O meu irmão decidiu ir viver com a sogra e até hoje ninguém consegue perceber o porquê dessa escolha
O meu irmão mais novo casou-se muito cedo, ainda nem tinha feito dezoito anos. Parecia que, ao apressar-se para o casamento, queria provar a sua independência ao mundo.
Desde o momento em que ele nasceu, sempre cuidei dele a minha infância terminou assim que ele chegou do hospital. Quando cresceu, casou-se e saiu de casa, a sua vida mudou radicalmente, mas infelizmente não para melhor.
A mulher que escolheu, também ela jovem, tinha um feitio forte e difícil. Desde a primeira vez que a conheci, nunca me agradou. Faltava-lhe educação e delicadeza e o seu aspeto não nos dizia nada. Nunca percebi o que o meu irmão via nela. Foram viver para um apartamento ao lado, na casa da sogra. O sogro era calado, com um ar estranho; raramente abria a boca, limitando-se quase sempre a acenar com a cabeça. Já a sogra, dona Conceição, era autoritária e gostava de mandar em tudo e todos obedeciam. Não perdia uma oportunidade para criticar o meu irmão e, a par dela, a mulher dele, Leonor, também parecia estar sempre insatisfeita.
Ver o meu irmão tratado daquela maneira revoltava-me profundamente. Tentei falar com ele muitas vezes, mas ele garantia-me que estava bem, que a Leonor o amava e que eram felizes juntos. No entanto, com o passar do tempo, comecei a notar uma mudança estranha nele. Tornou-se como o sogro, metido para dentro, sem opinião e apenas acenando com a cabeça de vez em quando. Até que, um dia, a paciência chegou ao fim; não aguentou mais. Silenciosamente, fez as malas e saiu, deixando tudo para trás.
Aquela imagem do meu irmão, tão desfeito, ficou gravada na minha memória Ele próprio lamentava todos os dias ter-se precipitado a casar.
Cada pessoa tem o seu limite e, quando se ultrapassa essa linha, às vezes a única saída é sair, sem alarido, de um lugar que se tornou insuportável.







