„Queres o meu marido? É teu!” disse a esposa, sorrindo à desconhecida que apareceu à porta de casa dela.

Queres o meu marido? Fica com ele! disse a minha mulher, com um sorriso irónico, dirigida à desconhecida que aparecera à nossa porta.

Espera aí, Matilde! Estão a tocar à campainha. Ligo-te depois para te contar quem era e o que queria, disse Lara, com um certo desagrado, fechando rapidamente o telefonema com a sua amiga de infância. Matilde falava-lhe, com detalhes muito caricatos, sobre a última festa de anos da sogra, e Lara desatava-se a rir como se estivesse a ver uma comédia ao vivo.

Lara foi até à porta, espreitou pelo óculo e ficou espantada. Esperava encontrar ali um vizinho, já que o prédio tinha segurança reforçada e raramente desconhecidos conseguiam entrar. Mas, à porta, estava uma rapariga jovem, de ar estranho, alguém que Lara nunca tinha visto.

Pensou em não abrir a porta nestes tempos de tantos esquemas, o melhor era evitar mexericos com gente que não conhecia. Lara tinha uma regra sagrada: não falar com desconhecidos. Os burlões gostavam de aproveitar-se dos ingénuos, mas Lara não era desses.

Foi buscar o telemóvel para retomar a conversa com Matilde, mas, mal pousou o aparelho, a campainha voltou a tocar, insistente. Quem estava lá fora parecia determinada a ser atendida.

Lara estava sozinha em casa; o marido, Ricardo, tinha ido ajudar um amigo em trabalhos no quintal. Tornou a espreitar pelo óculo e observou melhor a desconhecida.

Havia ali qualquer coisa tosca e ao mesmo tempo trágica, mas Lara não pressentiu perigo.

Qual é o pior cenário? Abro a porta, despeço-a e continuo o meu sábado em paz, pensou Lara. De certeza, deve andar perdida ou quer vender alguma coisa.

Com este raciocínio, abriu a porta. A mulher, que até ali se encolhera, endireitou-se num ápice, ajeitando o cabelo com nervosismo antes de falar.

Boa tarde! A Senhora é a Lara? perguntou, brincando com o lenço que trazia ao pescoço. Bem, claro que é que pergunta!

Que engraçado, pensou Lara. Estes burlões estão cada vez mais requintados. Até sabem o meu nome.

Quem é a senhora e o que pretende? Já está aqui há uns minutos, não a convidei, por isso despache-se ou então vá à sua vida! disse Lara, assertiva.

O Ricardo está em casa? perguntou a rapariga, apanhando Lara de surpresa.

Que giro! pensou Lara, desconfiada. Até sabe o nome do meu marido. Esta vem preparada.

Está aqui por causa do Ricardo? lançou Lara, embora tivesse preparado um discurso diferente.

Não, vim falar consigo. Só que se o Ricardo estivesse, era mais complicado para mim, respondeu a jovem, com uma franqueza inesperada.

Complicado para si? O que se passa? pensou Lara, ainda mais intrigada.

Ele não está. O que quer afinal?

Talvez devêssemos entrar. Não me parece adequado conversar sobre este tipo de coisa no corredor, sugeriu a rapariga, agora mais atrevida.

Nem pensar! Não a conheço de lado nenhum e não ponho estranhos em casa. Fale então, mas seja rápida, atirou Lara.

Quer mesmo falar dos detalhes íntimos da minha relação com o Ricardo aqui, à frente dos vizinhos? retorquiu a mulher, com um sorriso cortante.

O quê? Que relação? exclamou Lara, mais alto do que queria.

Oh Lara, está tudo bem? Porque é que estás aos gritos? veio perguntar dona Emília, a vizinha do lado, que saía do elevador.

Está tudo bem, dona Emília! E então, como está o tempo lá fora? tentou Lara desconversar.

Pois, parece que vai chover, respondeu a vizinha, que, curiosa, ficou um pouco a observar.

Entre, disse Lara de má vontade, fazendo sinal à rapariga para passar para dentro.

Lá dentro, a rapariga olhava atentamente para tudo, como se fizesse um inventário dos objectos à volta.

Tem cinco minutos. Diga o que tem a dizer, apressou Lara, impedindo-lhe a passagem para o resto da casa. Aqui não é museu.

Chamo-me Bruna, começou ela, tirando o lenço e o casaco. Eu e o Ricardo estamos apaixonados.

Que cliché! Não podia ter arranjado uma história mais criativa? interrompeu Lara, com um sorriso irónico.

Amar não é cliché. Acontece em todo o lado! E não é a primeira mulher que vê o marido sair de casa, respondeu Bruna, muito segura de si, tentando contornar Lara.

Tem a certeza de que ele não me ama a mim e a ama a si? indagou Lara, sempre a sorrir.

Absoluta! Caso contrário, não estava aqui, declarou Bruna.

Pois bem, lamento desiludir. O meu marido não sabe o que é amar. Não é capaz. Enganou-se redondamente, respondeu Lara, calma.

Bruna tentou replicar, mas nesse momento a porta abriu-se e entrou Ricardo

e lá estava ele, totalmente espantado por ver uma desconhecida no nosso corredor.

Bruna? Que fazes aqui a um sábado? Precisas de algo do trabalho? perguntou ele, baralhado.

Não, ela está aqui para ti, disse Lara, saboreando a cena.

Para mim? Como assim? Aconteceu alguma coisa no emprego? insistiu Ricardo, cada vez mais confuso.

Não, querido. Veio buscar-te. A sério. respondeu Lara, com um sorriso de gozo.

Bruna, atarantada, vestiu rápido o casaco e começou a recuar para a saída.

Já vais? Mas não és tu que cá vieste buscar o Ricardo? Olha que nem imaginas o alívio que sentia em deixar-to! brincou Lara.

Bruna já saía, sem dizer palavra.

Mas afinal o que foi isto? perguntou Ricardo, sem perceber nada.

Devias dizer-me tu! Porque é que esta corajosa apareceu cá a exigir separação, dizendo que ias viver com ela? questionei Lara, de braços cruzados.

Estás a falar a sério? respondeu Ricardo, genuinamente chocado. Juro que não faço ideia do que se passa. Ela ultimamente tem andado estranha no emprego, mas nunca lhe dei esperanças. Estou farto destas confusões. Prometi-te, lembras-te?

Sim. Porque tu sabes bem, Ricardo eu não aturo palhaçadas destas. Mas francamente, hoje em dia há mulheres dispostas a tudo para endireitar as trapalhadas delas, disse Lara, abanando a cabeça.

Ricardo descalçou-se e foi direitinho para a cozinha, enquanto Lara ficou a pensar. Prometeu a si mesma não deixar que episódios destes lhe roubassem a paz do lar. Sorriu, involuntariamente, ao pensar no ridículo do plano de Bruna.

No fim, tornou-se óbvio: apesar das tentativas alheias, a nossa relação era afinal bem mais sólida do que a maioria imaginava.

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„Queres o meu marido? É teu!” disse a esposa, sorrindo à desconhecida que apareceu à porta de casa dela.
Estive nesta relação durante cinco anos. Dois anos fomos casados e três anos vivemos juntos. Durante o noivado, a maior parte do tempo tivemos um namoro à distância — víamo-nos apenas de três em três meses e, num ano, só estivemos juntos duas vezes por causa do trabalho dele. Na altura, não via isso como um problema. Pelo contrário — sentia a nossa relação como perfeita. Tínhamos saudades, chorávamos ao telefone, trocávamos mensagens apaixonadas e fazíamos videochamadas cheias de amor. Nunca discutíamos. Ele não era ciumento, nem eu. Respeitávamos o espaço um do outro. Ele podia sair para jantar com amigos, eu ia a festas, e nada disso tinha importância. Até me ajudava a escolher roupa. E não falamos de roupas provocantes — muitas vezes dizia-me que um vestido estava demasiado justo e que era melhor algo que me ficasse melhor. Nunca foi controlador. Pelo contrário — parecia orgulhoso de mim e do meu corpo. Tudo era saudável, tranquilo, quase perfeito. Houve um dezembro particularmente difícil, porque sabíamos que não nos iríamos ver nem no Natal nem na Passagem de Ano. Estávamos tristes e desiludidos. Foi então que ele me convidou a ir viver com ele, na cidade dele. Pensei, falei com a família e disseram-me para seguir o meu coração. Despedi-me e fui viver para junto dele. Os primeiros meses correram bem. O primeiro ano foi de adaptação — conhecermo-nos a fundo, os nossos hábitos, como reagimos quando estamos cansados ou irritados, o que nos incomoda, o que nos faz rir. Como estava desempregada, eu tratava da casa. Tudo fluía facilmente. O segundo ano foi ainda melhor. Já éramos uma verdadeira equipa e entrámos numa fase intensa de paixão. Queríamos estar sempre juntos. Quando ele não estava a trabalhar, não nos separávamos. Parecíamos recém-casados. Sentia que tinha tomado a decisão certa. Mas, no terceiro ano, tudo começou a mudar. Ele passou a chegar tarde a casa. Sempre partilhámos a nossa localização, até que um dia ele desligou essa opção sem dizer nada. Começou a aparecer às cinco ou seis da manhã, embora tivesse de estar a trabalhar às oito. Limitava-se a tomar banho, tomar o pequeno-almoço e sair outra vez. Deixou de me dar explicações. As discussões passaram a ser constantes. Um dia aconteceu algo que me marcou para sempre. Encontrei maquilhagem numa camisa branca dele. Base e batom — na gola e numa manga. Não era uma mancha pequena. Era óbvio. Exigi uma explicação. E então ouvi algo que nunca esquecerei: disse-me que teve de procurar fora aquilo que eu já não lhe dava, pois estava sempre preocupada com a casa, só pensava em arrumar e limpar, tinha-me tornado desinteressante. Isso bastou. Não disse “sim, traí-te”, mas também não negou. Confirmou, sem o dizer. Fiquei de rastos. Chorava sem parar. Sentia uma dor física no peito. Não sabia o que fazer nem como sair daquela situação. Por isso decidi fazer algo por mim. Voltei ao ginásio. Antes de ir viver com ele, treinava, mas parei. Lá conheci um homem. Começámos a conversar. Era agradável. Um dia convidou-me para um copo e fui eu que sugeri irmos a casa dele. Ele aceitou. Marcámos para a tarde. Ambos sabíamos ao que íamos. Nesse dia, já em casa, depois de o ter visto no ginásio de manhã, a ideia atormentava-me: “Isto não pode ser. Vou traí-lo. Ele merece.” Mas logo depois pensei: “Não. Não vou ser como ele.” Decidi acabar tudo antes. Esperei que o meu marido chegasse para o almoço. Nem o deixei entrar no quarto. Sentámo-nos na sala de jantar e disse-lhe que a relação já não funcionava, que ele me traiu e que não queria saber com quem nem desde quando. Que tudo acabava ali, naquele momento. Ele pediu-me para não fazer dramas, disse que aquela mulher não importava, que não era como eu, e que podíamos resolver. Disse-lhe que não queria continuar. Não lhe contei que tinha conhecido alguém ou que sentia desejo por outro homem. Apenas disse que ia embora. As malas já estavam feitas. Perguntou-me para onde ia, se tinha alguém. Disse-lhe que não importava, que depois via o que fazia. Saí daquela casa com as malas e fui ter com o outro homem. Quando me viu com bagagem, ficou assustado. Expliquei que acabara de deixar o meu marido e que no dia seguinte voltava à minha terra, mas que só queria aquela noite com ele. Ele aceitou. Essa noite foi a experiência mais intensa da minha vida. Não sei se foi a raiva, a dor ou simplesmente tudo o que tinha acumulado, mas foi algo totalmente diferente de tudo o que tinha vivido antes, nem com o meu ex-marido. No dia seguinte comprei um bilhete e regressei à minha terra. Não tinha para onde ir, por isso voltei à casa dos meus pais. Não quis saber mais nada do meu ex-marido. Isto foi há dois anos. Hoje estou sozinha, voltei a trabalhar, vivo numa casa alugada e não me arrependo da decisão que tomei. Estive prestes a trair, mas soube parar, acabar primeiro e não me tornar naquilo que ele foi para mim.