Duas Colunas Ela já tinha tirado as botas e posto água no fervedor quando chegou uma mensagem da chefe no WhatsApp: «Consegues vir amanhã cobrir o turno da Sandra? Ela está com febre e não tenho mais ninguém.» As mãos ainda estavam molhadas do lava-louça, o ecrã ficou todo marcado. Limpou as palmas ao pano e olhou para o calendário no telemóvel. O dia seguinte era o único em que tinha planeado deitar-se cedo, desligar-se de todos — de manhã precisava entregar um relatório e a cabeça já zumbia. Escreveu «Não posso, tenho…» — e parou. Subiu-lhe aquela sensação familiar, tipo enjoo: se disseres que não, estás a falhar. Não és assim. Apagou e escreveu só: «Vou, sim.» Enviou. O fervedor apitou. Serviu-se na caneca, sentou-se no banco da cozinha e abriu a nota, intitulada simplesmente «Coisas Boas». Já lá estava a data e o novo ponto: «Cobri o turno da Sandra.» Pôs um ponto final e, no fim, um pequeno mais, como se aquilo equilibrasse alguma coisa. A nota já a acompanhava há quase um ano. Tinha começado em janeiro, quando depois das festas tudo lhe pareceu especialmente vazio e precisava daquela prova de que os dias não passavam sem deixar rasto. Então escreveu: «Levei Dona Emília ao centro de saúde.» Dona Emília, do quinto andar, andava devagar com o saco dos exames e apanhava medo dos autocarros. Tocou-lhe à campainha: «Tens carro, levas-me? Senão não chego a tempo.» Levou-a, esperou no carro enquanto ela fazia análises, trouxe-a de volta. No regresso, apanhou-se irritada. Estava atrasada para o trabalho e já tinha na cabeça as queixas alheias sobre filas e médicos. A irritação era envergonhada, disfarçou-a com um café na bomba. Na nota depois registou, como se aquilo tivesse sido feito de coração limpo. Em fevereiro, o filho teve de ir trabalhar fora e deixou-lhe o neto ao fim de semana. «Estás em casa, não te custa nada», disse ele, como se fosse um dado adquirido. O neto era querido, barulhento, sempre com o «olha», «anda», «brinca». Ela amava-o, mas ao fim do dia as mãos tremiam de cansaço, a cabeça soava a campainhas depois de um concerto. Deitou-o, lavou a loiça, arrumou os brinquedos na caixa — que ele logo voltaria a despejar mal acordasse. No domingo, quando o filho voltou, ela disse: «Estou cansada.» Ele sorriu como se ela fizesse piada: «Ora, és avó.» E deu-lhe um beijo na bochecha. Na nota escreveu: «Fiquei com o neto dois dias.» Ao lado pôs um coração, para não sentir que era só obrigação. Em março, a prima ligou a pedir dinheiro até ao ordenado. «Preciso dos remédios, percebes, não percebes?» E ela percebia. Fez a transferência e nem perguntou quando devolvia. Depois ficou na cozinha a calcular como aguentava até ao dia do pagamento, adiando finalmente o casaco novo — já o velho estava puído nos cotovelos. Na nota só escreveu: «Ajudei a prima.» Não acrescentou: «Adiei o meu casaco.» Parecia-lhe pouca coisa, sem valor para ser registado. Em abril, no trabalho, uma das raparigas, tão novinha, olhos vermelhos, ficou presa na casa de banho e não conseguia sair. Chorava baixinho, repetia que ninguém gostava dela, que fora abandonada. Ela bateu e disse: «Abre, estou aqui, não tens de estar sozinha.» Depois sentaram-se nas escadas, ainda cheirando a tinta fresca, e ouviu-a até escurecer, perdendo a aula de fisioterapia que o médico recomendara por causa das dores. Em casa, deitou-se e sentiu a lombar a queixar-se. Quis ficar zangada com a rapariga, mas ficou foi zangada consigo: porque não sabes dizer «preciso de ir para casa»? Na nota apareceu: «Ouvi a Inês, dei-lhe apoio.» Pôs o nome, parecia-lhe mais próximo. Mais uma vez, não escreveu «faltei ao meu compromisso». Em junho, deu boleia a uma colega carregada de sacos para a casa de campo porque lhe avariara o carro. A colega passou a viagem aos gritos no viva-voz com o marido, sem perguntar se era incómodo. Ela calou-se e ficou a olhar a estrada. Ao chegar, a colega largou os sacos, disse: «Pronto, obrigada, era mesmo a caminho.» E não era nada, ela teve de atravessar o trânsito para voltar, chegou tarde e já não foi ver a mãe, que acabou magoada. Na nota registou: «Levei a Isabel à casa de campo.» A expressão «a caminho» incomodou-a, ficou a olhar muito tempo para o ecrã até este se desligar. Em agosto, de madrugada, a mãe ligou aflita: «Sinto-me mal, a tensão está alta, estou com medo.» Ela levantou-se, vestiu o casaco, chamou táxi, atravessou a cidade adormecida. O quarto estava abafado, o medidor na mesa, os comprimidos espalhados. Mediu a tensão à mãe, deu-lhe o remédio, ficou ao lado dela até adormecer. De manhã foi trabalhar, sem passar por casa. No metro adormecia de cansaço, com medo de falhar a estação. Na nota escreveu: «Passei a noite com a mãe.» Pôs um ponto de exclamação e logo apagou — parecia alto demais. No outono, a lista esticou. Ficou longa, feita de rol infinito. Quanto maior, mais sentia aquela coisa estranha: como se a vida fosse entrega de relatório. Como se o amor por ela se provasse por recibos, e ela os fosse guardando no telemóvel para mostrar, se alguém perguntasse: «Fazes mesmo alguma coisa?» Tentou lembrar quando foi que o registo teve algo para ela. Não «por ela», mas «para ela». Tudo para os outros, as dores dos outros, os pedidos, os planos. Os desejos dela pareciam caprichos, a esconder. Em outubro, houve uma cena baixa, mas que a arranhou. Foi levar uns documentos ao filho, que ele pedira impressos. Ficou no hall com a pasta, enquanto ele procurava chaves e falava ao telefone. O neto correu à volta, a berrar por desenhos animados. O filho tapou o microfone e atirou: «Já agora, podes ir ao supermercado? Precisamos de leite e pão, não tenho tempo.» Ela respondeu: «Também estou cansada.» O filho nem olhou, só encolheu os ombros: «Podes, tu consegues sempre.» E voltou à conversa. Aquelas palavras caíram como selo. Não era pedido, era facto consumado. Sentiu alguma coisa a ferver dentro, junto com vergonha. Vergonha de querer dizer não. De, de repente, não querer ser sempre conveniente. Foi ao supermercado de qualquer maneira. Comprou leite, pão e maçãs, porque o neto gosta. Entregou, pôs os sacos na bancada e ouviu: «Obrigado, mãe.» Aquele «obrigado» saiu igual a uma chamada de ponto. Sorriu, como sabe, e foi-se embora. Em casa, abriu a nota e escreveu: «Fui às compras para o meu filho.» Ficou a olhar muito tempo aquela linha. Os dedos tremiam, não de exaustão, mas de raiva. Percebeu que a lista já não era apoio — era trela. Em novembro, marcou consulta para as dores nas costas que já não lhe deixavam ficar tempo à cozinha. Pela Internet, para sábado cedo, sem faltar ao trabalho. Sexta-feira à noite, ligou a mãe: «Amanha vens cá? Preciso que me leves à farmácia, e sinto-me só.» Ela disse: «Eu tenho consulta.» A mãe calou-se um instante, depois: «Pronto. Já vi que não faço falta.» Esta frase funcionava sempre. Começava logo a justificar-se, a prometer, a adiar o que era dela. Já ia dizer «vou depois», mas parou. Não era teimosia, era cansaço — como se visse que a vida dela também pesava. Disse baixo: «Mãe, vou depois de almoço. Preciso ir ao médico.» A mãe suspirou, como se a tivessem deixado ao frio. «Pronto, está bem», e naquele «está bem» vinha tudo: mágoa, peso, hábito. Dormiu mal. Sonhou que fugia com pastas num corredor, portas a fechar uma após outra. De manhã fez papas, tomou o comprimido antigo da caixa, saiu. Na sala de espera, ouvia conversas sobre pensões e exames, e não pensava no diagnóstico mas no estranho vago orgulho de estar ali só para si — e de sentir medo disso. Depois da médica foi ver a mãe, como prometera. Passou na farmácia, subiu ao terceiro. A mãe recebeu-a calada, depois perguntou: «Então, foste?» Ela respondeu: «Fui.» E acrescentou, sem justificar: «Precisei mesmo.» A mãe olhou-a fixamente — como se visse ali, pela primeira vez, não uma função, mas uma pessoa. Depois virou costas e foi para a cozinha. Ao regressar, sentiu uma leveza esquisita. Não era alegria, era espaço. Em dezembro, com o ano a acabar, percebeu que aguardava o fim-de-semana não como pausa, mas como hipótese. No sábado de manhã, o filho voltou a pedir: «Podes ficar com o neto umas horas? Temos recados.» Leu a mensagem e os dedos iam, por reflexo, escrever «sim». Sentou-se na beira da cama, o telemóvel quente na mão. O quarto silencioso, só o aquecedor fazia barulho. Lembrou-se daquele plano antigo para o dia: queria ir ao Chiado, ao museu, ver uma exposição guardada há meses. Queria caminhar entre quadros sem ninguém a perguntar pelas meias ou pelo jantar. Escreveu: «Hoje não posso. Tenho planos meus.» Enviou, pousou logo o telemóvel virado para baixo, como se assim aguentasse melhor. A resposta veio logo a seguir. «Pronto.» Depois: «Estás chateada?» Pegou no telemóvel, leu, sentiu aquela vontade antiga de explicar, justificar, suavizar. Podia ter escrito um texto: que estava cansada, que também precisa de vida própria. Mas sabia que explicações compridas são sempre o início de uma negociação, e ela não queria negociar por si. Escreveu: «Não. Só é importante para mim.» E mais nada. Preparou-se com calma, como quem sai para trabalhar. Verificou o ferro, as janelas, pegou na carteira, no cartão multibanco, no carregador. Na paragem de autocarro, entre gente com sacos e compras, sentiu que não precisava de salvar ninguém naquele instante. Era estranho, mas não assustava. No museu caminhou devagar — olhou rostos em retratos, mãos, as luzes nas janelas das telas. Parecia-lhe que reaprendia a prestar atenção, mas desta vez à sua própria voz, não aos pedidos dos outros. No bufete, bebeu café, comprou um postal com uma reprodução, guardou na mala. O papel era grosso, sabe bem na mão. Quando chegou a casa, o telemóvel ficou dentro da mala e nem foi logo buscá-lo. Tirou o casaco, pendurou, lavou as mãos, pôs água ao lume. Depois sentou-se e abriu a nota das «Coisas Boas». Foi ao fim, à data daquele dia. Ficou muito tempo a olhar a linha vazia. Clicou em mais e escreveu: «Fui ao museu sozinha. Não pus a vida dos outros à frente da minha.» E parou. As palavras «à frente da minha vida» pareceram-lhe demasiado sonoras, acusatórias. Apagou e escreveu mais simples: «Fui ao museu sozinha. Cuidei de mim.» Depois, fez algo que nunca lhe ocorrera: no topo da nota, dividiu a lista ao meio. À esquerda escreveu: «Para os outros.» À direita: «Para mim.» Na coluna do «Para mim», por enquanto, só havia uma entrada. Olhou para ela e sentiu que algo dentro finalmente ganhava forma — como coluna endireitada depois de um exercício bem feito. Não precisava provar a ninguém que era boa. Só precisava de lembrar-se que existia. O telemóvel voltou a vibrar. Não apressou. Serviu-se do chá, deu um gole e só depois leu. A mãe escreveu: «Estás bem?» Respondeu: «Estou. Amanhã levo-te o pão.» Acrescentou, antes de enviar: «Hoje estive ocupada.» Enviou e pousou o telemóvel, ecrã para cima. O quarto estava em silêncio — silêncio que não apertava, mas parecia, finalmente, um espaço aberto para ela própria.

Já tinha descalçado as botas e posto a chaleira ao lume quando me apareceu uma mensagem da minha chefe: Consegues vir amanhã à loja no lugar da Sílvia? Está com febre e não há quem feche a loja. As mãos ainda estavam molhadas do lava-louça, deixei marcas no ecrã do telemóvel. Sequei-as ao pano de cozinha e fui ver o calendário. Era o único dia em que planeava deitar-me cedo, sem atender ninguém tinha o relatório logo de manhã, e a cabeça já zunia.

Digitei: Não me dá jeito, tenho que e parei. Senti aquele desconforto familiar: se dissesse que não, estava a deixar os outros na mão. Não era esse tipo de pessoa. Apaguei e escrevi apenas: Sim, posso. Enviei.

A chaleira começou a chiar. Deitei água na caneca, sentei-me no banco junto à janela e abri a nota do telemóvel, a que chamo Coisas Boas. Já lá estava a data e o ponto: Fiz o turno pela Sílvia. Pus um ponto final e um pequeno mais, como se equilibrasse a balança.

Há quase um ano que ando com esta nota. Comecei-a em janeiro, depois das festas, quando a casa ficou especialmente vazia e queria provas de que os dias não me escoavam por entre os dedos. Nessa altura escrevi: Levei a Dona Teresa ao centro de saúde. A Dona Teresa, do quinto andar, andava devagar, de saco na mão, com medo do autocarro. Tocou-me à porta: Como vais de carro, deixas-me, senão não chego a horas. Levei-a, esperei no carro enquanto ela fazia análises e trouxe-a de volta.

No regresso, dei por mim irritado. Ia chegar atrasado ao trabalho, e a cabeça já rodava de queixas e médicos. Envergonhado, engoli a irritação e afoguei-a num café na bomba de gasolina. Quando escrevi na nota, fi-lo com cuidado, como se tivesse sido só generosidade.

Em fevereiro, o meu filho foi em trabalho para fora e trouxe-me o neto para o fim de semana. Tu estás aí em casa, não custa nada, disse, como quem afirma, não pergunta. O miúdo é engraçado, barulhento, sempre no avô, olha!, vá, anda! Gostava muito dele, mas à noite as mãos tremiam-me do cansaço, a cabeça zumbia como numa discoteca.

Deitei-o, lavei a loiça, arrumei os brinquedos na caixa que ele logo despejou de manhã. No domingo, quando o meu filho chegou, só consegui dizer: Estou exausto. Ele sorriu, como se fosse graça: És mesmo avô. E beijou-me na face. Escrevi na nota: Fiquei com o neto dois dias. Pus um coração ao lado, para não sentir que foi só por obrigação.

Em março, ligou-me a minha prima a pedir para lhe emprestar dinheiro até ao fim do mês. Preciso para os medicamentos, sabes como é. Eu sabia. Transferi, não perguntei quando me pagava. Fiquei depois na cozinha, a ver como me aguentava até ao salário, deixando o casaco novo para depois, que o outro já estava gasto nos cotovelos.

Na nota, só escrevi: Ajudei a prima. Nem referi que tinha adiado algo meu. Parecia tão pequeno, nem me ocorreu fixar.

Em abril, uma das raparigas novas no trabalho, de olhos inchados, ficou presa na casa de banho sem saber sair. Chorava baixinho: tinham-na deixado, não era importante para ninguém. Bati à porta: Abre, estou aqui. Sentámo-nos nas escadas, onde cheirava a tinta fresca, ouvi-a repetir tudo. Ouvi-a até anoitecer, e falhei a fisioterapia que o médico recomendou para as minhas dores nas costas.

Deitado no sofá senti a lombar arder. Quis zangar-me com ela, mas a zanga era comigo: porque não sei dizer tenho de ir? Escrevi: Ouvi a Daniela, apoiei-a. Escrevi o nome, deu-lhe calor. Não escrevi que falhei a sessão, como se não contasse.

Em junho, levei a colega Anabela com as malas até à casa de campo, porque o carro dela pifou. Ela foi a resmungar com o marido ao telefone, nem perguntou se me dava jeito. Fiquei calado a ver a estrada. Lá, largou as malas e disse: Vais sempre para aquele lado, obrigada. Não ia nada para aquele lado. Entrei nas filas de trânsito, cheguei a casa tarde e já não vi a minha mãe, que depois ficou ofendida.

Na nota: Levei a Anabela ao campo. O vais para aquele lado ficou-me atravessado e fiquei tempo a olhar para o ecrã apagado.

Em agosto, a minha mãe ligou a meio da noite. A voz tremia: Sinto-me mal, a tensão, estou sozinha. Saltei da cama, vesti o casaco, chamei um táxi através da cidade deserta. O apartamento estava abafado, no prato estavam os comprimidos, o medidor ao lado. Medi-lhe a tensão, dei os remédios e fiquei ali, ao lado, até adormecer.

De manhã fui direto trabalhar, sem passar por casa. No metro, os olhos teimavam em fechar, quase me esqueci da estação. Escrevi: Fiquei com a mãe à noite. Ao lado queria pôr um ponto de exclamação, mas apaguei parecia exagero.

Quando o tempo arrefeceu, a lista cresceu. Ficou tão comprida como uma bobina de papel, sem fim. Quanto mais crescia, mais sentia que não vivia: só prestava contas. Era como se o carinho que os outros sentiam por mim fosse comprovativo, memorizado no telemóvel, caso alguém perguntasse: Mas tu fazes alguma coisa?

Procurei lembrar quando a lista teve algo sobre mim não para mim, mas por mim. Tudo era sobre os outros: as dores, os pedidos, os planos deles. Os meus desejos pareciam birras de criança, para esconder.

Em outubro, houve uma cena pequena, mas ficou-me marcada. Fui a casa do filho levar uns documentos impressos. Esperei no hall, ele à procura das chaves, ao telefone. O neto, sempre traquina, pedia desenhos animados. O filho, a cobrir o microfone, atirou: Já agora que estás cá, passas no supermercado? Precisamos de leite e pão, não temos tempo.

Respondi: Olha que também estou cansado. Nem olhou, só encolheu os ombros: Claro que podes. Tu consegues sempre. E voltou ao telefone.

Estas palavras soaram definitivo. Não era um pedido, era um dado. Senti algo a borbulhar por dentro seguido da velha vergonha, por não querer sempre dizer sim. Por querer finalmente dizer não.

Mesmo assim fui ao supermercado. Comprei leite, pão e ainda maçãs, porque o neto adora. Levei, deixei as compras na mesa, ouvi um Obrigado, pai, dito como quem preenche uma lista. Sorri, como sempre, e fui embora.

Em casa, escrevi: Comprei mantimentos para o filho. Fiquei muito tempo a olhar para a linha. Os dedos tremiam mas de zanga, não de cansaço. Apercebi-me que a lista deixou de servir de apoio: era mais uma corrente.

Em novembro, marquei consulta nas finanças públicas, dores nas costas a aumentar, já não aguentava a cozinha de pé. Marquei para sábado de manhã, para não faltar ao emprego. Na véspera, a mãe ligou: Passas cá amanhã? Preciso de ir à farmácia, e não quero estar sozinha.

Disse: Tenho consulta marcada. Silêncio breve do outro lado: Pronto. Se calhar já não preciso de ti.

Esta frase abria sempre portas. Ia logo explicar-me, prometer, adiar o que era meu. Abri a boca, ia dizer: Vou depois do médico, mas parei. Era cansaço, não teimosia. Senti finalmente que a minha vida também tinha importância.

Disse baixinho: Mãe, vou depois de almoço. Preciso mesmo do médico.

O suspiro do outro lado foi gelado. Está bem, disse, e naquele está bem ia tudo: ressentimento, velho hábito.

Dormei mal. Sonhei com corredores cheios de pastas e portas a fechar-se. De manhã, fiz papas para mim, tomei os comprimidos antigos e saí. Na sala de espera ouvi conversas de exames e reformas, não sobre o meu diagnóstico, mas sobre finalmente fazer algo por mim, e isso assustava.

No regresso, passei pela farmácia, subi ao terceiro andar. A mãe recebeu-me calada e, depois, perguntou se fui à consulta.

Respondi: Fui. Acrescentei firme, sem desculpas: Precisava mesmo.

Ela olhou-me como nunca, a ver uma pessoa, não um serviço. Desviou o olhar, foi para a cozinha. No regresso a casa, senti um alívio estranho. Não era alegria, era espaço.

Em dezembro, mesmo a fechar o ano, dei por mim a desejar o sábado não como pausa, mas como possibilidade. De manhã, o filho voltou a pedir: Podes ficar com o miúdo umas horas? Temos assuntos para tratar. Li a mensagem, os dedos já a digitar claro.

Sentei-me, o telemóvel quente na mão. O silêncio era só cortado pelo ranger do radiador. Lembrei-me do plano para o dia: ir ao centro, ao museu, ver uma exposição que adiava há meses. Queria passear naquele silêncio, sem ninguém me pedir meia ou perguntar o que há para jantar.

Escrevi: Hoje não posso. Tenho planos. Enviei, pousando o telemóvel com o ecrã para baixo, como se custasse menos.

A resposta veio logo: Está bem. Outra depois: Estás zangado?

Virei o telefone, li e senti o instinto de explicar-me, suavizar tudo. Podia escrever um texto comprido, contar que estou cansado, que tenho de viver. Mas explicações tornam-se negociação, e não quero negociar a minha vida.

Respondi: Não. Só é importante para mim. E nada mais.

Preparei-me tranquilo, como num dia de trabalho. Revisei tudo, fechei janelas, levei carteira e carregador. Na paragem, entre sacos e pressas alheias, percebi que não tinha ninguém para salvar naquele momento. Era estranho, mas não assustador.

No museu, andei devagar. Olhei para os rostos nos retratos, as mãos, a luz nas janelas pintadas. Pareceu-me que reaprendia a notar, mas não no que os outros precisavam em mim. Tomei café na cafetaria pequena, comprei um postal com uma reprodução, guardei na mochila. Era de cartolina rija, soube-me bem ao toque.

Quando cheguei a casa, o telemóvel ficou na mala. Primeiro tirei o casaco, pendurei, lavei as mãos, pus água na chaleira. Depois, sentei-me à mesa e abri a nota Coisas Boas. Fui à data de hoje.

Olhei a linha vazia muito tempo. Finalmente, pus um mais e escrevi: Fui ao museu sozinho. Não troquei os meus planos pelos de ninguém.

Parei. Soava grandioso, como uma acusação. Apaguei e escrevi mal mais simples: Fui ao museu sozinho. Cuidei de mim.

Depois, fiz algo novo. No topo da nota, abri duas colunas e dividi a lista. À esquerda: Pelos outros. À direita: Por mim.

Na coluna Por mim só ia uma linha. Olhei para ela e senti que uma coisa importante se alinhava, como a coluna depois de um bom exercício. Não precisava provar o meu valor a ninguém. Bastava-me lembrar que existo.

O telemóvel vibrou de novo. Não corri. Deitei chá, bebi e só depois vi: a mãe mandou Como estás?

Respondi: Estou bem. Levo-te pão amanhã. E adicionei, antes de enviar: Hoje estive ocupado.

Enviei e deixei o telefone à vista. O silêncio da casa já não pesava. Era finalmente um lugar feito para mim também.

Aprendi, enfim, que cuidar dos outros não pode significar esquecer-me de existir. Há espaço para todos, e também para mim.

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Duas Colunas Ela já tinha tirado as botas e posto água no fervedor quando chegou uma mensagem da chefe no WhatsApp: «Consegues vir amanhã cobrir o turno da Sandra? Ela está com febre e não tenho mais ninguém.» As mãos ainda estavam molhadas do lava-louça, o ecrã ficou todo marcado. Limpou as palmas ao pano e olhou para o calendário no telemóvel. O dia seguinte era o único em que tinha planeado deitar-se cedo, desligar-se de todos — de manhã precisava entregar um relatório e a cabeça já zumbia. Escreveu «Não posso, tenho…» — e parou. Subiu-lhe aquela sensação familiar, tipo enjoo: se disseres que não, estás a falhar. Não és assim. Apagou e escreveu só: «Vou, sim.» Enviou. O fervedor apitou. Serviu-se na caneca, sentou-se no banco da cozinha e abriu a nota, intitulada simplesmente «Coisas Boas». Já lá estava a data e o novo ponto: «Cobri o turno da Sandra.» Pôs um ponto final e, no fim, um pequeno mais, como se aquilo equilibrasse alguma coisa. A nota já a acompanhava há quase um ano. Tinha começado em janeiro, quando depois das festas tudo lhe pareceu especialmente vazio e precisava daquela prova de que os dias não passavam sem deixar rasto. Então escreveu: «Levei Dona Emília ao centro de saúde.» Dona Emília, do quinto andar, andava devagar com o saco dos exames e apanhava medo dos autocarros. Tocou-lhe à campainha: «Tens carro, levas-me? Senão não chego a tempo.» Levou-a, esperou no carro enquanto ela fazia análises, trouxe-a de volta. No regresso, apanhou-se irritada. Estava atrasada para o trabalho e já tinha na cabeça as queixas alheias sobre filas e médicos. A irritação era envergonhada, disfarçou-a com um café na bomba. Na nota depois registou, como se aquilo tivesse sido feito de coração limpo. Em fevereiro, o filho teve de ir trabalhar fora e deixou-lhe o neto ao fim de semana. «Estás em casa, não te custa nada», disse ele, como se fosse um dado adquirido. O neto era querido, barulhento, sempre com o «olha», «anda», «brinca». Ela amava-o, mas ao fim do dia as mãos tremiam de cansaço, a cabeça soava a campainhas depois de um concerto. Deitou-o, lavou a loiça, arrumou os brinquedos na caixa — que ele logo voltaria a despejar mal acordasse. No domingo, quando o filho voltou, ela disse: «Estou cansada.» Ele sorriu como se ela fizesse piada: «Ora, és avó.» E deu-lhe um beijo na bochecha. Na nota escreveu: «Fiquei com o neto dois dias.» Ao lado pôs um coração, para não sentir que era só obrigação. Em março, a prima ligou a pedir dinheiro até ao ordenado. «Preciso dos remédios, percebes, não percebes?» E ela percebia. Fez a transferência e nem perguntou quando devolvia. Depois ficou na cozinha a calcular como aguentava até ao dia do pagamento, adiando finalmente o casaco novo — já o velho estava puído nos cotovelos. Na nota só escreveu: «Ajudei a prima.» Não acrescentou: «Adiei o meu casaco.» Parecia-lhe pouca coisa, sem valor para ser registado. Em abril, no trabalho, uma das raparigas, tão novinha, olhos vermelhos, ficou presa na casa de banho e não conseguia sair. Chorava baixinho, repetia que ninguém gostava dela, que fora abandonada. Ela bateu e disse: «Abre, estou aqui, não tens de estar sozinha.» Depois sentaram-se nas escadas, ainda cheirando a tinta fresca, e ouviu-a até escurecer, perdendo a aula de fisioterapia que o médico recomendara por causa das dores. Em casa, deitou-se e sentiu a lombar a queixar-se. Quis ficar zangada com a rapariga, mas ficou foi zangada consigo: porque não sabes dizer «preciso de ir para casa»? Na nota apareceu: «Ouvi a Inês, dei-lhe apoio.» Pôs o nome, parecia-lhe mais próximo. Mais uma vez, não escreveu «faltei ao meu compromisso». Em junho, deu boleia a uma colega carregada de sacos para a casa de campo porque lhe avariara o carro. A colega passou a viagem aos gritos no viva-voz com o marido, sem perguntar se era incómodo. Ela calou-se e ficou a olhar a estrada. Ao chegar, a colega largou os sacos, disse: «Pronto, obrigada, era mesmo a caminho.» E não era nada, ela teve de atravessar o trânsito para voltar, chegou tarde e já não foi ver a mãe, que acabou magoada. Na nota registou: «Levei a Isabel à casa de campo.» A expressão «a caminho» incomodou-a, ficou a olhar muito tempo para o ecrã até este se desligar. Em agosto, de madrugada, a mãe ligou aflita: «Sinto-me mal, a tensão está alta, estou com medo.» Ela levantou-se, vestiu o casaco, chamou táxi, atravessou a cidade adormecida. O quarto estava abafado, o medidor na mesa, os comprimidos espalhados. Mediu a tensão à mãe, deu-lhe o remédio, ficou ao lado dela até adormecer. De manhã foi trabalhar, sem passar por casa. No metro adormecia de cansaço, com medo de falhar a estação. Na nota escreveu: «Passei a noite com a mãe.» Pôs um ponto de exclamação e logo apagou — parecia alto demais. No outono, a lista esticou. Ficou longa, feita de rol infinito. Quanto maior, mais sentia aquela coisa estranha: como se a vida fosse entrega de relatório. Como se o amor por ela se provasse por recibos, e ela os fosse guardando no telemóvel para mostrar, se alguém perguntasse: «Fazes mesmo alguma coisa?» Tentou lembrar quando foi que o registo teve algo para ela. Não «por ela», mas «para ela». Tudo para os outros, as dores dos outros, os pedidos, os planos. Os desejos dela pareciam caprichos, a esconder. Em outubro, houve uma cena baixa, mas que a arranhou. Foi levar uns documentos ao filho, que ele pedira impressos. Ficou no hall com a pasta, enquanto ele procurava chaves e falava ao telefone. O neto correu à volta, a berrar por desenhos animados. O filho tapou o microfone e atirou: «Já agora, podes ir ao supermercado? Precisamos de leite e pão, não tenho tempo.» Ela respondeu: «Também estou cansada.» O filho nem olhou, só encolheu os ombros: «Podes, tu consegues sempre.» E voltou à conversa. Aquelas palavras caíram como selo. Não era pedido, era facto consumado. Sentiu alguma coisa a ferver dentro, junto com vergonha. Vergonha de querer dizer não. De, de repente, não querer ser sempre conveniente. Foi ao supermercado de qualquer maneira. Comprou leite, pão e maçãs, porque o neto gosta. Entregou, pôs os sacos na bancada e ouviu: «Obrigado, mãe.» Aquele «obrigado» saiu igual a uma chamada de ponto. Sorriu, como sabe, e foi-se embora. Em casa, abriu a nota e escreveu: «Fui às compras para o meu filho.» Ficou a olhar muito tempo aquela linha. Os dedos tremiam, não de exaustão, mas de raiva. Percebeu que a lista já não era apoio — era trela. Em novembro, marcou consulta para as dores nas costas que já não lhe deixavam ficar tempo à cozinha. Pela Internet, para sábado cedo, sem faltar ao trabalho. Sexta-feira à noite, ligou a mãe: «Amanha vens cá? Preciso que me leves à farmácia, e sinto-me só.» Ela disse: «Eu tenho consulta.» A mãe calou-se um instante, depois: «Pronto. Já vi que não faço falta.» Esta frase funcionava sempre. Começava logo a justificar-se, a prometer, a adiar o que era dela. Já ia dizer «vou depois», mas parou. Não era teimosia, era cansaço — como se visse que a vida dela também pesava. Disse baixo: «Mãe, vou depois de almoço. Preciso ir ao médico.» A mãe suspirou, como se a tivessem deixado ao frio. «Pronto, está bem», e naquele «está bem» vinha tudo: mágoa, peso, hábito. Dormiu mal. Sonhou que fugia com pastas num corredor, portas a fechar uma após outra. De manhã fez papas, tomou o comprimido antigo da caixa, saiu. Na sala de espera, ouvia conversas sobre pensões e exames, e não pensava no diagnóstico mas no estranho vago orgulho de estar ali só para si — e de sentir medo disso. Depois da médica foi ver a mãe, como prometera. Passou na farmácia, subiu ao terceiro. A mãe recebeu-a calada, depois perguntou: «Então, foste?» Ela respondeu: «Fui.» E acrescentou, sem justificar: «Precisei mesmo.» A mãe olhou-a fixamente — como se visse ali, pela primeira vez, não uma função, mas uma pessoa. Depois virou costas e foi para a cozinha. Ao regressar, sentiu uma leveza esquisita. Não era alegria, era espaço. Em dezembro, com o ano a acabar, percebeu que aguardava o fim-de-semana não como pausa, mas como hipótese. No sábado de manhã, o filho voltou a pedir: «Podes ficar com o neto umas horas? Temos recados.» Leu a mensagem e os dedos iam, por reflexo, escrever «sim». Sentou-se na beira da cama, o telemóvel quente na mão. O quarto silencioso, só o aquecedor fazia barulho. Lembrou-se daquele plano antigo para o dia: queria ir ao Chiado, ao museu, ver uma exposição guardada há meses. Queria caminhar entre quadros sem ninguém a perguntar pelas meias ou pelo jantar. Escreveu: «Hoje não posso. Tenho planos meus.» Enviou, pousou logo o telemóvel virado para baixo, como se assim aguentasse melhor. A resposta veio logo a seguir. «Pronto.» Depois: «Estás chateada?» Pegou no telemóvel, leu, sentiu aquela vontade antiga de explicar, justificar, suavizar. Podia ter escrito um texto: que estava cansada, que também precisa de vida própria. Mas sabia que explicações compridas são sempre o início de uma negociação, e ela não queria negociar por si. Escreveu: «Não. Só é importante para mim.» E mais nada. Preparou-se com calma, como quem sai para trabalhar. Verificou o ferro, as janelas, pegou na carteira, no cartão multibanco, no carregador. Na paragem de autocarro, entre gente com sacos e compras, sentiu que não precisava de salvar ninguém naquele instante. Era estranho, mas não assustava. No museu caminhou devagar — olhou rostos em retratos, mãos, as luzes nas janelas das telas. Parecia-lhe que reaprendia a prestar atenção, mas desta vez à sua própria voz, não aos pedidos dos outros. No bufete, bebeu café, comprou um postal com uma reprodução, guardou na mala. O papel era grosso, sabe bem na mão. Quando chegou a casa, o telemóvel ficou dentro da mala e nem foi logo buscá-lo. Tirou o casaco, pendurou, lavou as mãos, pôs água ao lume. Depois sentou-se e abriu a nota das «Coisas Boas». Foi ao fim, à data daquele dia. Ficou muito tempo a olhar a linha vazia. Clicou em mais e escreveu: «Fui ao museu sozinha. Não pus a vida dos outros à frente da minha.» E parou. As palavras «à frente da minha vida» pareceram-lhe demasiado sonoras, acusatórias. Apagou e escreveu mais simples: «Fui ao museu sozinha. Cuidei de mim.» Depois, fez algo que nunca lhe ocorrera: no topo da nota, dividiu a lista ao meio. À esquerda escreveu: «Para os outros.» À direita: «Para mim.» Na coluna do «Para mim», por enquanto, só havia uma entrada. Olhou para ela e sentiu que algo dentro finalmente ganhava forma — como coluna endireitada depois de um exercício bem feito. Não precisava provar a ninguém que era boa. Só precisava de lembrar-se que existia. O telemóvel voltou a vibrar. Não apressou. Serviu-se do chá, deu um gole e só depois leu. A mãe escreveu: «Estás bem?» Respondeu: «Estou. Amanhã levo-te o pão.» Acrescentou, antes de enviar: «Hoje estive ocupada.» Enviou e pousou o telemóvel, ecrã para cima. O quarto estava em silêncio — silêncio que não apertava, mas parecia, finalmente, um espaço aberto para ela própria.
На 58 съм. На касата разпознах жена, чийто мъж я напусна, и видях каква цена имаше моето щастие.