O meu marido nunca me traiu, mas há anos deixou de ser meu marido.
Dezassete anos com o Duarte. Conhecemo-nos ainda jovens lá em Coimbra, quando a cidade parecia feita de névoa e promessas. Trabalhávamos em bancos diferentes, saíamos à noite pela Baixa, fazíamos planos curtos e longos ao sabor dos pastéis de nata e de cafés servidos em chávenas com falhas. No princípio ele era atencioso, falava como quem acende velas, amava-me com uma tranquilidade antiga. Não era perfeito, mas estava presente, ao meu lado, com o olhar cheio e as mãos quentes.
Depois vieram o casamento, as responsabilidades, a rotina da casa na Lapa, as contas de euros empilhadas no aparador como notas de uma canção fora de tom. Tudo se transformava à minha volta, sem que eu conseguisse apontar o exacto momento em que deixei de o reconhecer.
Não houve traição concreta. Nenhuma mensagem descoberta escondida entre os papéis do Multibanco, nenhuma mulher vinda do Largo do Carmo. Só um dia comecei a perceber que já não me olhava da mesma forma. As conversas resumiam-se ao que era estritamente necessário: o que falta comprar no Pingo Doce, que contas pagar ao final do mês, a que horas sair para apanhar o autocarro. Deixámos de nos perguntar como estás. As histórias que lhe contava perdiam-se entre o brilho azul do telemóvel e o zapping sem destino na televisão. Se eu me calava, ele não perguntava nada.
A proximidade desvaneceu-se sem uma única palavra. Pensei que fosse stress do trabalho no escritório ou cansaço da vida que se arrastava madrugadas dentro. Depois, julguei que fosse só o hábito essa palavra que se instala como o bolor nos azulejos antigos das casas lisboetas. Passavam-se semanas sem nada. Dormíamos na mesma cama, mas sempre longe, encolhidos cada um nas margens dos lençóis de linho. Tentei aproximar-me, puxar conversa, sonhar outros planos. Ele respondia entre suspiros:
Falamos amanhã.
Esse amanhã nunca chegou.
A certo ponto percebi que Duarte já não era meu marido, mas simplesmente o meu companheiro de casa. Partilhávamos contas, rotinas, silêncios ao jantar e a obrigação do Natal com a família. Quando aparecíamos em festas na casa de amigos, ele era o marido ideal calmo, trabalhador, educado. Ninguém imaginava o que flutuava entre as paredes da nossa sala de estar. Ninguém ouvia o silêncio denso. Ninguém notava aquela ausência que pasteuriza tudo à sua volta.
Tantas vezes tentei falar com ele. Confessei-lhe a minha solidão, disse-lhe que sentia falta dele, que precisava de mais do que uma coreografia de convivência. Ele nunca se zangava. Nunca levantava a voz. As respostas soavam como pedras no fundo do rio:
Não faças disso um drama.
É assim nos casamentos velhos.
Estamos bem, não estamos?
Era isso que me confundia: não havia nenhuma grande tragédia a justificar a minha partida. Não havia traição. Mas também já não havia amor. Passei a sentir-me invisível dentro do meu próprio casamento.
O tempo foi passando. Deixei de insistir. Deixei de me esforçar para ele. Deixei de partilhar o que sentia. As minhas histórias passaram a fazer eco dentro de mim, fechadas a sete chaves. Habituei-me a não esperar nada, a viver como quem já não acredita no próximo capítulo. Por vezes pensava que talvez o problema fosso meu, que era eu que queria de mais, como alguém que pede um verão perpétuo em Lisboa.
Hoje aprendi: nem todo o abandono chega com malas feitas e sapatos a bater na calçada.






