Assim é que o nosso contabilista ficou sem marido — nem se pode piscar o olho que logo elas atacam.” Nunca roubei marido alheio, mas ali, já me sentia culpada de tudo. E quase que ponderava olhar para os maridos ali da sala, já que ia levar por tudo… Valha-me o empregado, que foi ao outro salão, trouxe finalmente a minha tia de Lisboa — que jura que me conhece, piscando-me o olho, como se eu sempre tivesse tido um parafuso a menos. Enfim, evacuam-me para o salão certo, onde estavam realmente a Svetlana e o Anatólio, e ali sim, fui tratada a bons copos e muita animação. Felizmente não cheguei a dar o presente errado. Só tive pena que quem me foi levar à porta no fim foram os amigos do noivo… do primeiro casamento!

Uma vez, recebi um telefonema de uma tia afastada, que me convidava para o casamento da filha dela minha prima de mil graus, que eu via pela última vez quando ela tinha uns seis anos. No tempo em que ela tinha seis anos, diga-se.

Nunca fui pessoa dada a sentimentalismos familiares, mas fugir ao convite não deu resultado.
Ao menos de vinte em vinte anos, podíamos encontrar-nos. Quero ver tentares faltar! bradou a tia com voz de quem move montanhas.
Veio então o convite, muito fofinho, com pombinhos e rosas, assinado por Mafalda e Rui. Ainda insistiram dois dias antes do casamento para garantir a minha presença. Lá tive de ir.
Pronto, pensei. Lá se vai o meu sábado, mas, enfim, não havia como escapar.

E assim, lá fui eu, perdida em pensamentos, com um ramalhete de flores na mão, o ânimo estragado e uma vontade enorme de sair de fininho ao fim de uma hora, tipo à inglesa. Cheguei ao restaurante, entrei no salão do banquete e puseram-me numa mesa cheia de jovens animados os amigos do noivo, já meio alegres depois de uns copos, que não se cansavam de dizer que a tia da noiva era um espetáculo, que nem parecia tia, e mais valia aproveitar a noite para se divertir à grande. E foi o que fizemos.

A noiva, claro, nem a reconheci. O tempo tinha transformado aquela miúda moreninha numa loira exuberante, com um decote que ofuscava. Gostava mais dela ratinha discreta, confesso.
O ambiente, ao todo, era meio sombrio: uma multidão de tias carrancudas, tios sisudos, o noivo com ar de quem queria fugir, a noiva convencida da sua beleza e do busto, e, se não fosse pelo grupo animado da minha mesa, o clima parecia velório. As tias olhavam-nos com profundo desagrado.

Perdi o primeiro brinde, mas entrou logo o segundo. Coube-me a honra. O mestre de cerimónias, depois de descobrir quem eu era, anunciou cheio de alegria:
Agora, a jovem tia da noiva, tão bela, vai dirigir umas palavras aos noivos!

E eu, à portuguesa, disse com sentimento:
Queridos Mafalda e Rui!
A festa, que já era morna, gelou de vez. Pairou um silêncio estranho, daqueles de filme, e nesse instante apercebi-me de que não via a minha tia ali e duvidava seriamente que tivesse mudado tanto ao ponto de não a reconhecer.

A noiva chama-se Leonor sussurrou pesada uma tia de rosa à minha frente. E o noivo é Miguel.
Como assim, Leonor? E que Miguel?
Olha estas! Vêm para festas dos outros comer e beber de graça, resmungou a tia. Assim foi no jantar de despedida do meu neto antes do exército, só à conta e custou que se fossem embora. Não têm vergonha na cara.

Então, caiu-me a ficha: o verdadeiro baile só estava a começar. Os convidados pareciam abutres, olhos a brilhar, meio levantados. Ainda não tinham arregaçado as mangas, mas faltava pouco.

Mas esperem, tenho aqui o convite! gritei (sim, gritei), agitanto o tal convite no ar. Está tudo aqui, Mafalda e Rui, este restaurante, este salão.

Salvação surgiu do empregado.
Menina disse ele com ar gentil, há outro salão no segundo andar. Talvez procure aí.

Claro, ela quer é jantar outra vez à borla, tropeçou a tia de rosa. Marca presença e se despacha para comer mais de pois. Assim vai o mundo! Que descaramento!

O descaramento, D. Rosária, é uma bênção, meteu-se outra tia, de verde, ainda mais antipática.
Devo salientar que não parecia nada nem de perto nem de longe uma vigarista, mas como dizem, por vezes os de fora vêem melhor. Os amigos do noivo tomaram o meu partido o que lhes valeu logo uma farpa da tia roxa:
Vejam bem, já anda a encantar os homens todos!
E a de rosa terminou:
Assim é que a do nosso chefe da contabilidade ficou sem marido. Basta desviar o olhar já lhe estão a cortar as solas dos sapatos, verdadeiras malvadas!

Nunca fui de roubar maridos, mas acabei a encarar os homens presentes, a pensar, por que não, já que me vão acusar do mesmo… o que vier, veio.

Graças a Deus, o abençoado do empregado foi chamar a minha tia ao outro salão e ela, ao perceber o que se passava, jurou solenemente que me conhecia. Deu-me uma piscadela marota, ora para mim, ora para o lado oposto, tentando transmitir, por gestos esquisitos, que o meu juízo sempre foi coisa para lá do misterioso.

Depois disso, evacuaram-me para o salão certo, onde estavam a verdadeira Mafalda morena e um qualquer Rui, que já nem recordo, e onde me encheram de ginja e bagaço para aliviar o susto.
Ao menos, nem cheguei a dar o presente.

Mas despediram-se de mim os amigos do noivo da outra boda.

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Certa noite recebi um telefonema da minha tia de Lisboa, aquela que só vejo de 20 em 20 anos, convidando-me para o casamento da filha dela — minha prima distante, que não via desde que era uma miúda de 6 anos. Como não sou dada a grandes sentimentalismos familiares, tentei dar uma desculpa, mas ela não me deixou fugir: “Pelo menos uma vez em 20 anos temos de nos encontrar, nem penses em faltar”, disse ela, num tom irrepreensível. Chegou o convite com pombinhos e rosas — assinado pela Svetlana e o Anatólio — e dias antes reforçou o lembrete: lá tive de ir. Pronto, lá se ia o meu sábado… Chego ao restaurante, bouquet na mão, mau humor e vontade de fugir discretamente passado uma hora. Sentam-me na mesa de uma gente jovem e animada — amigos do noivo —, que logo acham imensa graça à “tia gira da noiva”, e vamo-nos conhecendo e animando. Claro que à noiva não a reconheci: de menina morena e envergonhada passou a loira exuberante de peito em riste. Preferia-a miúda. O ambiente era estranho: tias embirrentas, tios rabugentos, noivo de ar aterrorizado, noiva vaidosa do novo físico, e se não fosse a animação da minha mesa, pareceria um velório. As tias de lado olhavam-me de esguelha. Falhei o 1º brinde, no 2º calhou-me a mim. O animador grita: — Agora a jovem e bonita tia da noiva vai dar os parabéns aos noivos! E eu, entusiasmada: — Queridos Svetlana e Anatólio! De repente, silêncio de pedra. Percebo que não vejo a minha tia. “A noiva chama-se Lurdes — sussurra uma tia de rosa. — E o noivo é o António.” “Como Lurdes? Mas aqui diz Svetlana e Anatólio!” “Vêm comer e beber à borla, gente sem vergonha”, resmunga outra tia. E vejo os olhares cravados em mim, já prontos para o escândalo. Sacudo o convite: — Mas está aqui! Luzes, restaurante, salão de festas, tudo igual! Salva-me o empregado: — Ó menina, há outro salão no 2º andar, será que é lá? “Pois, quer jantar de borla nos dois”, rosna a tia de rosa. “A bossa de certas pessoas não tem limites, autêntica aventureira!” “Pois, e ainda dizem que a lata é uma felicidade”, acrescenta outra tia. Não sendo eu nenhuma aventureira, já ganhava fama e os amigos do noivo lá tentam defender-me, só para ouvirem: “Já andou a enfeitiçar os nossos homens!” E a senhora de rosa para rematar: “Assim é que o nosso contabilista ficou sem marido — nem se pode piscar o olho que logo elas atacam.” Nunca roubei marido alheio, mas ali, já me sentia culpada de tudo. E quase que ponderava olhar para os maridos ali da sala, já que ia levar por tudo… Valha-me o empregado, que foi ao outro salão, trouxe finalmente a minha tia de Lisboa — que jura que me conhece, piscando-me o olho, como se eu sempre tivesse tido um parafuso a menos. Enfim, evacuam-me para o salão certo, onde estavam realmente a Svetlana e o Anatólio, e ali sim, fui tratada a bons copos e muita animação. Felizmente não cheguei a dar o presente errado. Só tive pena que quem me foi levar à porta no fim foram os amigos do noivo… do primeiro casamento!
Свекървата ми се обиди, защото отказахме да приютим нейния разглезен син-ученик в нашия двустаен апартамент