Na Véspera do Ano Novo, fui com a minha mãe ao “Mundo da Criança”… E fiquei apaixonada por um único vestido – vermelho, de malha, com uma barra azul viva em baixo e nas mangas. Tínhamos ido só por umas coisinhas, talvez luzes ou fitas… Mas insisti tanto que pedi à minha mãe para experimentar aquele vestido. E ele assentava-me como se fosse feito para mim! Logo comecei a sonhar: gostava muito de um rapaz da turma e queria mesmo que, na festa da escola, ele me visse com aquele vestido. Estava tão empolgada que mal consegui tirá-lo. Quando a minha mãe percebeu, disse: «Vou receber o salário em breve, vamos levar.» Fui a caminho de casa nas nuvens. Enfeitámos o apartamento, montámos a árvore. No frigorífico, só restava gelo e um pedaço de manteiga. Aguardávamos pelo salário da mãe – naqueles tempos, em Portugal, também se trabalhava no dia 31, mas saía-se mais cedo. Nesse dia, a mãe chegou triste: o ordenado não veio, estava atrasado. Com olhos marejados, sentia-se culpada de não haver banquete. Mas lembro-me bem: eu não fiquei nem um pouco triste. A casa tinha o espírito de festa! Sentei-me diante da televisão e vi os filmes de Ano Novo, que só davam nessa altura – havia poucos canais e pouco para escolher. A mãe fez batatas com manteiga, ralou cenoura com açúcar, era tudo o que havia. Sentámo-nos, e a mãe chorou. Fui consolá-la e acabei também a chorar, não pelo jantar, mas porque me doía vê-la assim. No fim, deitámos-nos juntas no sofá, abraçadas a ver o concerto de Ano Novo. À meia-noite, ouvimos os vizinhos na escada, de copo na mão, todos a festejar, mas nós não saímos. Até que alguém tocou à porta – uma vizinha resmungona, que vivia a ralhar comigo por tudo e por nada. Discutiu com a mãe, entrou na sala, olhou para a mesa vazia e saiu sem uma palavra. Uns 20 minutos depois, começaram a bater na porta com força. A mãe foi abrir. Lá estava a Dona Vitória com sacos – comida de festa, saladas, enchidos, frango, bolos, até champanhe e tangerinas! Mandou a minha mãe ajudar, pôs a festa na mesa, chamou-lhe pateta enquanto enxugava as lágrimas dela com a manga e foi-se embora. Depois do Ano Novo, Dona Vitória voltou a ser a dona do prédio, mandando e ralhando como sempre – nunca mais mencionou aquela noite generosa. Anos depois, no funeral da Dona Vitória, apercebemo-nos de que todos no prédio tinham recebido da “nossa resmungona” uma ajuda num momento importante…

Na véspera do Ano Novo, fui com a minha mãe ao “Mundo dos Miúdos” E fiquei encantada com um vestido. Era vermelho, de malha, com uma barra azul viva em baixo e nas mangas. Fomos lá buscar uma pequena coisa, talvez luzes de Natal, talvez apenas fita prateada. Mas eu insisti tanto para experimentar o vestido, que a minha mãe lá cedeu.

O vestido assentava-me como uma luva, parecia feito para mim. Logo comecei a imaginar coisas na minha cabeça. Gostava mesmo muito de um rapaz da minha turma, e queria demais que ele me visse com o vestido na festa da escola. Fiquei ali, quase a chorar, sem querer despir a peça.

A minha mãe reparou e disse: Olha, vou receber o ordenado em breve. Vamos levá-lo. Vim para casa feliz como nunca. Decorámos o apartamento, pusemos os enfeites e vestimos o pinheirinho. Só que, no frigorífico, restava apenas gelo e um bocadinho de manteiga.

Esperávamos com ansiedade o salário da mãe. Antigamente, em Portugal, também se trabalhava a 31 de dezembro, mas deixavam-nos sair mais cedo. Nesse dia, a minha mãe chegou do trabalho desanimada: não lhe pagaram, atrasaram o ordenado. Tinha lágrimas nos olhos, falava com mágoa, e, acima de tudo, sentia-se envergonhada por me deixar sem ceia de Ano Novo.

Mas, para ser sincera, lembro-me perfeitamente de não ficar triste por isso. Mesmo assim, estava com espírito de festa. Fiquei sentada diante da televisão, a ver com gosto os filmes e programas de Ano Novo, que só nessa altura davam na RTP. E só havia dois canais naquela altura, parece-me.

A mãe cozinhou batatas, deitou-lhes um pouco de manteiga, ralou cenoura e polvilhou com açúcar. Não tínhamos mais nada em casa. Sentámo-nos à mesa juntas e a minha mãe começou a chorar. Fui abraçá-la e nem dei por mim já eu própria estar a chorar, não pela falta de comida, mas porque tive uma pena enorme da minha mãe, de apertar o coração.

No fim, deitámo-nos juntas no sofá, aconchegadas sob o cobertor, a ver o concerto de Ano Novo. E chega a meia-noite. Os vizinhos do prédio saem para o patamar, de copo de espumante na mão, a brindar e dar os parabéns. Cantavam e gritavam. Nós, porém, não saímos.

De repente toca a campainha, insistente. A mãe foi abrir e era a vizinha, a dona Antónia sempre rabugenta comigo por causa de tudo: ou porque não lavei o elevador no meu turno, ou porque fazia barulho a descer as escadas. Era tida pelas crianças como a chata do bairro, aquela que ralhava quando jogávamos à bola na rua.

A dona Antónia parecia já bem servida de espumante. Não ouvi o que falou à minha mãe, mas só vi a sua figura roliça a empurrá-la para entrar. Passou pela sala, olhou para a nossa mesa só com batatas e manteiga, e foi-se embora sem dizer nada.

Passados uns vinte minutos, em vez de campainha, ouvem-se pontapés na porta. Apanhámos um susto. A minha mãe proibiu-me de sair e ela própria foi ver quem era. No instante seguinte aparece a dona Antónia, agora de sacos nas mãos, cheios de caixas, latas, pratos, com uma garrafa de espumante a espreitar por baixo do sovaco. Mandou a minha mãe deixar-se de parvoíces e ajudar, e começou a tirar de dentro dos sacos saladas, enchidos, uma lata de pickles, metade de um frango cozido, rebuçados e até uns quantos tangerinos.

A minha mãe chorou outra vez, mas agora de maneira diferente. A dona Antónia chamou-a de tolinha, limpou-lhe as lágrimas com a manga do casaco, virou costas e saiu.

Depois do Ano Novo, a dona Antónia continuou a mandar no prédio e no bairro. Nunca mais falou naquela noite. Muitos anos depois, quando todo o prédio foi ao funeral dela, descobriram que, afinal, toda a gente no fundo gostava da nossa vizinha rabugenta. Todos, de uma forma ou outra, receberam a sua ajuda quando mais precisaram.

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Na Véspera do Ano Novo, fui com a minha mãe ao “Mundo da Criança”… E fiquei apaixonada por um único vestido – vermelho, de malha, com uma barra azul viva em baixo e nas mangas. Tínhamos ido só por umas coisinhas, talvez luzes ou fitas… Mas insisti tanto que pedi à minha mãe para experimentar aquele vestido. E ele assentava-me como se fosse feito para mim! Logo comecei a sonhar: gostava muito de um rapaz da turma e queria mesmo que, na festa da escola, ele me visse com aquele vestido. Estava tão empolgada que mal consegui tirá-lo. Quando a minha mãe percebeu, disse: «Vou receber o salário em breve, vamos levar.» Fui a caminho de casa nas nuvens. Enfeitámos o apartamento, montámos a árvore. No frigorífico, só restava gelo e um pedaço de manteiga. Aguardávamos pelo salário da mãe – naqueles tempos, em Portugal, também se trabalhava no dia 31, mas saía-se mais cedo. Nesse dia, a mãe chegou triste: o ordenado não veio, estava atrasado. Com olhos marejados, sentia-se culpada de não haver banquete. Mas lembro-me bem: eu não fiquei nem um pouco triste. A casa tinha o espírito de festa! Sentei-me diante da televisão e vi os filmes de Ano Novo, que só davam nessa altura – havia poucos canais e pouco para escolher. A mãe fez batatas com manteiga, ralou cenoura com açúcar, era tudo o que havia. Sentámo-nos, e a mãe chorou. Fui consolá-la e acabei também a chorar, não pelo jantar, mas porque me doía vê-la assim. No fim, deitámos-nos juntas no sofá, abraçadas a ver o concerto de Ano Novo. À meia-noite, ouvimos os vizinhos na escada, de copo na mão, todos a festejar, mas nós não saímos. Até que alguém tocou à porta – uma vizinha resmungona, que vivia a ralhar comigo por tudo e por nada. Discutiu com a mãe, entrou na sala, olhou para a mesa vazia e saiu sem uma palavra. Uns 20 minutos depois, começaram a bater na porta com força. A mãe foi abrir. Lá estava a Dona Vitória com sacos – comida de festa, saladas, enchidos, frango, bolos, até champanhe e tangerinas! Mandou a minha mãe ajudar, pôs a festa na mesa, chamou-lhe pateta enquanto enxugava as lágrimas dela com a manga e foi-se embora. Depois do Ano Novo, Dona Vitória voltou a ser a dona do prédio, mandando e ralhando como sempre – nunca mais mencionou aquela noite generosa. Anos depois, no funeral da Dona Vitória, apercebemo-nos de que todos no prédio tinham recebido da “nossa resmungona” uma ajuda num momento importante…
Vem cá, Tiaguinho… — Senhora, mas nós não temos dinheiro… — murmurou o menino, olhando timidamente para o saco cheio de coisas. Depois do Natal, a cidade parecia mais triste. As luzes ainda pendiam nos postes, mas já não aqueciam ninguém. As pessoas apressavam-se, as lojas estavam quase vazias e em casa sobrava comida demais, num silêncio que pesava. Na grande casa da família Silva, as mesas tinham sido fartas. Como todos os anos. Bolo-rei, assados, saladas, tangerinas. Muito mais do que era preciso. A Dona Silva recolhia os pratos devagar. Olhava para a comida e sentia um nó na garganta. Sabia que parte iria fora. E esse pensamento doía. Por impulso, aproximou-se da janela. Foi aí que o viu. Tiaguinho. Ficava junto ao portão, pequeno e calado, com o gorro enfiado e o casaco fino. Não olhava à força para a casa; parecia esperar… mas sem coragem para bater. O coração apertou-se-lhe. Dias antes do Natal, tinha-o visto pela cidade. Junto às montras, colado aos vidros, olhando a comida bem posta. Não pedia. Não incomodava. Só olhava. Aquele olhar, cheio de fome e resignação, nunca mais a largou. Foi então que entendeu. Largou os pratos e pegou num saco grande. Pôs pão, bolo-rei, carne, fruta, doces. Pegou noutro. E ainda noutro. Tudo o que sobrava das festas. Abriu a porta, devagarinho. — Tiaguinho… vem cá, querido. O menino estremeceu. Aproximou-se, hesitante, passos miúdos. — Leva isso contigo para casa, disse-lhe com ternura, estendendo-lhe os sacos. Tiaguinho ficou petrificado. — Senhora… nós… não temos dinheiro… — Não faz mal, filho. Só quero que comam. As mãos tremiam-lhe ao agarrar os sacos. Apertou-os ao peito como se guardasse algo frágil, algo sagrado. — Obrigado… murmurou, com lágrimas nos olhos. Dona Silva viu-o afastar-se, mais devagar do que veio, como se não quisesse que o momento acabasse. Naquela noite, numa casa pequena, uma mãe chorou de gratidão. Um menino comeu até saciar-se. E uma família sentiu que já não estava sozinha. Na casa grande, as mesas estavam vazias, mas os corações cheios. Porque a verdadeira riqueza não está no que guardas para ti, mas no que escolhes dar quando ninguém te obriga. Talvez o Natal não dure só um dia. Talvez o Natal comece quando abres a porta… e dizes: «vem cá». 💬 Escreve nos comentários «BONDade» e partilha esta história. Por vezes, um pequeno gesto pode mudar uma vida.