Nunca Amei o Meu Marido – Uma Vida Inteira ao Lado de Quem Não Se Ama, ou a História Real de Lídia e o Seu Júlio, de Torres Vedras até à Sibéria, de Amores Frustrados, Famílias, Perdas e o Descobrir do Verdadeiro Sentido da Felicidade a Caminho do Outono da Vida

Eu, ao meu marido, nunca cheguei a amar.
E viveram juntos quanto tempo?
Pois olha, faz as contas Casámos-nos em setenta e um.
Mas como assim, nunca o amaste?
Sentados num banco junto a uma campa do cemitério, conversei, quase sem dar por isso, com uma senhora desconhecida. Tinha ido tratar do túmulo da família; ela fazia o mesmo noutro e, no intervalo, metemos conversa.
Marido? aproximou-se, apontando discretamente para a fotografia no jazigo.
É ele, sim. Faz um ano que partiu Não me habituo, a saudade mói. Venho sempre cá, era mesmo muito chegada a ele puxei o xaile preto até o queixo.
Ficámos calados e, passado um pouco, a senhora suspirou:
Olhe, nunca amei o meu marido.
A minha curiosidade despertou:
E viveram juntos quanto tempo?
Pois… É só fazer as contas: em setenta e um casámos.
Mas como se vive tantos anos com alguém sem amor?
Casei por pirraça. Gostava de um rapaz, mas ele apaixonou-se pela minha amiga. De raiva, pensei: Vou casar-me antes dela! E apareceu o Rui, um rapaz calmo, sempre atrás de mim. Gostava de mim e pronto.
E então?
Olhe, quase fugi do próprio casamento. A aldeia em festa e eu lavada em lágrimas, convencida que ali acabava a minha juventude. Olhava para o Rui e só me apetecia uivar: mirradinho, já com entradas, orelhas de abano. O fato parecia um saco nele. E ainda por cima, sorria, contente, sem tirar os olhos de mim Pensei, foste tu que te meteste nisto.
E depois?
Fomos viver para a casa dos pais dele. Eram tão prestáveis como ele, tratavam-me como uma princesa. Naqueles tempos eu era robusta, olhos de cor de ameixa, cabelos até à cintura, corpo a rebentar as costuras dos vestidos. Toda a gente via que éramos um par estranho. De manhã acordava e até os meus sapatos a mãe do Rui lavava. E eu, arrogante, mandava neles, gritava com a sogra. Era pena de mim, só me lamentava de não o amar. Como havia de correr bem, se eu tinha aquela atitude?
Um dia, o Rui sugere: Vamos para a linha da Beira Alta, juntar uns tostões e ficamos por conta própria. Eu aceitei, só queria era sair dali, cabeça cheia de sonhos.
Na altura, o governo chamava os jovens para lá. Eu sozinha não iria, mas o Rui conseguiu e lá fomos parar primeiro à Guarda, depois ainda mais longe.
Meteram as mulheres num vagão, homens noutro. O Rui ficou sem a merenda, comigo ia a mala da comida e nada de passar entre vagões. Nem dei por ele, fiz logo amizades e a festa pegou, tudo a partilhar o que tinha. Achei que ele se arranjaria por lá. Os bolos que a mãe dele preparou, dividi com as raparigas do comboio.
Na estação, veio ter comigo, à procura de comida. Fiquei envergonhada. Disse-lhe que já nada restava. Ele percebeu e procurou acalmar-me. Ainda bem que comeram, disse, com alegria forçada, no nosso vagão também ninguém passa fome! Eu estou bem. E correu para o vagão dele. Assim o deixei para trás, já nem pensei mais nele.
Quando chegámos, arranjaram-nos alojamento uma camarata de 35 mulheres. Os homens ficavam noutro lado. Disseram que iam dar casas a quem fosse casado, mas para mim era indiferente. Sempre que me via, virava a cara, fingia estar ocupada. Até as outras mulheres me chamavam à atenção: Olha que é teu marido! Ficava à porta à minha espera. E eu, nada.
Decidi-me divorciar. Não tínhamos filhos, mais dois anos a viver assim e amor, nada. De vez em quando dava-lhe a hipótese, mais por pena do que outra coisa.
Foi então que apareceu o Gonçalo, moreno, alto, cabelo ondulado. Por muito trabalho que tivéssemos, ainda havia alegria. Havia cerveja importada, laranjas, fiambre luxos desses tempos. Faziam-se bailes, concertos. Conheci o Gonçalo num desses bailes, apresentaram-nos as colegas. Ele só teve olhos para mim. Apaixonei-me perdidamente.
O Rui insistia, pedia-me que ficasse, mas com o Gonçalo eu estava noutra. A paixão era mais forte. Quero separar-me, disse-lhe.
Ofereceram-nos então um quarto para casal, mas já não fui. O Rui andava sempre por perto. Até quando saía com o Gonçalo, sentia o Rui por trás. Mas não pensava mais nele, estava demasiado envolvida pelo novo amor.
A senhora ouvia-me, olhos colados em mim.
E ele, aguentou tudo isso?
Aguentou à força de muito amor. Mas depois Gonçalo deixou-me. Apaixonou-se por outra, disse que eu é que tinha ficado pendurada nele porque o Rui era fraco. Até me insultou em frente de todos, chamou-me aproveitadora. Fiquei arrasada. Disse a todos que estava grávida e ele caiu-me ainda mais em cima.
O Rui ficou a saber, boa gente nunca falta Já perdido, até quis bater-se com o Gonçalo, coisa que não era dele. Fizeram-no nos arredores. Já eu nem sabia, só me avisaram quando o Rui foi parar ao hospital.
Fui visitá-lo, coração nas mãos, zanguei-me com ele pelo caminho. Que ideias, pôr-se a bater no Gonçalo? Mas o motorista, o Luís, não me disse nada, apenas abanou a cabeça e eu percebi o seu silêncio.
No hospital, vi-o deitado, rosto inchado, todo negro, perna presa. Atirei-lhe:
Mas para quê, homem?
Ele respondeu, devagar:
Por ti, só por ti
E eu só pensava na minha desgraça. Grávida ali, tinha de largar o trabalho mandavam as grávidas para casa. Devia voltar para a aldeia e explicar de quem era a criança? E, no fundo, nem sabia de certeza de quem era o bebé com o Rui também tinha estado!
Mesmo assim, ia ao hospital levar-lhe comida. Mais por dever do que amor.
Quando andava já com canadianas, fui vê-lo, estávamos à janela. Naquela bata de hospital, parecia um velho, murcho da tristeza. Olhava pela janela e disse:
Não te divorcies, vamos juntos para outro sítio, o filho é meu e de mais ninguém.
E eu, em vez de agradecer, respondi:
Para quê, Rui?
Porque te amo.
Olha, faz como quiseres.
Virei-lhe as costas, senti-o olhar para mim, talvez à espera que me voltasse. Mas não olhei para trás, apesar de cá dentro estar aliviada: não precisava voltar à aldeia, ficaríamos juntos.
Mudámo-nos então para Trás-os-Montes. O Rui era calado, mas no trabalho deram logo valor: tinha curso de mecânico e foi nomeado chefe de equipa. Andava de terra em terra, e quando regressava a casa, trazia sempre mimos, doces, fruta, tudo para mim.
A minha mulher está grávida dizia ele, orgulhoso.
Davam-nos então um quarto e um emprego para mim como administrativa.
No hospital, ao ver o menino, logo percebi: era do Gonçalo, moreno. O Rui nem pestanejou, olhou para o bebé e sorriu, até chorou quando nos levou para casa.
O bebé, o Francisco, foi sempre difícil, chorava muito, doente. O Rui também andava acabado. Mas nunca se queixou.
Um ano depois tive a Matilde, filha do Rui, nome de família. Então percebi o quanto magoei os pais do Rui, mas ao menos a mãe tinha ali um consolo.
Nessa altura, pelo Rui, não sentia nada: nem amor nem ódio. Dois filhos pequenos, só pedia ajuda, e ele sempre a prestar-se: lavava, arrumava, e até me deixava descansar. Um dia ia lavar roupa, quase lhe tirei o alguidar das mãos:
Mas o que dirão os outros? O chefe a lavar roupa das mulheres!
A água está gelada, antes tu adoeceres prefiro que digam o que quiserem!
Eu irritava-me, achava-o quase efeminado.
E esse excesso de amor até me incomodava.
O Francisco, com treze anos, já andava nas bocas da polícia. Conheci o inspetor responsável, homem simpático. Ele dava-se com o Francisco como ninguém; o rapaz ignorava o Rui, achava-o fraco. Eu, por vezes, recorria à correia. Se ele roubava nos cafés, que mais podia fazer? O Rui nunca deixava, tirava-me a correia das mãos.
Depois o Rui teve de ir estudar para Lisboa, estávamos já em Coimbra, tínhamos finalmente um bom apartamento. Ele só foi à minha custa:
Se disseres que não, não vou disse-me ele.
Vai respondi eu.
Lá foi ele, de mágoa. E o inspetor logo a tentar que eu me divorciasse, que não amava o Rui. E eu
A senhora ao meu lado limpou folhas da mesa.
E tu?
Fixei o olhar na mesa, os olhos a arder. Doeu-me recordar.
Fui pensando, pensando o Rui enviou uma carta, que ainda guardo. Ninguém o sabe, só eu. Escreveu que percebia ter-me estragado a vida, pois nunca o amei, só suportei. Disse que se eu dissesse não, não voltaria nunca mais. Mas não deixaria os filhos, mandaria metade do ordenado, que tudo ficava ao meu encargo. Desejava-me sorte. Era uma carta bonita, sem mágoa, sem cobranças. Guardou para si toda a dor, deixou-me a liberdade.
No outono, num dia quente, vi as folhas cair sobre o jazigo. Fiquei ali a pensar.
Choras? perguntou-me então a senhora.
Choro, sim A vida quando repensada arranca lágrimas. Conta o fim Ficaste com o inspetor, foste-te embora?
Dormia mal. O Francisco rebelde, eu perdida. Revivia a carta sem fim. Uma colega, já velha, dizia: Ó Mariana, não sabes o que tens. Homens como o Rui deviam ser carregados ao colo.
Uma manhã acordei e caiu-me tudo em cima: mas que faço eu? Um homem vive toda a vida para mim e eu
Veio-me tudo à memória. As vezes em que esteve por mim, a forma como me cuidava. Uma vez estive doente, operação complicada, achei que ali ficava. Ouvi médicos a sussurrar. Passada a operação, deitada numa cama amarela, o Rui sentou-se do meu lado, não arredou pé, contratou uma empregada, trouxe remédios, fez de tudo.
Se não fosse ele, não estaria ali.
Noutra vez, por engano, recebemos em casa uma encomenda alheia o helicóptero do correio atirou tudo ao monte por causa do temporal. Em casa percebemos que não era nossa. O Rui não descansou, levou a caixa até à aldeia vizinha, neve a cair, voltou com o rosto queimado do frio. Adoeceu por isso…
E ali percebi: não precisava de mais ninguém.
Escrever-lhe? Como? Passei anos a dizer-lhe que não valia nada. Como partilhar sentimentos agora?
Sabia que ele ia deixar-me, pensava que eu amava outro.
O outono avançava, os meninos aconchegados, trabalho arrumado, meti-me no comboio para Lisboa. Queria vê-lo. Queria, mais do que nunca, olhar para ele. O comboio parecia nunca mais chegar. Tinha na cabeça o rosto dele, a carequinha, as orelhas, a barriga. Tudo nele já me era querido.
Fui à morada, disseram estar numa aula, mandaram-me para lá. Entrei no metro, só via os olhos dele.
Não me deixaram entrar, esperei nas escadas. Quando ele e os colegas desceram, eu paralisei de emoção. Passaram por mim, nem me viu. Só depois o chamei.
Virou-se, olhou para mim, incrédulo. Ficámos ali, imóveis a olhar um para o outro, folhas a cair à volta. Os amigos nada entendiam. De repente, corremos um para o outro, abraçámo-nos sem palavras.
Os colegas diziam:
Isso é que é amor! Tantos anos juntos e vejam a chegada…
A outra senhora chorava, lenço a acolher lágrimas.
E lá viveram juntos até ao fim, foi?
Ao fim? ri-me, amarga.
Quer dizer… Não é ele que fez sinal para a campa.
Não, não Aqui está o Francisco, o nosso filho. Partiu cedo, nem aos quarenta. Saiu-se mal na vida, chegou a ser preso. Sofremos muito, eu e o Rui. Depois bebeu demais ficou por aqui.
Então o teu homem vive ainda?
Vive, sim benzi-me, graças a Deus! Trouxe-me cá para arrumar tudo e foi tratar de uns assuntos. Ajudamos a nossa filha, vê ali, já vem Perdoe a conversa, estava distraída.
O Rui aproximou-se, homem robusto de idade, de boina de pele, rosto redondo, simpático. Cumprimentou delicado.
Estás cansado, Rui? Correste muito? sacudi-lhe as folhas do ombro.
Ele já juntava as coisas, mas eu não lhe deixei pegar no saco pesado, levei-o eu, preocupada com as dores das costas dele.
Fomos embora, de braços dados pela alameda dourada, entre campas antigas.
Antes da curva, olhei para trás, acenei com a mão. Ele também acenou.
Fiquei, então, a olhar a foto do Rui e pensei que a felicidade não existe por si só; só a encontramos quando a acolhemos no coração. No fim, o segredo é um só amar e ser amado.

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Скъпи, ще ме закараш ли до вкъщи? – След тежък работен ден Жени се надяваше да избегне четиридесет минутното пътуване с автобус. Мили, можеш ли да ме вземеш от работа? – Лайма се обади на мъжа си с надеждата, че след изтощителния ден няма да се налага да се бута четиридесет минути в градския транспорт. – Зает съм – отвърна накратко Тома, а отзад се чуваше шумът на включения телевизор, значи си беше вкъщи. Жената се разстрои до сълзи. Бракът им беше на ръба, а още преди половин година Тома беше готов на всичко за нея. Какво се беше променило? Лайма не разбираше. Полагаше толкова грижи за външния си вид, прекарваше часове във фитнеса. Готвеше прекрасно – неслучайно работеше в един от най-посещаваните ресторанти в София. Никога не искаше пари, не вдигаше скандали и се стараеше да изпълнява всички желания на съпруга си… – Ще му омръзнеш бързо – поклащаше глава майка ѝ, слушайки оплакванията на Лайма. – Не можеш все да му угаждаш. – Просто го обичам – усмихваше се тъжно тя. – И той ме обича… ***** – В края на краищата явно вече съм му омръзнала – Лайма прехапа устни, докато разглеждаше историята в браузъра. Оказа се, че Томас прекарва цялото си свободно време в сайтове за запознанства и общува с няколко жени едновременно. – Не можеше ли просто да поговори с мен? Щях да разбера, да го пусна. Защо да се измъчваме, живеейки без любов и тормозейки се взаимно? Развод, значи. Нищо, ще го преживее, тя е силна. Но няма да го остави без малко отмъщение… Същата вечер Лайма се регистрира в същия сайт като Томас, намери го и му написа. Снимката взе от интернет, малко я промени и беше сигурна, че той ще се хване. И беше права. Започна бурна кореспонденция. В съобщенията си той твърдеше, че не е женен, готов е за сериозна връзка и деца, хвалеше се с идеалния си характер, което развеселяваше Лайма до сълзи, защото отлично знаеше колко капризен е всъщност. – Да се видим – предложи Лайма и затаи дъх. – С удоволствие – отвърна след секунди Томас. – Но сестра ми живее у нас временно, готви се за изпитите след 12 клас, затова да се срещнем на неутрална територия, после можем да отидем в хотел. – Наистина ли? – подхилкваше се Лайма. – Как си толкова сигурен, че всяко момиче ще се нави веднага за хотел? Но това работи в моя полза. – Ами искаш ли да дойдеш в къщата ми извън града? Живея сама, никой няма да ни безпокои… – Чудеше се дали ще приеме офертата. – Страхотна идея! – Томас наистина се зарадва. Най-вероятно защото нямаше да вади пари за хотел. – Дай ми адреса и часа, ще дойда на крилете на любовта. – Улица *** №25, десет вечерта. Става ли? – Разбира се! Очаквай ме. В девет вечерта Томас се престори, че го викат в спешен ред на работа. Не можейки да открие ключовете от колата, неохотно попита жена си дали не ги е виждала. – Бяха на шкафа в хола – отговори Лайма съвсем невинно, стискайки ключовете в джоба си. – Може би котката ги е взела? Но Лайма нямаше никакво намерение да го чака. За какво? Прекара времето в събиране на багажа си. За щастие разполагаше със собствен апартамент, наследство от баба ѝ. Единственото, което остави за Томас, беше молбата за развод – на най-видното място. Томас се прибра чак сутринта, бесен от яд. Към това, че пътят до там отне над час, се добави и разочарованието, че красавицата от снимките изобщо не живееше на този адрес. Адресът си беше истински, къщата също. Но вратата му отвори жена поне три пъти по-голяма от него, по тялото ѝ едва се държеше полупрозрачен халат и Томас би дал всичките си пари, само и само да забрави видяното. С мъка успя да се измъкне! Отново повика такси, чака колата цяла вечност и дори успя да измръзне навън в сакото си. Освен това шофьорът се оказа странен тип и в началото го закара кой знае къде… Истински кошмар! Едва когато влезе вкъщи и видя на масата документите за развод, разбра кой стои зад цялото това приключение. А до тях, с червило върху салфетка, беше изписано: Този сладък отмъщение…