Porque será que o telefone não tocou a noite toda? Achas que é problema de rede? Ou confundiram o dia? Não é possível que se tenham esquecido, Francisco, é uma data importante, quarenta anos, não é um aniversário qualquer Margarida rodava distraidamente o copo de vinho, olhando para o ecrã escuro do telemóvel pousado na toalha branca da mesa.
Francisco, seu marido, fixava os olhos cheios de culpa no prato de pato assado à portuguesa. Mastigava lentamente, como se assim pudesse adiar a resposta. Na sala, as velas lançavam sombras quentes, a música corria baixa, a casa cheirava a pinho e laranja o aniversário de Margarida era em dezembro, junto ao Natal. Preparara a mesa com petiscos que cozinhou dois dias seguidos, esperando que, como habitual, nesse fim de tarde aparecessem os familiares do marido. Ou pelo menos, que ligassem.
Gui, sabes como é a minha mãe, lá disse Francisco, pousando o garfo. Deve estar com a tensão alta, talvez esteja na terra a tratar da horta mas estamos no inverno Enfim, deve-se ter esquecido, a idade pesa. E a Clara anda sempre ocupada com o trabalho, nesta altura é sempre a correr.
A Clara está sempre ocupada sempre que o assunto sou eu, não é? ironizou Margarida, amargando-se. Mas curiosamente, quando precisa que eu fique com os miúdos ou lhe empreste uns euros até ao fim do mês, encontra sempre tempo para me ligar.
Margarida levantou-se e encostou-se à janela. Lá fora, os pingos de chuva caiam grossos no passeio. Quarenta anos. Uma data de balanço, de olhar para trás. E Margarida via que, apesar de quinze anos a servir como apoio, cozinheira, motorista e ouvinte sem descanso, a família do marido simplesmente a tinha apagado do calendário naquele dia especial.
Não te chateies, Francisco abraçou-a por trás. O que interessa é estarmos juntos. Eu não falhei, viste o presente que te dei.
E era de facto um bom presente: um voucher para um spa daquele que ela sempre desejara. Francisco gostava dela, isso Margarida sabia. Mas era fraco, sempre incapaz de fazer frente ao domínio da mãe, D. Amélia, ou à lata da irmã mais nova, Clara. Preferia fingir que não via, na esperança de que tudo passasse sozinho.
Não estou aborrecida, Chico, suspirou Margarida, olhando o vidro espelhado. Estou a tirar conclusões.
E reflexões não lhe faltavam. Recordou-se quando, há um ano, organizara de raiz os sessenta e cinco da sogra. Margarida pediu férias sem vencimento, encontrou restaurante, tratou do desconto, fez o menu, cozinhou um enorme bolo de dois andares para poupar nas despesas, e passou noites a montar um filme de fotos antigas que emocionasse a família.
E o que recebeu em troca? Um obrigada, mas podia ter posto mais creme e um gel de banho barato, ainda com o preço em destaque da promoção leve 2 por 1 do supermercado da esquina.
E Clara? Sempre via na ajuda da cunhada algo natural. Magui, podes buscar os miúdos à escola? Vou ao cabeleireiro, Magui, ajudas-me com o trabalho da faculdade? Tu percebes disto, Magui, empresta-me aquele vestido para a minha festa?. E Margarida fazia, emprestava, ajudava e achava que assim se fazia uma família. Que a bondade voltava dobrada.
Mas o telefone permaneceu mudo. Nem nessa noite, nem no dia seguinte. Nem sequer uma mensagem automática com um ramo de flores virtuais, como tanto gostavam de enviar pelo WhatsApp em datas e santos.
Durante uma semana, Margarida esperou. Queria ver quando se lembrariam dela. Passaram sete dias certinhos.
O telemóvel acendeu-se: Clara.
Olá, aniversariante! a voz animada da cunhada soou quase agressiva. Ouve, tenho um favorzito. Eu e o Manel vamos passar o fim de semana ao Porto, para arejar. Podes ficar com o Max? Ele já te conhece, não estranha. Um hotel para cães é caríssimo!
Margarida ficou imóvel, com as mãos ainda na massa do bolo que preparava.
Olá, Clara, respondeu devagar. Não tens nada para me dizer sobre a semana passada?
Hã? O que houve na semana passada? Ah, o teu aniversário! Desculpa, Magui, a minha cabeça! Vais desculpar, não vais? Entre família não há chatices. Pronto, tudo de bom atrasado! Então, podes ficar com o Max? Deixamos aí na sexta.
Max, um labrador desgovernado, tinha-lhe destruído uns sapatos novos e arranhado a parede na última vez.
Não, disse Margarida, firme.
Não? estranhou Clara.
Não posso ficar com o Max.
Do outro lado caiu um silêncio pesado.
Mas como não podes? Vamos perder a viagem! Sempre ficaste! O hotel está pago!
Sempre fiquei, mas agora não posso. Tenho outros planos. Vê com o hotel de cães, eles resolvem.
Estás melindrada pelo aniversário? a voz da cunhada tornou-se picada. Valha-me Deus, quarenta anos e birra por um postal? Esperava mais de ti, Magui. Vou ligar à mãe! Ela tem de saber como és!
Força, respondeu Margarida, desligando calmamente.
As mãos tremiam-lhe, mas sentia um alívio nunca antes experimentado. Pela primeira vez, disse não. E nada se desmoronou. Apenas a massa fermentava tranquila sob o pano.
Francisco chegou a casa nesse fim de dia, com ar de cão escaldado. Pelos vistos, mãe e irmã já lhe tinham feito a cabeça.
Magui, a mãe está de rastos, diz que a Clara está furiosa, que a viagem vai por água abaixo. Aceitas o Max, só desta vez?
Margarida olhou-o demoradamente.
Francisco, eles ignoraram o meu aniversário, não um aniversário qualquer, mas o dos meus quarenta anos. Nem um pedido de desculpa. Clara só ligou porque precisa de alguém para o cão. Não notas que está tudo sempre do lado deles?
Pois, percebo suspirou Francisco sentando-se, derrotado. Mas são família, não é?
Exatamente. Família devia significar respeito. Estou farta de ser um tapete, Chico. A partir de agora, acabou.
Francisco não respondeu. Não ficaram com o cão. Clara teve de pagar hotel e, por duas semanas, Margarida foi persona non grata ninguém falava com ela, era tema de cochicho, rotulada de ressabiada.
Mas veio aí o grande acontecimento do ano do clã: os setenta de D. Amélia.
O aniversário foi marcado com pompa. Sogra autoritária, queria todos reunidos na casa de campo construída por Francisco ao longo de cinco anos.
Em cada festa, D. Amélia ditava-lhe lista de compras e ementa, e Margarida, como tinha carro e jeito, fazia tudo: do supermercado às panelas, passando horas de avental, enquanto sogra e cunhada se arranjavam para receber os convidados.
O telefonema chegou a meio de janeiro.
Margarida, bom dia! Estás bem? Olha, vem aí os meus anos, temos de organizar tudo Vou dizer o que é preciso, prepara aí o papel: três frascos de ovas boas, salmão, dez quilos de carne de porco para assar, cinco tipos de salada
Margarida escutava, o telemóvel no ombro, mexendo café. Mas a caneta ficou no mesmo sítio.
Dona Amélia, desculpe, posso interromper? Quem vai preparar isto tudo este ano?
Quem?! Ora tu, claro, e eu a mandar, que já não posso estar tanto em pé E a Clara ajuda a pôr a mesa quando chegar.
Peço desculpa, mas este ano não posso. Tenho compromissos. No dia da festa chego à hora do convite, como convidada.
Silêncio denso. Quase se sentia o gelo do outro lado da linha.
Compromissos? O que há mais importante do que os setenta da mãe do teu marido? Puseste-te a pensar? Agora sou eu, que já nem forças tenho? Ou a Clara, com as suas unhas novas?
Pode sempre encomendar comida pronta, ou pedir a um catering. Agora é prático, trazem tudo quente, bem apresentado e não se suja nada.
Catering? Viste os preços? O que pensas, a minha reforma estica? Um prato caseiro é melhor sempre. Não disfarces, Margarida. Estás castigada pelo cão, não se fez caso, mas num aniversário não admito birras. Espero-te sexta antes da festa, com tudo comprado. Vou enviar a lista ao Francisco por WhatsApp, já que estás tão ocupada!
Desligou. À noite, Francisco estava lívido.
Magui, a minha mãe está a passar-se. Mandou lista de compras são mais de quinhentos euros. Quer que vamos os dois na sexta O que fazemos?
Vai tu, respondeu limpa Margarida, folheando uma revista. Compra tudo, se quiseres. Eu não vou na sexta, nem para cozinhar. Avisei a tua mãe.
Mas isto vai ser um desastre! Vão chegar os convidados e não têm o que comer! Ela vai cair-me em cima!
Francisco, lembra-te do meu aniversário: a mesa estava farta. Vazia só a cadeira de quem devia ter estado comigo. Dois dias a cozinhar para ninguém aparecer, ninguém lembrar. Agora faço igual. Vou à festa, dou um abraço, mas não sou empregada de ninguém. Se quiser festa, que contrate alguém ou peça à filha.
Francisco andou o resto da semana agitado, telefonou, reclamou, comprou tudo mas, sem saber cozinhar, ficou perdido. Clara logo avisou ao telefone que não estragava as mãos na cozinha.
Chega o sábado, dia do aniversário.
Margarida dormiu até tarde, fez um banho demorado, cuidou do cabelo, vestiu o vestido mais bonito azul-escuro. Estava impecável. Francisco, já na terra de manhã, telefonara cinco vezes pedindo socorro: Magui, vem mais cedo, isto está um caos, mãe grita, a carne não está temperada, as saladas por fazer!. Margarida limitou-se a dizer: Chego às duas, como combinado.
Pediu um táxi confortável. No caminho, comprou um buquê pequeno de crisântemos no florista e uma pequena lembrança numa loja de presentes.
À chegada à quinta, já havia carros por todo o lado. Pela janela, nada de música, só gritos e barulho de tachos.
Dentro de casa, o cenário era absurdo: Amélia, de robe e rolos no cabelo, vermelha de raiva, circulava pela cozinha. Clara, vestida de festa mas de avental, tentava abrir uma lata, furiosa com a manicura. Francisco, salpicado de cinza, tentava fazer lume.
Na sala, os tios e tias sentados, a mesa só com pratos e garrafas de água, todos em silêncio.
Até que enfim! disparou D. Amélia, ao ver Margarida. Toda pomposa! Andamos aqui a morrer de trabalhar e tu esticas-te? Que descaramento, Margarida olha a pouca vergonha!
Boa tarde, Dona Amélia! Parabéns pelo aniversário! Desejo-lhe muitos anos felizes sorriu Margarida, oferecendo o ramo e uma caixinha.
O que é isto? resmungou a sogra, sem sequer olhar para as flores. Vai para a cozinha já! A batata não está cozida, falta tudo! Os convidados estão esfomeados!
Dona Amélia, eu sou convidada, afirmou Margarida, alto e bom som, para que todos ouvissem. Vim festejar consigo. Não venho cozinhar toda penteada. Já tinha dito com antecedência.
Mas mulher, tu não tens vergonha? Aqui à frente de toda a gente?! irrompeu a sogra. Vais humilhar-me assim?
Clara largou a lata: A sério Magui? Parti uma unha por tua culpa! Vê lá se te tocas e vens ajudar!
Clara, estes são os anos da tua mãe, és a filha. É justo que ajudes. Eu sou nora, e para vocês isso é quase estranho, lembram-se bem disso nas decisões importantes Por isso façam como querem.
Margarida entrou na sala e sentou-se.
Boa tarde a todos, disse sorridente aos familiares perplexos. Está um bom dia, só faltam os petiscos. Mas acredito que a aniversariante vai nos surpreender.
Nisto, Francisco entrou, enegrecido de fumo.
O entrecosto queimou, admitiu. Estava ao telefone com a Clara, perdi o lume.
Silêncio pesado na casa. Vinte convidados famintos a olhar para a família. A sogra deixou-se cair na cadeira, mão no peito, agora de genuíno desânimo.
Isto é culpa dela! berrou ela, apontando Margarida. Sabotou de propósito para me envergonhar! Ingrata! Aqueci-te ao colo e é assim?!
Dona Amélia, não humilhei ninguém, apenas retribuí o mesmo. No meu aniversário ignoraram-me. Trataram-me como se não existisse. Hoje vim avisar que também conto. Espreite o meu presente.
A sogra abriu a caixa: era um calendário de parede barato, com gatinhos.
O que é isto?
Um calendário explicou Margarida. Marquei com vermelho todos os aniversários da família. O meu também. Assim para o ano já não dão desculpas. Não é nada de especial, mas é justo. Como o seu presente de banho por dois euros.
Uma tia reprimiu um riso. O tio António soltou uma gargalhada.
O que ela disse está certo, Amélia! Sempre dizes que a tua nora vale ouro, mas esqueceste o aniversário dela? Não está bem!
Cala-te! gritou-lhe a sogra.
A festa ficou arruinada. O que havia na mesa era uns enlatados, fatias frias e um tupperware de salada. O ambiente era pesado, os convidados bebiam vinho meio sem ânimo.
Margarida chamou o táxi.
Francisco, vou embora. Não me sinto confortável. Isto não é ambiente de festa.
Magui, isto vai dar problema sério. Mãe nunca te vai perdoar.
Agora sabes quanto vale o meu trabalho. Nunca deram valor. Agora, sem mim, talvez percebam. Vai para casa quando acabares de limpar a confusão. Faço uma pizza. Bem melhor.
Saiu.
O escândalo durou mês. Amélia ficou ressentida, o desgosto virou-se em raiva. Clara chamou Margarida de egoísta em todos os grupos da família.
Mas, algo mudou. Francisco deixou de pedir desculpa. Depois de ver a mãe desamparada, perdeu o respeito cego. Passou a notar a diferença: entre a organização de Margarida e o caos da casa da mãe.
Um mês depois, Francisco chegou a casa com rosas. Era uma quarta-feira qualquer.
São para ti, disse, sorrindo. E, avisa-te já, disse à mãe que este ano vamos de férias só nós, nada de lavrar a horta na Páscoa. Comprei estadia numa pousada.
Margarida cheirou as flores, riu-se.
E a batata?
Compramos. E não vamos mais comprar amor de família à nossa custa. Tinhas razão, Magui. O respeito tem de ser mútuo.
A sogra e a cunhada ainda fizeram beicinho. Mas, no Dia da Mulher, Margarida recebeu da Clara uma mensagem: Feliz dia, Magui! Que seja leve como a primavera!. E um emoji de tulipa.
Foi uma pequena vitória. Margarida não virou melhor amiga da cunhada, nem a sogra passou a idolatrá-la. Mas perceberam o essencial: acabaram-se os abusos. A porta agora só se abre com respeito mútuo e memória dos dias importantes.
Dizem que o calendário dos gatinhos ficou pendurado bem à vista da cozinha de D. Amélia. E o aniversário de Margarida, este ano, já lá está assinalado a vermelho.
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