– Vai-te embora! – Gritou Boris. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte a pôr os pés aqui! – Vai-te embora! – Gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido falar assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou na mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! …A Aninhas dormia, de braços abertos como uma pequena estrela-do-mar. Maria ajeitou-lhe o cobertor. Gostava de ficar assim, só a olhar para a filha. Sonhou com ela durante tantos anos, lutou tanto para ser mãe. O marido chegou do turno da noite – percebeu pelo ruído no hall de entrada. Maria saiu do quarto da menina, fechando a porta suavemente. Boris descalçava-se. Exausto, nitidamente mais magro. Trabalhou como um boi para pagar os empréstimos que tinham contraído para os tratamentos de fertilidade. – Está a dormir? – Perguntou ele em voz baixa. – Está. Comeu e adormeceu logo. Boris puxou Maria para junto de si, encostou o rosto ao pescoço dela. Raramente falava sobre amor, mas Maria sabia que ele lhe era grato até à loucura. Por não o ter abandonado, por não o ter trocado por alguém saudável, por tê-lo feito feliz. Aos dezasseis anos, Boris teve papeira “em pé” – teve vergonha de contar à mãe que estava inchado e que doía. Quando contou, já era tarde. As complicações trouxeram-lhe quase esterilidade total. – A mãe telefonou, – disse Boris baixo, sem largar Maria. Maria ficou tensa. – O que quer a dona Alice? – Vem aí. Ao almoço está cá. Diz que trouxe uns bolos, que tem saudades. Maria suspirou, soltando-se do abraço. – Boris, achas mesmo que é boa ideia? Da última vez deixou-me em lágrimas com os conselhos para lavar com bicarbonato. – Maria, é a mãe… Quer ver a neta. Passou um ano e só viu a Aninhas em fotografia. É avó, afinal. – Avó… – sorriu Maria, com amargura. – Que considera a nossa filha uma “intrusa”. Adotaram a Aninhas há um ano. As listas de espera por recém-nascidos saudáveis na região eram tão longas que só dava para desesperar. Ajudaram contactos, um envelope generoso “para a maternidade” e a sensatez de uma amiga enfermeira. A menina nasceu de uma adolescente de dezasseis anos, assustada, desamparada, para quem um filho significaria o fim da vida. Maria lembrava aquele dia: um pequeno embrulho de três quilos e duzentos, e uns olhos azuis a fitá-la. – Está bem, – disse Maria. – Que venha. Sobrevivemos. Mas se ela começar outra vez… – Não vai começar, prometo – disse Boris. A sogra chegou para o almoço. Alice entrou na casa ocupando todo o espaço. Era uma mulher corpulenta e barulhenta, com aquele jeito aldeão capaz de parar um cavalo, apagar um incêndio e dar cabo do juízo de quem estivesse à volta. – Ai, meu Deus! – Queixou-se ela à porta, pousando a mala quadriculada no chão do hall. – O transporte é um horror! Comboios abafados, no metro só empurrões. – Por que razão vivem tão alto? O elevador rangia, achei que ia morrer! – Bom dia, mamã, – Boris deu-lhe um beijo na face e levou-lhe a mala pesada. – Venha, lave as mãos. Alice tirou o casaco, exibindo um vestido com padrões florais que moldava as formas robustas, e olhou logo de cima a baixo para Maria. Olhou-a como se fosse um cavalo à venda. – Olá, Dona Alice, – sorriu Maria. – Olá, olá, – a sogra crispou os lábios. – Estás tão mirrada, Maria. Só ossos. O marido vai agarrar-se a quê? Boris está magro, noto eu. Não o alimentas bem? Só comes relva e deixas o homem à fome? – O Boris come bem, – cortou Maria, corando. – Venha para a mesa. Na cozinha, Alice começou logo a abrir a mala – de lá tirou recipientes com empadas, um frasco de pepinos em conserva, um pedaço de toucinho. – Comam. Nesta cidade só há comida artificial. Mastigam plástico. Sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos pesados. – Então, contem-me. Como vai a vida? Já pagaram esses… experimentos? Maria apertou o garfo. “Experimentos!” Assim chamava a seis anos de dor, esperança e desespero. – Quase pagámos, mamã, – resmungou Boris, servindo-se de salada. – Não falemos de dinheiro. – E falamos de quê? – estranhou a sogra, mordendo uma empada. – Do tempo? O irmão do Boris, lá na aldeia, já tem terceiro filho. A menina saudável, linda! Quatro quilos! E a Tânia, a irmã, está grávida de gémeos. Isso é que é saúde! A nossa linhagem, Boris, é forte. Somos férteis. Olhou Maria com significado. – Se não se estragarem os genes, claro… Maria pousou o garfo devagar. – Dona Alice, já falámos disto cem vezes. O problema não é meu. Temos relatórios médicos. – Ora, deixa-te disso! – sacudiu a mão Alice. – Papéis esses os médicos só para sacar dinheiro. Papeira! Deixa-me rir! – Os rapazes lá na aldeia tiveram todos, e têm filhos às carradas. – Isso é a tua esposa a contar-te histórias para tapar as doenças dela. – Mãe! – Boris bateu com a mão na mesa. – Chega! Alice agarrou teatralmente no peito. – Não me fales assim! Criei cinco filhos, conheço a vida. Vejo que ela é estreita, magra, de quadris miúdos. Onde é que hão-de estar os filhos? Vazio. – Somos felizes, mamã, – murmurou Boris. – Temos a nossa filha, Aninhas. – Filha… – bufou Alice. – Mostra-me ao menos. Foram ao quarto das crianças. A Aninhas estava acordada, sentada na cama, a brincar com um ursinho de peluche. Ao ver a senhora, franziu o sobrolho, mas não chorou. Era de feitio calmo. Alice aproximou-se da cama. Maria ficou por perto, pronta para agarrar a filha – da sogra tudo se esperava. A mulher olhou a menina demoradamente, semicerrando os olhos. Tocou-lhe na face rechonchuda. Aninhas virou-se de lado. – Então, a quem saiu esta? – perguntou a sogra, irritada. – Que olhos pretos! Os meus são todos claros. – Tem olhos azuis escuros, – corrigiu Maria. – E o nariz? Batata. Tu, Maria, tens o nariz fino, o Boris direito. E esta? Endireitou-se, sacudiu as mãos como se estivessem sujas. – Sangue estranho, isso é! Voltaram para a cozinha. Boris encheu-se de água, com as mãos a tremer. – Mamã, escuta, – começou ele, com voz calma. – Amamos a Aninhas! Ela é nossa! Legal, de coração, de tudo! – E ainda vamos tentar ter filhos biológicos. Os médicos dizem que há hipóteses, mesmo que pequenas. Mas mesmo se não der – já temos uma família. Alice estava de lábios apertados. Estava aflita. Ela, mãe de cinco, avó de doze, doía-lhe ver o filho “gastar-se com criança alheia”. – És um tolo, Boris, – suspirou ela, por fim. – Mas que tolo! Trinta e cinco anos. Homem feito. E andas a criar uma enjeitada! – Não digas isso! – gritou Maria. – E que hei-de chamar-lhe? Princesa? – Tu bem calavas! Tu não consegues parir, baralhaste o homem. Até pagaram… Compraram-na como um gato no mercado! – É nossa filha! – Filha é quando é nossa! Quando não dormes à noite, quando há dores e sufocos, quando a pariste! – E esta… – acenou em direção ao quarto. – Faz-de-conta de mãe e filha. Pegaram numa pronta. De uma rapariga desacertada. – Acham que os genes se escapam, é? Ela vai mostrar-vos! Vai dar problemas! Como a mãe! Entreguem-na a tempo! Maria viu os olhos de Boris arregalarem-se. Ele levantou-se devagar. – Rua, – disse ele, baixinho. Alice ficou espantada. – O quê? – Vai-te embora daqui! – gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! Entregar? Entregar a filha?! Confundes gente com coisa? É minha filha! Minha! E tu… tu… Ficou ofegante. – É horrível ser mãe assim! Vai para a aldeia contar os teus “puras”. Mas não voltes mais aqui! Nunca mais! Do quarto ouviu-se o choro da menina. Maria correu à porta, mas parou ao ver a cara mudada da sogra. O vermelho foi ficando cinzento. Alice abriu a boca, sem apanhar ar, como peixe fora d’água. A mão apertou o vestido. – Boris… dói… como dói… Foi caindo. Pesada como um saco de trigo, virou a cadeira. O estrondo misturou-se ao choro da criança. Maria chamou o INEM. Boris ajoelhou-se ao lado da mãe, com mãos a tremer, a desabotoar-lhe a gola. – Mãe, o que tens? Respira, mãe! Alice arfava. Os médicos chegaram depressa. Logo da porta o enfermeiro gritou: – Enfarte! Grande! Maca, rápido! Quando a porta se fechou atrás dos médicos, Boris sentou-se no chão do hall, encostado à parede. Olhou para o lenço esquecido da mãe, em cima da cómoda. – Fui eu que lhe fiz isto? – perguntou. Maria sentou-se ao seu lado e segurou-lhe a mão gelada. – Não. Foi ela mesma. Com tanto veneno. – Era mãe, Maria. – Ela quis que deitássemos fora a nossa filha como produto com defeito. Boris, acorda. Defendeste a tua família. Uma hora depois, o telemóvel vibrou. Chamava a irmã, Tânia. Depois o irmão, Nicolau. Boris não atendeu. Veio uma mensagem de uma tia: – A mãe está nos cuidados intensivos. Os médicos dizem que não tem hipótese. És um monstro? Que te faça falta. A família toda te amaldiçoa! Não apareças, nunca! – Pronto. Fiquei sem família. Maria abraçou-o pelos ombros, sentindo o corpo dele tremer. – Tens sim, – disse ela firme. – Tens-me a mim. Tens a Aninhas. Somos a tua família! De verdade! A que não te abandona. Levantou-se e puxou-o pela mão. – Anda, a Aninhas precisa de comer. Assustou-se. À noite, estavam na cozinha. A filha, depois de se acalmar, brincava com cubos no tapete. Boris olhava-a como se a visse pela primeira vez. – Sabes, – disse ele de repente, – a mãe tinha razão numa coisa. Maria ficou alerta. – Em quê? – Os genes não se apagam com um dedo. Só que genes não são só olhos ou nariz. São também saber amar. A minha mãe tem cinco filhos e amor… como uma pedra. Será que sou adotado? Porque amar eu sei… não é, minha pequena? Pegou na filha ao colo. A menina agarrou-lhe o nariz e riu. – Papá, – disse ela com clareza. Foi a primeira vez. Até aí só “ba-ba” ou “ma-ma”. O Boris parou. As lágrimas que segurou todo o dia rolaram pelas faces, caindo no macacão cor-de-rosa. – Papá, – repetiu ele. – Sim, minha pequena. Sou teu pai. E nunca te vou deixar. A mãe recuperou, mas Boris nunca mais lhe falou. Para a família agora foi banido. Maria até tem vergonha de admitir, mas está feliz por assim ser. Sem rancores, sem torturas, vive-se melhor. Para quê família assim? Só fazem falta os que nos querem bem… E vocês, o que acham do desabafo desta mãe? Escrevam nos comentários e deixem o vosso “gosto”!

Vai-te embora! gritou Beto.

O que foi isso, filho? Dona Lurdes começou a levantar-se, segurando-se à beira da mesa.

Não sou teu filho! Beto agarrou-lhe a mala e atirou-a para o corredor. Que nem o teu fantasma fique cá!

Vai-te embora! repetiu Beto.

Maria estremeceu. Seis anos de casamento, nunca o tinha visto levantar a voz assim.

O que é isso, filho? Dona Lurdes continuava, sempre com aquele tom de quem sabe tudo, agarrada à mesa.

Já disse que não sou teu filho! Beto lançou-lhe a mala corredor fora. E não voltes!

Aninhas dormia, com os braços abertos como uma pequena estrela-do-mar. Maria ajeitou-lhe a mantinha.

Sempre gostou de ficar ali de pé, só a olhar para a filha. Sonhara com ela durante tantos anos, gastara forças, esperança, quase tudo para ser mãe.

Chegou o marido da noite Maria percebeu pelo barulho baixinho no corredor. Saiu do quarto da filha, fechando a porta devagar. Beto descalçava-se no hall.

Tão cansado, mais magro do que nunca. Trabalhava feito burro de carga para pagar os empréstimos do tratamento de fertilização.

Está a dormir? perguntou ele em sussurro.

Está. Comeu e caiu no sono logo de seguida.

Beto puxou Maria para si e encostou a cara ao pescoço dela. Não era de grandes declarações de amor, mas ela sabia o quanto ele lhe era grato.

Por não o ter abandonado, por não o ter trocado por outro, por o ter feito feliz.

Aos dezasseis anos, Beto apanhou papeira mas, claro, teve vergonha de contar à mãe que as coisas lá em baixo estavam inchadas e a doer.

Quando finalmente disse, já era tarde. A complicação trouxe quase esterilidade total.

A mãe ligou-me murmurou Beto, sem largar Maria.

Maria ficou rígida.

E o que quer a Dona Lurdes?

Vem cá, está a caminho. Diz que fez uns bolos, que está cheia de saudades.

Maria suspirou, soltando-se do abraço.

Beto, achas mesmo preciso? Da última vez deixou-me quase aos gritos com aquelas dicas da água com bicarbonato.

Maria, é mãe Quer ver a neta. Passou um ano e só viu Aninhas por foto. Enfim, ainda é avó.

Avó Maria forçou um sorriso. Avó que acha a nossa filha um erro.

Adotaram Aninhas há um ano. Espera por um recém-nascido saudável na Santa Casa? Podia ficar velha ali.

O que ajudou mesmo? Uns contactos, um envelope gordo para o serviço, e uma enfermeira sensata.

A pequenina nascera de uma miúda de dezasseis anos, assustada, que ainda podia ser expulsa da escola um bebé teria acabado com tudo.

Maria lembrava-se bem desse dia: aquele embrulho leve, olhos azuis a olharem para ela.

Pronto Maria voltou-se. Que venha. Sobrevivemos. Mas se recomeçar

Não volta a começar, prometo disse Beto, com confiança duvidosa.

Dona Lurdes apareceu ao almoço, enchendo o apartamento com a sua presença.

Era daquelas mulheres grandes, barulhentas, prontas para domar um touro ou fazer fila no mercado sem perder a vez e levar o juízo de todos.

Ó Jesus! disparou ela ao entrar, largando a mala às riscas no hall. Vim no comboio, um calor, no metro, uma confusão!

Vocês tinham de morar lá em cima? O elevador só geme, parecia que ia morrer no caminho!

Bom dia, mãe Beto deu-lhe um beijo na cara, apanhando a mala pesada. Venha lavar as mãos.

Dona Lurdes despiu o casaco e exibiu um vestido florido bem justo ao corpo forte, cravando o olhar em Maria.

Analisou-a dos pés à cabeça, como quem avalia uma vaca no leilão.

Bom dia, Dona Lurdes sorriu Maria, com educação.

Olá, olá respondeu, apertando os lábios. Estás uma sombra, Maria! Só ossos! O meu filho pega onde aí?

E o Beto? Que mirradinho. Não lhe dás comida como deve ser? Tu de dieta e ele também a passar fome?

O Beto anda a comer muito bem, obrigada cortou Maria, com as faces a arder. Venha sentar-se.

Na cozinha, Dona Lurdes começou logo a esvaziar o saco saíram tupperwares de bolos, um frasco de pickles e uma peça de presunto caseiro.

Comam isto, que nesta cidade só há químicos. Andam a mastigar plástico.

Sentou-se à mesa, os cotovelos da largura da bancada.

Então conte lá como é que vão? Conseguiram pagar os tais empréstimos desses experimentos?

Maria apertou o garfo. Experimentos! Seis anos de esperança, dor, tentar e tentar viraram experiência.

Quase tudo pago, mãe murmurou Beto, servindo-se de salada. Não vamos falar de dinheiro.

E de quê então? admirou-se ela, dando uma trinca no bolo. Do tempo? No campo, o meu filho, o Nuno, já teve a terceira. Uma rapariga linda! Quatro quilos! E a Teresa, tua irmã, carrega gémeos. Isso é que é raça!

A nossa casta, Beto, é de gente forte. Olhou para Maria com significado.

Isso, se não estragarem os genes

Maria pousou o garfo devagarinho.

Dona Lurdes, já falámos disto mil vezes. O problema não sou eu. Temos relatório médico.

Ai deixa-te disso! Dona Lurdes agitou a mão. Os médicos escrevem para sacar dinheiro. Papeira, bah! Lá na aldeia quase todos os rapazes tiveram, e cada um já tem sete filhos!

Isso é conversa da tua mulher, Beto, para encobrir o problema dela

Mãe! Beto bateu com a mão na mesa. Já chega!

Dona Lurdes agarrou-se ao peito, como em novela.

Não armes escândalo com tua mãe! Eu criei cinco, sei da vida. Vejo logo estreita, sem ancas, só tem corpo de menina. Daí nunca vai sair filho! Terra seca.

Somos felizes, mãe disse Beto, calmo. Temos a Aninhas.

Filha? fungou ela. Quero ver!

Foram ao quarto das crianças. Aninhas acordara, sentada no berço, mexendo no ursinho de peluche.

Quando viu a senhora estranha, fechou a cara, mas nada de choro. Tinha uma serenidade incrível.

Dona Lurdes aproximou-se do berço. Maria pôs-se a jeito para acorrer à filha com a sogra, nunca se sabe.

Ficou a olhar para a menina um longo tempo, semicerrando os olhos. Depois estendeu a mão, tocou-lhe a bochecha fofa. Aninhas virou-se para trás.

Mas de quem é esta cara? resmungou a sogra. Olhos pretos! Na nossa família, é tudo de olhos claros.

Tem olhos azuis, Dona Lurdes. Azul-escuro.

E o nariz? Batata. Tu, Maria, tens nariz afilado, o do Beto é certinho. E aqui

Endireitou-se, sacudiu as mãos como quem se limpa de pó.

Gente estranha, pronto.

Voltaram à cozinha. Beto serviu-se de água, de mãos a tremer.

Mãe, ouça tentou ele, com delicadeza. Nós amamos a Aninhas! Ela é nossa! Por registo, por coração, por tudo.

E ainda vamos tentar mais, os médicos disseram que há uma chance. Mesmo que não dê já temos família.

Dona Lurdes ficou ali, a boca torcida. Estava a explodir de raiva. Cinco filhos, doze netos, mas não suportava ver o sangue dela, o menininho querido, a cuidar de alheia.

És um pateta, Beto suspirou ela, finalmente. Trinta e cinco anos. Na flor da idade, e perdes tempo com uma menina que nem tua é!

Não a chame isso! gritou Maria.

E como devo chamar? Princesa?

Olhe que a senhora devia calar-se! Nem consegue ter filhos enganou o homem com essa doença. Deram suborno compraram como se ela fosse gata do mercado!

É a nossa filha!

Filha é quando sai de nós! Quando se passa noites em claro, enjôos, dores de parto!

Isso aí fez um gesto em direção ao quarto. Um jogo de mãe e filha. Pegaram no pronto-a-usar de alguma miúda vadia.

Os genes não desaparecem com martelo! Vai crescer, vai dar problemas! Entreguem antes que seja tarde!

Maria viu o olhar de Beto mudar. Ele ergueu-se, devagar.

Chega disse baixinho.

Dona Lurdes arregalou os olhos.

O quê?

Vai-te embora daqui! gritou Beto.

Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, ouvira um berro desses.

Filho? Dona Lurdes agarrou-se à mesa.

Não sou teu filho! Beto atirou-lhe a mala para o corredor. Não quero cá nem cheiro teu! Entregar uma criança?

Confundiste gente com objeto? É a minha filha! Minha! E tu tu

Ficou sem ar.

És um monstro, não uma mãe! Volta para a tua aldeia, conta os teus puros lá. Mas aqui, nunca mais! Não te metas nunca mais!

Da sala, ouviu-se o choro da menina. Maria ia correr, mas ficou parada ao ver a cor da sogra mudar de vermelho para cinzento-terra.

Dona Lurdes abriu a boca, engolindo ar como peixe fora de água. A mão no peito contorcia vestido.

Beto grunhiu. Dói Dói

E caiu para o lado. Pesada, como saco de batatas, tombou, derrubando a cadeira. O estrondo misturou-se ao choro da criança.

Maria marcou 112. Beto agachou-se junto à mãe, mãos trémulas abrindo-lhe o vestido no pescoço.

Mãe, o que foi? Respira, mãe!

Dona Lurdes bufava.

Os bombeiros chegaram depressa. Nem entraram e já gritavam:

Ataque cardíaco! Maca! Rápido!

Quando fecharam a porta, Beto sentou-se no chão do hall, encostado à parede. Olhou para o lenço que a mãe esquecera sobre o armário.

Fui eu que causei isto? perguntou.

Maria sentou-se ao lado, segurando-lhe a mão gelada.

Não. Foi ela com a raiva toda.

Era minha mãe, Maria.

Propôs atirá-la fora como coisa estragada. Beto, acorda! Protegeste a tua família.

O telemóvel de Beto vibrou uma hora depois. Era a irmã, Teresa. Depois o irmão Nuno. Não atendeu ninguém.

Acabou por vir mensagem da tia:

A mãe está nos cuidados intensivos, os médicos dizem que é grave. És um monstro? Que te faça falta, desgraçado! Toda a família te amaldiçoa! Não apareças cá sequer!

Pronto. Acabou-se. Não tenho mais família.

Maria abraçou-o, sentindo-o tremer como varas verdes.

Tens sim disse ela, firme. Tens a mim. Tens a Aninhas. Somos tua família! De verdade! Daquelas que não abandonam.

Levantou-se e puxou-o.

Vamos. A Aninhas precisa de comer. Ficou assustada.

Ao fim do dia, estavam na cozinha. A filha, já calma, brincava aos cubos aos pés deles. Beto olhava para ela como se fosse a primeira vez.

Sabes disse ele de repente , a mãe tinha razão numa coisa.

Maria apreensiva.

Em quê?

Os genes não se apagam com o dedo. Mas gene não é só olho azul ou nariz. É saber amar.

Ela tem cinco filhos, mas amor tem menos que pedra. Será que sou adoptado? Porque eu, pelo menos, sei amar Não é, minha pequenina?

Pegou na menina ao colo. Ela agarrou-lhe o nariz e riu-se.

Papá disse ela, pela primeira vez, clarinho.

Beto ficou paralisado. As lágrimas retidas durante o dia escorriam-lhe, molhando o macacão cor-de-rosa dela.

Papá repetiu ele. Sim, pequenina. Sou o teu pai. E ninguém te tira de mim.

A mãe recuperou, mas Beto nunca mais lhe falou. Agora é o vilão oficial da família.

Maria até sente um bocadinho de vergonha de admitir, mas só lhe deu foi alívio. Sem mágoas eternas e dramas, vive-se melhor.

Quem precisa de família só para azedume? Estas bastam.

E vocês, o que acham do discurso das mães portuguesas? Contem nos comentários, deem aquele gosto com carinho!

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– Vai-te embora! – Gritou Boris. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte a pôr os pés aqui! – Vai-te embora! – Gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido falar assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou na mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! …A Aninhas dormia, de braços abertos como uma pequena estrela-do-mar. Maria ajeitou-lhe o cobertor. Gostava de ficar assim, só a olhar para a filha. Sonhou com ela durante tantos anos, lutou tanto para ser mãe. O marido chegou do turno da noite – percebeu pelo ruído no hall de entrada. Maria saiu do quarto da menina, fechando a porta suavemente. Boris descalçava-se. Exausto, nitidamente mais magro. Trabalhou como um boi para pagar os empréstimos que tinham contraído para os tratamentos de fertilidade. – Está a dormir? – Perguntou ele em voz baixa. – Está. Comeu e adormeceu logo. Boris puxou Maria para junto de si, encostou o rosto ao pescoço dela. Raramente falava sobre amor, mas Maria sabia que ele lhe era grato até à loucura. Por não o ter abandonado, por não o ter trocado por alguém saudável, por tê-lo feito feliz. Aos dezasseis anos, Boris teve papeira “em pé” – teve vergonha de contar à mãe que estava inchado e que doía. Quando contou, já era tarde. As complicações trouxeram-lhe quase esterilidade total. – A mãe telefonou, – disse Boris baixo, sem largar Maria. Maria ficou tensa. – O que quer a dona Alice? – Vem aí. Ao almoço está cá. Diz que trouxe uns bolos, que tem saudades. Maria suspirou, soltando-se do abraço. – Boris, achas mesmo que é boa ideia? Da última vez deixou-me em lágrimas com os conselhos para lavar com bicarbonato. – Maria, é a mãe… Quer ver a neta. Passou um ano e só viu a Aninhas em fotografia. É avó, afinal. – Avó… – sorriu Maria, com amargura. – Que considera a nossa filha uma “intrusa”. Adotaram a Aninhas há um ano. As listas de espera por recém-nascidos saudáveis na região eram tão longas que só dava para desesperar. Ajudaram contactos, um envelope generoso “para a maternidade” e a sensatez de uma amiga enfermeira. A menina nasceu de uma adolescente de dezasseis anos, assustada, desamparada, para quem um filho significaria o fim da vida. Maria lembrava aquele dia: um pequeno embrulho de três quilos e duzentos, e uns olhos azuis a fitá-la. – Está bem, – disse Maria. – Que venha. Sobrevivemos. Mas se ela começar outra vez… – Não vai começar, prometo – disse Boris. A sogra chegou para o almoço. Alice entrou na casa ocupando todo o espaço. Era uma mulher corpulenta e barulhenta, com aquele jeito aldeão capaz de parar um cavalo, apagar um incêndio e dar cabo do juízo de quem estivesse à volta. – Ai, meu Deus! – Queixou-se ela à porta, pousando a mala quadriculada no chão do hall. – O transporte é um horror! Comboios abafados, no metro só empurrões. – Por que razão vivem tão alto? O elevador rangia, achei que ia morrer! – Bom dia, mamã, – Boris deu-lhe um beijo na face e levou-lhe a mala pesada. – Venha, lave as mãos. Alice tirou o casaco, exibindo um vestido com padrões florais que moldava as formas robustas, e olhou logo de cima a baixo para Maria. Olhou-a como se fosse um cavalo à venda. – Olá, Dona Alice, – sorriu Maria. – Olá, olá, – a sogra crispou os lábios. – Estás tão mirrada, Maria. Só ossos. O marido vai agarrar-se a quê? Boris está magro, noto eu. Não o alimentas bem? Só comes relva e deixas o homem à fome? – O Boris come bem, – cortou Maria, corando. – Venha para a mesa. Na cozinha, Alice começou logo a abrir a mala – de lá tirou recipientes com empadas, um frasco de pepinos em conserva, um pedaço de toucinho. – Comam. Nesta cidade só há comida artificial. Mastigam plástico. Sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos pesados. – Então, contem-me. Como vai a vida? Já pagaram esses… experimentos? Maria apertou o garfo. “Experimentos!” Assim chamava a seis anos de dor, esperança e desespero. – Quase pagámos, mamã, – resmungou Boris, servindo-se de salada. – Não falemos de dinheiro. – E falamos de quê? – estranhou a sogra, mordendo uma empada. – Do tempo? O irmão do Boris, lá na aldeia, já tem terceiro filho. A menina saudável, linda! Quatro quilos! E a Tânia, a irmã, está grávida de gémeos. Isso é que é saúde! A nossa linhagem, Boris, é forte. Somos férteis. Olhou Maria com significado. – Se não se estragarem os genes, claro… Maria pousou o garfo devagar. – Dona Alice, já falámos disto cem vezes. O problema não é meu. Temos relatórios médicos. – Ora, deixa-te disso! – sacudiu a mão Alice. – Papéis esses os médicos só para sacar dinheiro. Papeira! Deixa-me rir! – Os rapazes lá na aldeia tiveram todos, e têm filhos às carradas. – Isso é a tua esposa a contar-te histórias para tapar as doenças dela. – Mãe! – Boris bateu com a mão na mesa. – Chega! Alice agarrou teatralmente no peito. – Não me fales assim! Criei cinco filhos, conheço a vida. Vejo que ela é estreita, magra, de quadris miúdos. Onde é que hão-de estar os filhos? Vazio. – Somos felizes, mamã, – murmurou Boris. – Temos a nossa filha, Aninhas. – Filha… – bufou Alice. – Mostra-me ao menos. Foram ao quarto das crianças. A Aninhas estava acordada, sentada na cama, a brincar com um ursinho de peluche. Ao ver a senhora, franziu o sobrolho, mas não chorou. Era de feitio calmo. Alice aproximou-se da cama. Maria ficou por perto, pronta para agarrar a filha – da sogra tudo se esperava. A mulher olhou a menina demoradamente, semicerrando os olhos. Tocou-lhe na face rechonchuda. Aninhas virou-se de lado. – Então, a quem saiu esta? – perguntou a sogra, irritada. – Que olhos pretos! Os meus são todos claros. – Tem olhos azuis escuros, – corrigiu Maria. – E o nariz? Batata. Tu, Maria, tens o nariz fino, o Boris direito. E esta? Endireitou-se, sacudiu as mãos como se estivessem sujas. – Sangue estranho, isso é! Voltaram para a cozinha. Boris encheu-se de água, com as mãos a tremer. – Mamã, escuta, – começou ele, com voz calma. – Amamos a Aninhas! Ela é nossa! Legal, de coração, de tudo! – E ainda vamos tentar ter filhos biológicos. Os médicos dizem que há hipóteses, mesmo que pequenas. Mas mesmo se não der – já temos uma família. Alice estava de lábios apertados. Estava aflita. Ela, mãe de cinco, avó de doze, doía-lhe ver o filho “gastar-se com criança alheia”. – És um tolo, Boris, – suspirou ela, por fim. – Mas que tolo! Trinta e cinco anos. Homem feito. E andas a criar uma enjeitada! – Não digas isso! – gritou Maria. – E que hei-de chamar-lhe? Princesa? – Tu bem calavas! Tu não consegues parir, baralhaste o homem. Até pagaram… Compraram-na como um gato no mercado! – É nossa filha! – Filha é quando é nossa! Quando não dormes à noite, quando há dores e sufocos, quando a pariste! – E esta… – acenou em direção ao quarto. – Faz-de-conta de mãe e filha. Pegaram numa pronta. De uma rapariga desacertada. – Acham que os genes se escapam, é? Ela vai mostrar-vos! Vai dar problemas! Como a mãe! Entreguem-na a tempo! Maria viu os olhos de Boris arregalarem-se. Ele levantou-se devagar. – Rua, – disse ele, baixinho. Alice ficou espantada. – O quê? – Vai-te embora daqui! – gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! Entregar? Entregar a filha?! Confundes gente com coisa? É minha filha! Minha! E tu… tu… Ficou ofegante. – É horrível ser mãe assim! Vai para a aldeia contar os teus “puras”. Mas não voltes mais aqui! Nunca mais! Do quarto ouviu-se o choro da menina. Maria correu à porta, mas parou ao ver a cara mudada da sogra. O vermelho foi ficando cinzento. Alice abriu a boca, sem apanhar ar, como peixe fora d’água. A mão apertou o vestido. – Boris… dói… como dói… Foi caindo. Pesada como um saco de trigo, virou a cadeira. O estrondo misturou-se ao choro da criança. Maria chamou o INEM. Boris ajoelhou-se ao lado da mãe, com mãos a tremer, a desabotoar-lhe a gola. – Mãe, o que tens? Respira, mãe! Alice arfava. Os médicos chegaram depressa. Logo da porta o enfermeiro gritou: – Enfarte! Grande! Maca, rápido! Quando a porta se fechou atrás dos médicos, Boris sentou-se no chão do hall, encostado à parede. Olhou para o lenço esquecido da mãe, em cima da cómoda. – Fui eu que lhe fiz isto? – perguntou. Maria sentou-se ao seu lado e segurou-lhe a mão gelada. – Não. Foi ela mesma. Com tanto veneno. – Era mãe, Maria. – Ela quis que deitássemos fora a nossa filha como produto com defeito. Boris, acorda. Defendeste a tua família. Uma hora depois, o telemóvel vibrou. Chamava a irmã, Tânia. Depois o irmão, Nicolau. Boris não atendeu. Veio uma mensagem de uma tia: – A mãe está nos cuidados intensivos. Os médicos dizem que não tem hipótese. És um monstro? Que te faça falta. A família toda te amaldiçoa! Não apareças, nunca! – Pronto. Fiquei sem família. Maria abraçou-o pelos ombros, sentindo o corpo dele tremer. – Tens sim, – disse ela firme. – Tens-me a mim. Tens a Aninhas. Somos a tua família! De verdade! A que não te abandona. Levantou-se e puxou-o pela mão. – Anda, a Aninhas precisa de comer. Assustou-se. À noite, estavam na cozinha. A filha, depois de se acalmar, brincava com cubos no tapete. Boris olhava-a como se a visse pela primeira vez. – Sabes, – disse ele de repente, – a mãe tinha razão numa coisa. Maria ficou alerta. – Em quê? – Os genes não se apagam com um dedo. Só que genes não são só olhos ou nariz. São também saber amar. A minha mãe tem cinco filhos e amor… como uma pedra. Será que sou adotado? Porque amar eu sei… não é, minha pequena? Pegou na filha ao colo. A menina agarrou-lhe o nariz e riu. – Papá, – disse ela com clareza. Foi a primeira vez. Até aí só “ba-ba” ou “ma-ma”. O Boris parou. As lágrimas que segurou todo o dia rolaram pelas faces, caindo no macacão cor-de-rosa. – Papá, – repetiu ele. – Sim, minha pequena. Sou teu pai. E nunca te vou deixar. A mãe recuperou, mas Boris nunca mais lhe falou. Para a família agora foi banido. Maria até tem vergonha de admitir, mas está feliz por assim ser. Sem rancores, sem torturas, vive-se melhor. Para quê família assim? Só fazem falta os que nos querem bem… E vocês, o que acham do desabafo desta mãe? Escrevam nos comentários e deixem o vosso “gosto”!
Kamarátka si bez dovolenia pozvala hostí na našu chatu osláviť svoje narodeniny