Mãe, somos nós, os teus filhos Mãe Olhou para nós.
Maria e António viveram toda a vida com dificuldades. Ela já tinha perdido a esperança de ter uma vida feliz e desafogada. Foi em tempos jovem, apaixonada, e sonhou com um futuro cheio de luz para os dois. Mas a vida não seguiu o caminho que ela imaginara. António trabalhou sempre muito, ganhando pouco. Para piorar, ela engravidou. Tiveram três rapazes, um a seguir ao outro. Maria já não trabalhava havia anos. Só o ordenado do marido não chegava para quase nada. Os miúdos cresciam e precisavam de roupa e sapatos.
Quase todo o ordenado ia para comida. Depois ainda vinha a eletricidade, água e outras despesas. Doze anos assim pesaram na família. António começou a beber. Entregava o salário inteiro em casa, mas chegava diariamente embriagado. Maria foi perdendo a esperança e a paciência. Um dia, António voltou para casa, bêbado, com uma garrafa de bagaceira meio vazia na mão. Maria perdeu a cabeça, tirou-lhe a garrafa e acabou por beber ela própria. Daí em diante, passou também a beber.
Algum tempo depois, sentiu-se melhor. Os problemas pareciam desaparecer. Até começou a sentir-se mais animada. Daí para a frente, esperava quase todos os dias pela bebida que António lhe trazia. E assim começaram a embebedar-se juntos.
Maria esqueceu-se dos filhos. Os vizinhos do bairro já murmuravam, espantados com a forma como a aguardente lhe mudara a cabeça. Mais tarde, os rapazes começaram a andar pelo bairro, a pedir comida. Um dia, uma vizinha perdeu a paciência e disse-lhe frontalmente:
Ó Maria, mais valia entregares os garotos a uma casa de acolhimento do que deixá-los morrer à fome. Até quando vais beber sem pensares nos teus filhos?
Essas palavras ficaram a zumbir-lhe na cabeça. O pensamento não a largava. Talvez fosse melhor, pensava ela, não ter os miúdos sempre debaixo dos pés. Passado um tempo, Maria e António acabaram mesmo por deixar os filhos. Os rapazes foram entregues a uma instituição. Choravam e esperavam pelos pais, mas ninguém vinha buscá-los. Maria e António já nem se lembravam deles.
Passaram-se alguns anos. Um a um, os rapazes saíram da instituição. Cada um recebeu um pequeno T0 camarário. Pelo menos tinham onde morar. Arranjaram trabalho. Ajudavam-se sempre uns aos outros. Nunca falavam dos pais, mas todos desejavam vê-los e sinceramente queriam perguntar-lhes porque lhes fizeram aquilo.
Um dia, combinaram encontrar-se e seguiram de carro até ao bairro onde tinham crescido. Pelo caminho cruzaram-se com a mãe, que ia devagar, a arrastar os pés até casa. Ela passou por eles sem olhar.
Mãe, somos nós, os teus filhos Mãe
Ela encarou-os, com um olhar perdido. De repente, reconheceu-os.
Desatou a chorar, a pedir perdão. Mas como se perdoa algo assim? Os rapazes ficaram imóveis, sem saber o que dizer. Depois perceberam que, fosse como fosse, ela era a mãe deles. E perdoaram-na.
No fim desse dia, aprendi que perdoar é difícil, mas por vezes é o único caminho para seguir em frente com o coração mais leve.







