Tenho vergonha de te levar à festa, disse Ricardo sem sequer descolar os olhos do telemóvel. Vão estar lá pessoas. Pessoas normais.
Lúcia estava ao pé do frigorífico com um pacote de leite nas mãos. Doze anos de casamento, dois filhos. E agora vinha esta vergonha.
Eu visto o vestido preto. Aquele que tu me compraste, lembras-te?
Não é do vestido que se trata, ele olhou finalmente. É de ti. Estás… largada. O cabelo, a cara… tu estás apagadinha. Vai lá estar o Filipe com a mulher. Ela é estilista. E tu… já sabes.
Então não vou.
Pronto, assim é que fazes bem. Digo que estás com febre. Ninguém diz nada.
Ele foi tomar duche e Lúcia ficou ali, plantada no meio da cozinha. Na sala ao lado, dormiam os filhos. O Afonso tem dez anos, a Matilde oito. A prestação da casa, as contas, as reuniões de pais. Ela diluía-se naquela casa, e o marido agora envergonhava-se dela.
Mas ele passou-se da cabeça? Leonor, a amiga cabeleireira, olhava para Lúcia como se esta tivesse anunciado o fim do mundo.
Tem vergonha de levar a mulher à festa? E ele acha-se quem?
Responsável de armazém. Foi promovido.
E agora a mulher já não serve? Leonor pôs água a ferver, num gesto curto e irritado. Ouve-me. Lembras-te do que fazias antes dos miúdos?
Era professora.
Não falo disso. Tu fazias bijutaria. De missangas. Olha que ainda lá tenho aquele colar com pedra azul. Toda a gente pergunta onde comprei.
Lúcia relembrou. Fazia bijutaria à noite, quando Ricardo ainda olhava para ela com interesse.
Isso foi há uma vida.
Se fizeste uma vez, fazes outra. Leonor aproximou-se. Quando é a bendita festa?
Sábado.
Óptimo. Amanhã vens cá. Eu trato do cabelo e da maquilhagem. Ligamos à Catarina ela tem vestidos. E os acessórios és tu que fazes, está dito.
Leonor, o Ricardo disse…
Olha, que se lixe o que ele disse! Vais à festa. Ele é que vai borrar as cuecas de medo.
A Catarina apareceu com um vestido ameixa, longo, de ombros à mostra. Experiências e alfinetes durante uma hora.
Para esta cor, só acessórios especiais, Catarina rodava à volta dela. Prata não combina. Ouro também não.
Lúcia abriu uma caixa velha. No fundo, embrulhado num pano, estava o conjunto colar e brincos.
Pedra de aventurina azul, feito por ela à mão. Tinham passado oito anos. Era para uma ocasião especial que nunca veio.
Mas isto é uma obra de arte! exclamou Catarina, estupefacta. Foste tu que fizeste?
Fui.
Leonor fez-lhe umas ondas suaves no cabelo. A maquilhagem, discreta mas elegante. Lúcia vestiu o vestido, prendeu os acessórios. As pedras assentaram-lhe no pescoço frias, imponentes.
Vai lá espreitar-te ao espelho! Catarina empurrou-a.
Lúcia aproximou-se. Não viu a mulher que lavava o chão e fazia sopas há doze anos. Viu-se realmente. E lembrou-se de quem era.
Restaurante à beira-rio. A sala recheada de mesas, fatos, vestidos de noite e música. Lúcia entrou tarde, como planeado. Por uns segundos, as conversas silenciaram-se.
Ricardo estava junto ao bar, a rir de uma piada qualquer. Viu-a e congelou. Ela passou sem olhar, sentou-se numa mesa ao fundo. As costas direitas, as mãos repousadas ao colo.
Desculpe, este lugar está ocupado?
Um homem de uns quarenta e cinco anos, fato cinzento, olhos inteligentes.
Está livre.
Sou Miguel. Sócio do Filipe noutro negócio. Tenho padarias. E a senhora é…?
Lúcia. Mulher do responsável do armazém.
Ele olhou primeiro para ela, depois para os acessórios.
Aventurina azul? Isto é feito à mão… A minha mãe coleccionava pedras. Isto não se vê todos os dias.
Fui eu que fiz.
A sério? Miguel inclinou-se, a admirar o trabalho. Isto é de nível. Vende?
Não. Eu sou dona de casa.
Que estranho. Com mãos destas, não devia ficar só em casa.
A noite inteira ele esteve com ela. Conversaram sobre pedras, criatividade, e como as pessoas se esquecem de si próprias no dia-a-dia.
Miguel convidava-a para dançar, trazia espumante, ria-se com ela. Lúcia via o Ricardo olhar de relance, o rosto dele anoitecendo a cada minuto.
Quando saiu, Miguel acompanhou-a até ao carro.
Lúcia, se algum dia voltar aos acessórios… ligue-me, deu-lhe um cartão. Conheço gente que realmente valoriza isto.
Ela pegou no cartão e acenou com a cabeça.
Em casa, Ricardo aguentou menos de cinco minutos.
O que é que tu arranjaste ali? A noite toda com o tal Miguel! Toda a gente a olhar, percebes? Toda a gente viu a minha mulher a pendurar-se num tipo que nem conhece!
Eu não me pendurei. Estive a conversar.
Conversar! Dançaste com ele três vezes! Três! Até o Filipe me perguntou o que se passava. Que vergonha!
Tu tens sempre vergonha, Lúcia descalçou os sapatos, pousando-os ao pé da porta. Vergonha de me levar, vergonha de olharem para mim. Alguma coisa não te faz vergonha?
Cale-te. Achas que vestiste um trapo bonito e és alguém? Não és ninguém. Dona de casa. Andas aqui a viver à minha custa, agora ainda te fazes de princesa.
Antes teria chorado. Tinha ido para o quarto, deitado ao lado da parede. Mas algo dentro dela mudou. Ou encaixou.
Homens inseguros têm medo de mulheres fortes, sussurrou, quase tranquila. Tens complexos, Ricardo. Tens medo que eu descubra o quão pequeno és.
Rua. Vai-te embora daqui.
Vou pedir o divórcio.
Ele não disse nada. Ficou a olhar para ela, perdido finalmente, não zangado, mas desnorteado.
Com dois filhos, onde achas que vais? Não se vive de colares.
Vou conseguir.
Na manhã seguinte, pegou no cartão e ligou para o Miguel.
Miguel não pressionou. Encontravam-se num café, falavam de negócio. Contava-lhe de uma amiga que tinha uma galeria de peças artesanais. Agora as pessoas andam fartas de coisas fabricadas em série, dizia ele.
Tem muito talento, Lúcia. Não é todos os dias que se junta dom e gosto.
Começou a trabalhar de noite. Aventurina, jaspe, cornalina. Colares, pulseiras, brincos. O Miguel levava as peças para a galeria. Ao fim de uma semana, telefonou: venderam tudo. Vinham mais encomendas.
O Ricardo sabe?
Ele nem fala comigo.
E o divórcio?
Já arranjei advogada. Vai avançar.
Miguel ajudou. Sem rodeios, nem heroísmo barato. Deu contactos, ajudou a encontrar casa arrendada. Quando Lúcia fez as malas, Ricardo estava à porta a rir.
Em menos de uma semana estás de volta. De rastos.
Ela fechou a mala e saiu sem responder.
Seis meses passaram-se. Um T2 nos subúrbios, miúdos, trabalho. As encomendas entravam em catadupa. A galeria quis fazer-lhe uma exposição. Lúcia abriu página nas redes sociais, punha lá fotos. Ganhava seguidores.
Miguel aparecia, trazia livros aos miúdos, ia falando. Sem pressão, sem invadir. Só ali.
Mãe, tu gostas dele? perguntou-lhe Matilde um dia.
Gosto.
Nós também. Ele não grita.
Um ano depois, o Miguel pediu-a em casamento. Sem joelho, sem rosas. Só disse, durante o jantar:
Quero que fiquem comigo. Os três.
Lúcia aceitou.
Dois anos depois. Ricardo caminhava sozinho no centro comercial. Depois de ser despedido o Filipe soube do comportamento dele e despediu-o em menos de três meses arranjou trabalho de estafeta. Quarto arrendado, dívidas, solidão.
Foi então que os viu junto à montra de uma ourivesaria.
Lúcia de sobretudo claro, cabelo arranjado, aventurina azul ao pescoço. Miguel de mão dada com ela. O Afonso e a Matilde a rir, a contar histórias.
Ricardo parou, ficou junto à montra, a vê-los entrar para o carro. O Miguel abriu-lhe a porta. Ela sorriu.
Olhou para o reflexo na montra: casaco gasto, cara cinzenta, olhos vazios. Perdera a rainha. E ela aprendeu a reinar longe dele.
E essa foi a sua pior punição: perceber, demasiado tarde, o que tinha
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