O meu companheiro ainda é casado com a esposa e tem uma filha – A história da nossa relação, do nosso filho e da vida a três entre desafios, amor e expectativas para o futuro

O meu amor ainda está legalmente casado com a mulher dele e têm uma filha.

Adoro profundamente o meu companheiro. Estamos juntos há mais de sete anos e temos um filho de seis. O meu marido passa imenso tempo com o nosso filho, levando-o muitas vezes à oficina de automóveis ou passeando com ele por Lisboa. Também cuida muito bem de mim por vezes surpreende-me com flores sem motivo ou marca um jantar romântico à beira do Tejo. Somos uma família feliz, a nossa vida tem um ritmo simples, sereno, mas repleto de momentos com significado.

Há pouco tempo, pedimos um pequeno empréstimo aos nossos pais dois mil euros e, finalmente, conseguimos comprar o nosso primeiro apartamento em Almada. Tenho orgulho em ser boa dona de casa, adoro que o nosso lar seja acolhedor, limpo, com aquele cheiro reconfortante de bolo acabado de sair do forno. Trabalho informalmente, mas recebendo o suficiente para vivermos com dignidade. Neste apartamento, faço planos no papel de cozinha e sonho alto gostava de os realizar todos!

Trabalho num salão de beleza e faço muitos serviços privados ao domicílio. O meu marido ganha bem. Não gastamos à toa, mas conseguimos sim reunir dinheiro sempre que queremos comprar algo maior ou ir de férias a Peniche. Pensámos em adquirir uma casa pequena no Douro, mas achámos melhor esperar mais um pouco.

Gosto da vida que tenho e sinto-me feliz com o nosso relacionamento. Conhecemo-nos já tarde, mas costumo dizer às minhas amigas que valeu a pena esperar por alguém assim.

O meu companheiro mantém uma boa relação com a filha que tem da outra relação, ajuda financeiramente e mantém contacto com os sogros, porque a filha vive com eles em Viseu. Nunca me preocupei em saber onde estava ou o que tinha acontecido à ex-mulher dele.

Nunca tentei que voltasse para a antiga família. Ele era livre, vivia sozinho quando o conheci. Mas ultimamente, preocupa-me cada vez mais o facto de ainda estar casado com aquela mulher. No emprego, quando alguém me pergunta porque não casamos, respondo sempre em tom leve que ainda não calhou. À superfície, tudo parece bem, e o casamento seria só um papel.

A minha mãe falou comigo recentemente. Quis que desse um ultimato ao meu namorado, dizendo-lhe que, se queria continuar comigo, então que tratasse dos papéis do divórcio e me pedisse em casamento em breve. Diz que não faz sentido para ela ele manter uma ligação formal a outra mulher. Para todos os efeitos, essa mulher tem todos os direitos legais e eu só as responsabilidades. E apesar de termos acabado de mudar para o apartamento novo, tecnicamente, a casa é dela. Como se chama este triângulo matrimonial, afinal?

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O meu companheiro ainda é casado com a esposa e tem uma filha – A história da nossa relação, do nosso filho e da vida a três entre desafios, amor e expectativas para o futuro
A amante do meu marido era deslumbrante. Se eu fosse homem, teria escolhido alguém exatamente assim. Sabe aquelas mulheres que conhecem o próprio valor? Caminham com dignidade, olham de frente, ouvem com atenção. Não fazem movimentos apressados, não precisam mostrar o corpo para chamar atenção, são serenas, quase majestosas, e nunca se desesperam. Eu mesma a teria escolhido – tão diferente de mim. Porque eu? Sempre apressada, ralhando com os filhos e o marido, tudo me cai das mãos, não dou conta do trabalho, o chefe não está satisfeito. Ando sempre de calças e t-shirt ou camisola, porque passar um vestido ou blusa dá uma trabalheira. Já nem me lembro da última vez que passei uns folhos. Felizmente a minha máquina de secar resolve quase tudo, o ferro já quase não serve para nada. E a amante – maravilhosa. Que corpo, postura, pernas, cabelo, olhos, rosto… até perdi o fôlego! E para dizer a verdade, desde que descobri, nunca mais voltei a respirar fundo. Ou melhor, desde que vi. Foi por acaso: estava a trabalhar num bairro afastado da cidade, entrei num café qualquer para almoçar. O trabalho estava feito, a fome não esperava. Num canto, sento-me, escolho o menu, levanto o olhar. Não, não era ilusão. Reconheci logo o meu marido, mesmo de costas. E vi-a. Ele segurava as mãos dela dentro das dele e beijava-lhe os dedos. Que cena ridícula, pensei eu. “Os teus dedos cheiram a incenso”… Mas, honestamente, a mulher era mesmo bonita. Fiquei num estado estranho. Como quando se vê uma queimadura: sabes que a dor está para vir, mas ainda só sentes aquela antecipação sufocante. Para aliviar o futuro sofrimento, tentas soprar para a pele vermelha… Devia doer. Mas por dentro estava vazia. Nem dor. O marido voltou a tempo. Sempre bem-disposto, equilibrado. Eu é que perco logo a calma, estou sempre a correr, a apressar os outros. Ele sempre foi um sanguíneo, calmo, com sentido de humor. Até dava jeito aquele humor agora. O meu não serve nesta situação. Deu-me vontade de perguntar durante o jantar, num tom neutro: “Então, e a tua amante? Vi-vos naquele café novo, em Benfica, ela é mesmo bonita, percebo-te… eu próprio/ia não resistiria!” Perguntar e saborear enquanto ele suava, ficava vermelho e tentava disfarçar. E ainda continuar: “E agora, o que sugeres? Vais apresentar os miúdos à nova ‘mãe’, ou eu conto? Ela tem onde morar ou vem morar connosco?” Nada disto aconteceu. O meu marido fez o habitual: abraçou-me na cama, puxou-me para junto de si e adormeceu em segundos. Talvez ainda não tenham chegado lá, pensei eu, afastando-me na cama. Talvez esteja só na fase da atração, dos sorrisos cúmplices e do mesmo ritmo na respiração. Ele sempre foi cuidadoso – um verdadeiro mestre da dissimulação, não denuncia um músculo! Revirei-me, dormi aos bocados, sonhei com flores vivas e amantes em vestidos vermelhos. Acordei de cabeça pesada, mais lenta do que o costume, preparei as crianças para a escola. O tempo todo a pensar: o que faço? O que uma mulher faz quando apanha o marido com outra? Pesquisar no Google? O Google não ajudou. E eu também não tinha respostas. Experimento seguir com a vida? Mas já é isso que faço. O de sempre: marido a chegar a horas, sem batom na camisa nem cheiro de perfume estranho, miúdos animados, cinema ao domingo. Nenhum comportamento mudou. O mesmo sexo duas vezes por semana. Às vezes três, detalhes contam. Talvez me tenha enganado no café? Não me enganei. Liguei-lhe na hora do almoço, ele não atendeu. Fui de táxi ao mesmo café. Inventei ao taxista que ia buscar um ‘envelope importante do trabalho’. O carro do marido estava lá, do outro lado da rua. Ele e a amante saíram juntos, entraram no carro e partiram. Fiquei branca, pedi água ao taxista, fingi ligar a alguém: “Olhem, deixo o vosso pacote, tenho de voltar para o trabalho!” Afinal ainda me importa o que um desconhecido acha de mim. Saber de uma amante muda tudo. Divórcio? Talvez seja o caminho. Como viver assim? Suportar? Para quê? Lembrei-me de um casal amigo, há uns anos. O marido teve uma amante, tentou esconder, mas a mulher descobriu. Escândalo, ele negou até ao fim, mesmo com provas no telemóvel. Dizia que tinham sido hackers invejosos. Nessa altura, o meu marido afirmou: “Eu nunca mentiria. É cobarde. Se fizeste, tens de assumir. Ou cortas com a amante ou segues com ela, mas assegura a família.” Na altura, até me orgulhei dele. Fácil resolver a situação dos outros. À distância. Quando não és tu o protagonista. Mas depois vês a mulher e a amante à tua frente, coragem e tom firme evaporam. No mesmo café, sentei-me à mesa deles. A amante olhou, surpresa. O marido ficou estático. Silêncio. Até achei graça à cena. A amante percebeu logo quem eu era. Ou talvez já soubesse. O marido quis dizer qualquer coisa, mas eu fiz sinal para parar: “Isto não é o que parece, não é? Sabe, nem sequer me surpreende. Acontece. Agora pensem como vão resolver – temos filhos, casa em comum, pais idosos. Vocês são inteligentes, hão-de dar um jeito.” Levantei-me com calma e saí. O vestido bem passado ficava-me mesmo bem. Não sei porque deixei de o usar.