“Pai, lembras-te da Dona Esperança Martins? Já é tarde hoje, mas amanhã vem cá a casa. Vou apresentar-te ao meu irmão mais novo… e ao teu filho. Pronto. Até amanhã.” O menino dormia encostado à porta dela. Irina ficou intrigada – porque estaria aquela criança, tão cedo, a dormir à entrada de um prédio estranho? Professora com dez anos de carreira, não conseguiu passar indiferente. Ajoelhou-se e sacudiu-lhe levemente o ombro magro: — Olá, jovem, acorda lá! — Hã? — O miúdo levantou-se desajeitadamente. — Quem és tu? Porque dormes aqui? — Não estava a dormir… O teu tapete é confortável. Sentei-me e acabei por adormecer sem querer — respondeu ele. Irina vivia ali há pouco tempo, desde o divórcio. Conhecia poucos vizinhos, mas percebia bem que o rapaz não era do prédio. Parecia ter uns dez ou onze anos, roupa velhinha mas limpa. Saltitava nervoso, de um lado para o outro. Irina percebeu logo: precisava da casa de banho. — Vai lá rápido, que já estou atrasada para o trabalho — e abriu-lhe a porta. O rapaz olhou-a com uns olhos azul-celeste raríssimos. “Nunca vi olhos assim”, pensou. Enquanto o rapaz lavava as mãos, Irina preparou-lhe uma sandes de fiambre. — Toma, come qualquer coisa. — Obrigado! — e já se punha à porta. — Salvaste-me! Agora posso esperar tranquilo. — Esperar quem? — perguntou Irina. — A avó, Dona Antonieta Pereira. Vive aqui perto, conheces? — Conheço, mas anteontem levou-a o INEM para o hospital. Vi quando a deitavam na ambulância. — Para qual hospital? — estremecendo, perguntou o rapaz. — Ontem era a urgência do São João. Deve estar lá. — Obrigado. E tu, como te chamas? — perguntou finalmente. — Irina Fernandes — respondeu já a correr. No trabalho, entre mil tarefas, o miúdo não saía da cabeça de Irina. “Deve ser o tal instinto materno a latejar”, pensou. Não tinha filhos, por isso o casamento acabou. O ex-marido seguiu com outra, que lhe deu uma filha. Na hora do almoço, confirmou com o hospital: a vizinha teve um AVC pesado. Ia demorar a recuperar. Ao regressar, lá estava o rapaz, sentado à janela da escada. — Estava à tua espera! Não me deixaram visitar a avó. Disseram que ainda vai demorar. Irina perguntou-lhe o nome: Chamava-se Frederico — e fez questão: Frederico, não Fred. Limpinho e alimentado, chegou a hora do “interrogatório”: — Fugiste de casa? Os teus pais devem andar loucos. — Não tenho pais. Vivo com uma “tia”, mas ela não é mesmo família. — Então é a “tia” que anda louca? — Nem por isso. Eu disse-lhe que vinha visitar a avó. Ela nem sabe que a avó está no hospital. Não quero voltar para casa — mesmo que a tia seja boa pessoa. O marido dela bebe e fica agressivo. Eles já têm quatro filhos e mais um a caminho. Ameaçaram pôr-me num lar, mas não quero ir. Espero que não atrapalhe… — Como se chamava a tua mãe? — Esperança Martins. Era boa, bonita, trabalhava de secretária num diretor duma fábrica, não lembro o nome. — E o teu pai? — Nunca tive pai — respondeu, de olhos baixos. Irina compreendeu nesse instante por que razão aquele olhar azul doía tanto: só conhecera olhos assim numa única pessoa. O próprio pai. Ele tinha sido… diretor de fábrica. Em minutos, Irina fez ligação: “Uma relação entre o diretor e a secretária? E terá sabido que ela ficou grávida e desapareceu depois?” Ela? Deu ao filho o nome do pai, por amor? Irina, filha única, sempre sonhara com um irmão. Agora estava ali, diante dela. Mandou Frederico comprar pão para ganhar tempo e ligou ao pai: — Pai, lembras-te da Dona Esperança Martins? Hoje é tarde, mas amanhã vem cá. Quero apresentar-te ao meu irmão mais novo… ao teu filho. Até amanhã. — Preparei-te o sofá na sala. Vai tomar banho e dorme — disse ao rapaz. Não fazia ideia do que viria a seguir, mas sabia que não iria largar o irmão, nem deixá-lo para os “parentes” ou, pior, para uma casa de acolhimento. O pai chegou bem cedo. Sempre elegante, cheiroso, pareceu incrédulo: — Que história é essa do “irmão”? Fiquei a noite em claro. Irina contou tudo enquanto tomavam pequeno-almoço. — É estranho, sim… Esperança foi a minha secretária. Jovem, linda, apaixonada… Cedi. Devo confessar… Homens fiéis são raros, filha. Mas nunca ia largar a tua mãe. Um dia, Esperança perguntou se não queria um filho. Disse-lhe — já tenho uma filha, um filho agora não faz sentido. Depois, foi tratar da mãe doente à terra, ficou um ano, voltou “renovada” e disse-me que tinha casado e tido um filho. O marido era ótimo. Por escrito continuava a Martins, claro. Na altura não liguei. Quando adoeceu faz uns anos, despediu-se da vida. Eu soube quando assinei por apoio financeiro. Mas, filha, dás muita importância a isto do “irmão”. Ela dissera que tinha marido! O miúdo apareceu na cozinha. Quando pai e filho se olharam, foi óbvia a parecença. Até tinham o mesmo nome, que saía da boca do rapaz com deferência: “Sou o Frederico Martins”. Ao ficarem a sós, Irina disse: — Pai, ela nunca casou. Inventou o marido para não te pesar a consciência e esconder a gravidez de ti. Pergunta na contabilidade em que altura ela tirou longa licença. Frederico garante que nunca teve pai. — Mas… ela não tinha irmãos nem irmãs! — estranhou o pai. Frederico ouviu e explicou: “A ‘tia’ é parente distante, não de sangue. Cuidou de mim quando a minha mãe morreu. Recebem um subsídio, mas não me querem.” A fotografia do diretor estava guardada num álbum. Só não sabia que não era um “ator”, mas o seu pai. Irina acabou por enviar Frederico a um cinema próximo. Voltou a falar com o pai: — Ainda duvidas? — perguntou. — Acho que não… mas iremos fazer testes de ADN. Pela lei, tenho de provar que é meu filho. Seguiram-se as naturais crises, lágrimas e ataques da esposa do pai, mas acabaram por aceitar a realidade. A senhora não quis criar Frederico, mas em visitas recebia-o com simpatia. O pai de Frederico e Irina tornaram-se uma presença constante. O rapaz ficou a viver com Irina. Adotaram um gatinho, Murcho, que o pai não podia ter porque a esposa era alérgica. Finalmente, ficou estabelecida legalmente a paternidade. Frederico recebeu o novo cartão de cidadão. — Agora és legalmente meu filho. Antes não sabia que te tinha, mas agora nunca mais estás sozinho. Tens apoio e proteção — és meu filho. Tens a Irina, tua irmã. — Eu percebi logo que eras meu pai, quando te vi — sorriu Frederico. O pai abraçou-o. — As crianças veem tudo, não é? — sorriu o homem, limpando uma lágrima. Frederico ficou com Irina, recebe visitas do pai e da madrasta. Irina e o irmão vivem felizes… Juntos adoptaram Murcho, o gatinho mais franzino. O pai de Frederico mandou erguer um mármore branco na campa da mãe. Vão lá muitas vezes. Certa vez, junto ao túmulo, Frederico disse ao pai: — Sabes, a mãe disse-me antes de partir que não era para chorar, que ia passar para outro mundo, de onde ia cuidar de mim, ajudar-me sempre que pudesse. Agora percebo que foi ela que fez com que te encontrasse… e depois tu — e sorriu. — Claro que acredito, filho — respondeu o pai, abraçando-o.

Pai, lembras-te da Esperança Alexandra Martins? Já é tarde hoje, mas amanhã vem cá a casa. Quero apresentar-te o meu irmão mais novo, que é também teu filho. Pronto. Até amanhã.

O rapaz dormia mesmo ao lado da porta dela. Catarina ficou intrigada porque estaria uma criança a dormir num prédio alheio àquela hora tão cedo? Professora há mais de dez anos, não conseguia simplesmente fingir que não via. Inclinou-se suavemente sobre ele, sacudindo-lhe o ombro magro:

Olá, jovem, acorda lá!

O quê? o rapaz ergueu-se, algo atrapalhado.

Quem és? Por que estás aqui a dormir?

Não estou a dormir O tapete é só tão macio Sentei-me aqui, mas adormeci sem querer disse ele.

Catarina morava naquele prédio há apenas seis meses. Tinha comprado o apartamento depois do divórcio. Pouco conhecia os vizinhos, mas percebeu logo que aquele miúdo não era dali.

O rapaz teria uns dez, talvez onze anos. Vestia uma roupa velha, mas limpa. Debruçava-se de um pé para o outro, inquieto.

Catarina percebeu logo que ele precisava de ir à casa de banho:
Vai lá, mas despacha-te. Estou quase a atrasar-me para o trabalho disse, deixando-o entrar.

Ele olhou para ela de soslaio com uns olhos azul-claros de uma beleza singular.

«Cor de olhos tão raro», pensou Catarina. Enquanto o rapaz lavava as mãos na casa de banho, ela preparou-lhe uma sandes de fiambre.

Toma lá, para o lanche.

Obrigado! já se colocava à porta. Salvou-me. Assim posso esperar tranquilo.

Esperar quem? perguntou Catarina.

Dona Antonieta Pereira, minha avó. Mora aqui ao lado, não sabe?

Conheço-a por vista, mas anteontem a levaram de ambulância, para o hospital. Estava a chegar do trabalho quando a vi saírem com ela.

Que hospital foi? perguntou o rapaz, preocupado.

Ontem estava de serviço o Santa Maria. Deve ter ido para lá.

Percebo. Como se chama a senhora? o rapaz decidiu-se, finalmente, a saber o nome da sua salvadora.

Catarina Silveira respondeu ela, já a correr para o emprego.

Durante o dia, Catarina mergulhou numa avalanche de problemas escolares, mas não conseguia afastar o rapaz dos pensamentos.

«Se calhar, é o meu instinto maternal a falar mais alto», pensou com tristeza. Não tinha filhos, razão do divórcio. A separação foi pacífica: ele foi viver com outra, com quem teve uma filha.

No intervalo maior, Catarina telefonou para o hospital. Diagnosticaram à vizinha um AVC o prognóstico era reservado, já tinha 78 anos.

Depois do trabalho, voltou a encontrar o rapaz no prédio. Sentado no parapeito da janela, aguardava-a.

Estava à sua espera disse, aliviado. Não me deixaram ver a avó. Vai demorar a sair.

Catarina perguntou o nome dele.
Chamava-se Gaspar. Disse logo, sério, que era Gaspar, não Gasparzinho.

Com Gaspar já lavado e alimentado, Catarina não se conteve:

Fugiste de casa? Os teus pais devem estar doidos à tua procura

Não tenho pais. Vivo com a minha tia.

Então a tua tia deve estar preocupada, não?

Não Disse-lhe que vinha ver a avó, ela nem sabia que a avó está no hospital. Também não me apetece lá voltar, mesmo sendo boa pessoa e pouco bebe. Mas o marido dela Bebe todos os dias e fica agressivo. Têm quatro filhos, vai nascer outro, e agora estou eu também.

Dizem que me vão entregar ao abrigo, mas eu não quero. Estou a incomodar muito? A minha mãe dizia que era hiperativo, igual ao meu pai. E tenho estes olhos claros, iguais aos dele. A mãe morreu há dois anos

Como se chamava a tua mãe?

Esperança Alexandra Martins. Era bondosa, linda. Era secretária do diretor de uma grande fábrica química. Não me lembro do nome.

E o teu pai? perguntou Catarina, desconfiada.

Pai nunca tive respondeu o Gaspar, cabisbaixo. Nunca tive pai.

Com um aperto no peito, Catarina percebeu porque aquela estranha coincidência com o rapaz de olhos tão azuis a tinha perturbado tanto. Os olhos! Só conhecia outra pessoa assim: o seu próprio pai.

E o seu pai fora diretor de fábrica!

Faltou-lhe o ar: um caso entre diretor e secretária Que lugar-comum! Será que ele soube que a secretária teve um filho dele? Notou sequer o seu desaparecimento?

E ela? Terá amado ao ponto de dar o nome dele ao filho? Gaspar

Catarina era filha única, mas cresceu a desejar um irmão ou irmã.

Vai ali, ao supermercado e traz pão. É mesmo ali em frente e mandou Gaspar à rua.

Aproveitou para ligar ao pai:

Pai, lembras-te da Esperança Alexandra Martins? Hoje já é tarde, amanhã vem cá. Quero apresentar-te o meu irmão mais novo, que também é teu filho. Amanhã falamos, até logo disse e desligou.

Preparei-te a cama no sofá da sala. Vai tomar banho e deita-te disse ao Gaspar, que voltava.

Não sabia o que esperava do futuro. Mas sabia que não deixaria o irmão entregue a familiares problemáticos, muito menos a um lar!

O pai chegou cedo. Geralmente Catarina dormia até tarde ao fim-de-semana, mas naquela noite nem pregou olho.

Amava o pai. Ele esteve sempre lá, acompanhando cada dificuldade, ao contrário da mãe.

Desde pequena era o seu herói, sempre a apoiar todas as decisões. Ele aprovou o curso de ensino, quando a mãe dizia que só medíocres e fracassados seguiam essa via. A mãe não se achava medíocre, apesar de vinda de aldeia. E foi o pai que abençoou o casamento apaixonado e depois limpou-lhe as lágrimas do divórcio.

O pai chegou, impecável como sempre, calças vincadas, sapatos brilhantes, perfume delicado de homem bem-sucedido.

Então, filha, que invenção é essa? Disseste que encontraste um irmão? Nem dormi, fiquei inquieto toda a noite disse ele, ainda à entrada.

Fala baixo, ele ainda dorme murmurou Catarina, guiando o pai à cozinha. Vem tomar o pequeno-almoço, deves estar com fome.

Durante o pequeno-almoço pôs-no ao corrente de tudo.

Que coisa estranha! respondeu o pai. Sim, tive a Esperança Martins como secretária inteligente, jovem, bonita. Tinha um olhar apaixonado. Não resiste sou homem, há tentações para todos. Devo confessar, cedi. Mas nunca pensei deixar a tua mãe, nem por um instante.

Um dia, a Esperança perguntou-me se não gostava de ter um filho. Disse-lhe que já tinha uma filha e para um filho era tarde.

Depois, a mãe dela ficou doente. Pediu licença para ir cuidar dela à aldeia, e lá foi. Entrou outra temporária para o lugar. A Esperança voltou quase um ano depois, renovada, linda como nunca.

Brinquei, perguntei se tinha casado. Ela disse que sim, teve um rapaz, o marido era boa pessoa, alugavam casa. O apelido ficou Martins.

Hoje vivem todos em união de facto Depois, só tivemos relação profissional, cada um no seu caminho.

Há três anos ela ficou muito doente. Morreu de repente. Soube quando assinei o despacho da ajuda de funeral.

Tenho pena, era tão jovenzinha Mas, filha, ela disse que tinha marido Não faças filmes concluiu o pai.

Nisto, Gaspar acordou. Educadamente espreitou à cozinha e cumprimentou. O pai de Catarina empalideceu. Agora, frente a frente, a semelhança era flagrante.

Vamos apresentar-nos! disse o pai, quase trémulo. Fernando Martins.

Gaspar Fernandes Martins, respondeu o rapaz, colocando a mão na mão do homem.

Olharam-se ambos, de sobrancelha erguida, o choque mudo no rosto.

Hoje só tenho Fernandos em casa sorriu Catarina, emocionada.

Gaspar foi lavar-se, enquanto Fernando olhava para a filha, incrédulo.

Não percebo. É a minha cara quando era miúdo. A Esperança não tinha marido?

Inventou esse casamento, foi para a aldeia para te esconder o filho explicou Catarina. Pergunta na contabilidade quando é que ela tirou licença de parto?

Gaspar diz que nunca teve pai. Percebes? Nunca

Mas há outro detalhe: a Esperança não tinha irmãos. Nem tias diretas. Era filha única. De onde surgiram a tia e a avó? o pai pensou alto.

Gaspar apareceu na ombreira da porta, ouvira parte da conversa:

Estão a falar da minha mãe? A tia Vera não é irmã dela, somos só parentes distantes. Vieram para a cidade quando a minha mãe adoeceu. A avó Antonieta é mãe da tia Vera. Quando a minha mãe partiu, a tia Vera levou-me com eles.

E para onde iria eu? Tínhamos de sair do apartamento arrendado. Eles ainda recebem algum dinheiro por mim. O tio passa a vida a reclamar que é pouco.

Mas eu lembro-me de si, Sr. Fernando Martins! A sua fotografia estava na cómoda da minha mãe. Agora está no álbum. Achava que era um ator de quem ela gostava. Perguntei, mas ela prometeu-me contar tudo quando fosse maior.

Catarina preparou-lhe o pequeno-almoço e enviou-o à matiné do cinema. Ficava ali perto.

E então, pai? Ainda tens dúvidas? perguntou Catarina.

Nenhuma mas teremos de fazer o teste de ADN. Só assim a justiça aceitará. respondeu.

Seguiram-se dramas, simulações de doença e ameaças de ataque cardíaco por parte de Laura Isabel, mulher de Fernando.

Logo se recompôs, rumando sozinha ao Algarve. Só mais tarde decidiu olhar para Gaspar.

Gostou dele, mas não o quis acolher. Visitas sim, criar não! Saúde já não aguenta, dizia.

Tenho uma empregada, mas não é educadora! reclamou.

Ninguém insistiu. Fernando, ao contrário, passava largas horas com Gaspar, deliciava-se a encontrar semelhanças: não suportavam papa de sêmola, mas adoravam gatos.

Porém, Laura Isabel tinha alergia a gatos, e Gaspar nunca teve uma casa onde pudesse ter um animal.

Até o ligeiro cecear na fala era igual. Para não falar das feições, tão idênticas.

Por fim, formalizaram a paternidade demorou meses. O pai veio até Catarina, chamou Gaspar e falou:

A partir de hoje, és por lei meu filho. Toma aqui o teu novo cartão de cidadão. Sempre o foste, só não sabia que existias. Se puderes, perdoa-me!

Não te obrigo a chamar-me pai, chama-me como quiseres. Só quero que saibas: nunca mais estás sozinho no mundo. Tens-me a mim, que sou teu pai, e à Catarina, tua irmã.

Eu percebi logo, pai Quando te vi pela primeira vez sorriu Gaspar.

Os miúdos hoje são uns génios o pai sorriu, abraçando o filho.

Catarina viu brilhar lágrimas nos olhos do pai, mas ele recompôs-se logo. Gaspar ficou a viver com ela. Visitava Laura Isabel de vez em quando, e o pai vinha todos os dias. Até que, com Catarina, foi buscar um gatinho

Um avô distribuía gatos à porta do supermercado Gaspar escolheu o mais pequenino. Chamaram-lhe Pipoca. Naquele momento, Gaspar sentiu-se o rapaz mais feliz do mundo!

PS:
Fernando Martins mandou erguer uma lápide de mármore branco em memória de Esperança.

Ele e Gaspar vão regularmente ao cemitério, levam flores.

Um dia, pondo flores frescas, Gaspar disse:

Sabes, pai, no dia antes de partir, a mãe disse-me para não chorar muito Que não desaparecia de todo. Só ia para outro mundo, de onde olharia por mim.

Disse que até lá iria tentar ajudar-me em tudo. E eu agora percebo Foi ela que fez com que a Catarina me encontrasse, e depois tu também! Acreditas em mim, pai?

Claro que acredito respondeu Fernando, sem hesitar.

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“Pai, lembras-te da Dona Esperança Martins? Já é tarde hoje, mas amanhã vem cá a casa. Vou apresentar-te ao meu irmão mais novo… e ao teu filho. Pronto. Até amanhã.” O menino dormia encostado à porta dela. Irina ficou intrigada – porque estaria aquela criança, tão cedo, a dormir à entrada de um prédio estranho? Professora com dez anos de carreira, não conseguiu passar indiferente. Ajoelhou-se e sacudiu-lhe levemente o ombro magro: — Olá, jovem, acorda lá! — Hã? — O miúdo levantou-se desajeitadamente. — Quem és tu? Porque dormes aqui? — Não estava a dormir… O teu tapete é confortável. Sentei-me e acabei por adormecer sem querer — respondeu ele. Irina vivia ali há pouco tempo, desde o divórcio. Conhecia poucos vizinhos, mas percebia bem que o rapaz não era do prédio. Parecia ter uns dez ou onze anos, roupa velhinha mas limpa. Saltitava nervoso, de um lado para o outro. Irina percebeu logo: precisava da casa de banho. — Vai lá rápido, que já estou atrasada para o trabalho — e abriu-lhe a porta. O rapaz olhou-a com uns olhos azul-celeste raríssimos. “Nunca vi olhos assim”, pensou. Enquanto o rapaz lavava as mãos, Irina preparou-lhe uma sandes de fiambre. — Toma, come qualquer coisa. — Obrigado! — e já se punha à porta. — Salvaste-me! Agora posso esperar tranquilo. — Esperar quem? — perguntou Irina. — A avó, Dona Antonieta Pereira. Vive aqui perto, conheces? — Conheço, mas anteontem levou-a o INEM para o hospital. Vi quando a deitavam na ambulância. — Para qual hospital? — estremecendo, perguntou o rapaz. — Ontem era a urgência do São João. Deve estar lá. — Obrigado. E tu, como te chamas? — perguntou finalmente. — Irina Fernandes — respondeu já a correr. No trabalho, entre mil tarefas, o miúdo não saía da cabeça de Irina. “Deve ser o tal instinto materno a latejar”, pensou. Não tinha filhos, por isso o casamento acabou. O ex-marido seguiu com outra, que lhe deu uma filha. Na hora do almoço, confirmou com o hospital: a vizinha teve um AVC pesado. Ia demorar a recuperar. Ao regressar, lá estava o rapaz, sentado à janela da escada. — Estava à tua espera! Não me deixaram visitar a avó. Disseram que ainda vai demorar. Irina perguntou-lhe o nome: Chamava-se Frederico — e fez questão: Frederico, não Fred. Limpinho e alimentado, chegou a hora do “interrogatório”: — Fugiste de casa? Os teus pais devem andar loucos. — Não tenho pais. Vivo com uma “tia”, mas ela não é mesmo família. — Então é a “tia” que anda louca? — Nem por isso. Eu disse-lhe que vinha visitar a avó. Ela nem sabe que a avó está no hospital. Não quero voltar para casa — mesmo que a tia seja boa pessoa. O marido dela bebe e fica agressivo. Eles já têm quatro filhos e mais um a caminho. Ameaçaram pôr-me num lar, mas não quero ir. Espero que não atrapalhe… — Como se chamava a tua mãe? — Esperança Martins. Era boa, bonita, trabalhava de secretária num diretor duma fábrica, não lembro o nome. — E o teu pai? — Nunca tive pai — respondeu, de olhos baixos. Irina compreendeu nesse instante por que razão aquele olhar azul doía tanto: só conhecera olhos assim numa única pessoa. O próprio pai. Ele tinha sido… diretor de fábrica. Em minutos, Irina fez ligação: “Uma relação entre o diretor e a secretária? E terá sabido que ela ficou grávida e desapareceu depois?” Ela? Deu ao filho o nome do pai, por amor? Irina, filha única, sempre sonhara com um irmão. Agora estava ali, diante dela. Mandou Frederico comprar pão para ganhar tempo e ligou ao pai: — Pai, lembras-te da Dona Esperança Martins? Hoje é tarde, mas amanhã vem cá. Quero apresentar-te ao meu irmão mais novo… ao teu filho. Até amanhã. — Preparei-te o sofá na sala. Vai tomar banho e dorme — disse ao rapaz. Não fazia ideia do que viria a seguir, mas sabia que não iria largar o irmão, nem deixá-lo para os “parentes” ou, pior, para uma casa de acolhimento. O pai chegou bem cedo. Sempre elegante, cheiroso, pareceu incrédulo: — Que história é essa do “irmão”? Fiquei a noite em claro. Irina contou tudo enquanto tomavam pequeno-almoço. — É estranho, sim… Esperança foi a minha secretária. Jovem, linda, apaixonada… Cedi. Devo confessar… Homens fiéis são raros, filha. Mas nunca ia largar a tua mãe. Um dia, Esperança perguntou se não queria um filho. Disse-lhe — já tenho uma filha, um filho agora não faz sentido. Depois, foi tratar da mãe doente à terra, ficou um ano, voltou “renovada” e disse-me que tinha casado e tido um filho. O marido era ótimo. Por escrito continuava a Martins, claro. Na altura não liguei. Quando adoeceu faz uns anos, despediu-se da vida. Eu soube quando assinei por apoio financeiro. Mas, filha, dás muita importância a isto do “irmão”. Ela dissera que tinha marido! O miúdo apareceu na cozinha. Quando pai e filho se olharam, foi óbvia a parecença. Até tinham o mesmo nome, que saía da boca do rapaz com deferência: “Sou o Frederico Martins”. Ao ficarem a sós, Irina disse: — Pai, ela nunca casou. Inventou o marido para não te pesar a consciência e esconder a gravidez de ti. Pergunta na contabilidade em que altura ela tirou longa licença. Frederico garante que nunca teve pai. — Mas… ela não tinha irmãos nem irmãs! — estranhou o pai. Frederico ouviu e explicou: “A ‘tia’ é parente distante, não de sangue. Cuidou de mim quando a minha mãe morreu. Recebem um subsídio, mas não me querem.” A fotografia do diretor estava guardada num álbum. Só não sabia que não era um “ator”, mas o seu pai. Irina acabou por enviar Frederico a um cinema próximo. Voltou a falar com o pai: — Ainda duvidas? — perguntou. — Acho que não… mas iremos fazer testes de ADN. Pela lei, tenho de provar que é meu filho. Seguiram-se as naturais crises, lágrimas e ataques da esposa do pai, mas acabaram por aceitar a realidade. A senhora não quis criar Frederico, mas em visitas recebia-o com simpatia. O pai de Frederico e Irina tornaram-se uma presença constante. O rapaz ficou a viver com Irina. Adotaram um gatinho, Murcho, que o pai não podia ter porque a esposa era alérgica. Finalmente, ficou estabelecida legalmente a paternidade. Frederico recebeu o novo cartão de cidadão. — Agora és legalmente meu filho. Antes não sabia que te tinha, mas agora nunca mais estás sozinho. Tens apoio e proteção — és meu filho. Tens a Irina, tua irmã. — Eu percebi logo que eras meu pai, quando te vi — sorriu Frederico. O pai abraçou-o. — As crianças veem tudo, não é? — sorriu o homem, limpando uma lágrima. Frederico ficou com Irina, recebe visitas do pai e da madrasta. Irina e o irmão vivem felizes… Juntos adoptaram Murcho, o gatinho mais franzino. O pai de Frederico mandou erguer um mármore branco na campa da mãe. Vão lá muitas vezes. Certa vez, junto ao túmulo, Frederico disse ao pai: — Sabes, a mãe disse-me antes de partir que não era para chorar, que ia passar para outro mundo, de onde ia cuidar de mim, ajudar-me sempre que pudesse. Agora percebo que foi ela que fez com que te encontrasse… e depois tu — e sorriu. — Claro que acredito, filho — respondeu o pai, abraçando-o.
O Sabor da Liberdade – Terminei as obras cá em casa no outono passado – começou Vera Ignátia, sorrindo. Passámos meses a escolher papéis de parede, a discutir o tom dos azulejos da casa de banho e a recordar, com carinho, como há vinte anos sonhávamos com este nosso T3. – Pronto, agora está tudo, – disse o marido, radiante na celebração do fim das obras – até já podemos casar o nosso Manel! Ele traz cá a mulher, os filhos vêm a caminho, e a casa finalmente transforma-se num lar animado e cheio de vida. Mas os sonhos não se realizaram. A nossa filha mais velha, Catarina, voltou para casa com duas malas e dois filhos. – Mãe, não tenho para onde ir – disse, anulando todos os nossos planos. Demos o quarto do Manel aos netos. Ele não se queixou, só encolheu os ombros: – Não faz mal, logo terei o meu. “O meu” era o apartamento da minha mãe, onde também se fez reforma há pouco tempo e que alugávamos a uma jovem família. Cada mês entrava uma modesta, mas preciosa, mesada – aquele “pé-de-meia” para quando eu e o meu marido já não pudermos cuidar um do outro. Um dia vi o Manel com a namorada, Leonor, de mãos dadas, de olhos no céu, a falar sobre aquela casa. Percebi logo as intenções, mas deixei correr. Até que um dia ouvi: – Dona Vera, o Manel pediu-me em casamento! Já encontramos o salão! Imagine: há uma carruagem verdadeira! E uma harpa! E um terraço de verão! Os convidados vão poder passear no jardim… – E depois, onde vão viver? – não resisti, – tal casamento deve custar um balúrdio! Leonor olhou para mim, como se eu tivesse perguntado pelo tempo em Marte. – Ficamos cá por uns tempos. Depois… logo vemos. https://clck.ru/3RKgHm – Aqui, – disse eu devagar –, já mora a Catarina com os filhos… Fica um hostel, não uma casa. Leonor fez beicinho. – Pois. Aqui não vale a pena. Vamos mesmo a um verdadeiro hostel. Pelo menos aí, ninguém se mete na nossa vida. Aquela frase tocou-me. Alguma vez me meti? Só queria evitar asneiras… Depois ainda tentei falar com o Manel: – Filho, para quê essa extravagância? Casem-se no civil, usem o dinheiro no sinal de uma casa! – A voz falhou-me… O Manel olhou pela janela, rosto fechado. – Mãe, então porque celebram vocês o aniversário de casamento sempre no “Dragão Dourado”? Podiam ficar em casa, ficava mais barato. Calou-me. Sorriu, malicioso: – Vocês têm a vossa tradição. Nós queremos a nossa. Comparou o nosso jantar de família, de cinco em cinco anos, à festa deles, meio milhão de euros! No olhar do Manel vi julgamento. Chamou-nos hipócritas. Esqueceu que ainda pagamos a prestação da carro dele. Nem sonha com o nosso “pé-de-meia”. E agora quer casamento, e dos caros! No fim, ele e a Leonor ficaram magoados. Principalmente porque não cedi a chave do apartamento da avó. *** Certa noite voltava a casa num autocarro quase vazio e vi uma mulher cansada refletida no vidro, com medo nos olhos. De repente, percebi: tudo o que faço é por… medo! Medo de ser peso morto. Medo de ser abandonada pelos filhos. Medo do futuro. Não nego o apartamento ao Manel por mesquinhice, mas por medo de não me sobrar nada. Obrigo-o a desenrascar-se, pago-lhe a vida por receio que falhe e fique desiludido. Quero que cresça, mas trato-o como a criança que não entende nada. Só querem começar a vida com pompa. Carruagem e harpa. É fútil, sim, mas têm direito. Se for com dinheiro deles! Primeiro, falei com os inquilinos – pedi que procurassem casa rapidamente. Um mês depois liguei ao Manel: – Venham cá. Vamos conversar. Chegaram desconfiados, prontos para discussão. Eu servi chá e… pus as chaves da casa da avó em cima da mesa. https://clck.ru/3RKg9f – Levem. Não façam festa: não é presente. Fica à vossa disposição por um ano. Nesse tempo, decidam: ou pedem empréstimo, ou ficam, mas noutras condições. O valor das rendas perco, mas pronto. É uma aposta. Não na vossa boda. No vosso futuro como família, não como vizinhos do refeitório. Leonor arregalou os olhos. O Manel olhou as chaves, sem saber o que fazer. – Mãe… e a Catarina? – Também há surpresa para ela. Vocês já são adultos. Agora a vida é vossa responsabilidade. Não somos o vosso colchão nem a vossa carteira. Só pais. Amamos, mas não salvamos. O silêncio foi ensurdecedor. – E o casamento? – perguntou Leonor, pela primeira vez incerta. – Casamento? – encolhi os ombros –, não sei. Façam como quiserem. Se arranjarem dinheiro para uma harpa, tenham harpa. *** O Manel e a Leonor foram-se embora, e eu fiquei com medo. Medo de que não resultasse, de que nunca me perdoassem. Mas pela primeira vez em anos respirei fundo. Porque finalmente disse “não”! Não a eles. Aos meus próprios receios. E deixei o meu filho partir para a vida adulta, livre, difícil e independente. Seja como for… *** Agora o olhar do Manel. Sonhávamos com um casamento de sonho. Mas a separação da minha irmã deitou tudo por terra. Quando a mãe disse que gastar num casamento de luxo era absurdo, senti-me derrotado. – Então porque vão sempre ao restaurante no aniversário de casamento? – disse, a magoar. – Ficavam em casa, era mais barato! Ela empalideceu. Era essa a intenção. Fiquei magoado. Sim, ofereceram-me um carro. Mas eu nunca pedi nada! Agora lançam-me à cara a prestação. Não pedi! Fizeram, agora aguentem. Fizeram obras no apartamento, diziam que era para nós. Mas afinal já não podemos lá viver. O apartamento da avó… é um “bem sagrado”, mais valioso que o casamento do filho! E agora? Como mostrar ao mundo – e a nós próprios – que somos uma família? Leonor, envergonhada, disse: – Manel, não te posso dar nada. Os meus pais não podem ajudar. Têm empréstimo. – Tu dás-me a ti – respondi, tentando confortá-la. No fundo, irritado. Não com ela. Com a injustiça. Porque é tudo à custa dos meus pais? Porque ajudam com má cara, como se cada euro lhes tirasse anos de vida? Esse tipo de ajuda sabe a culpa, não aquece o coração. Nunca conversámos abertamente com os pais: “Mãe, pai, percebemos o vosso medo. Como avançar unidos sem vos despedaçar?” Não. Só esperamos que adivinhem e realizem os nossos desejos, sempre sorridentes, sem condições. Como em pequenos. – E o casamento? – Leonor perguntou, nervosa. – O vosso casamento? – encolheu os ombros –, se conseguirem dinheiro para harpa, tenham harpa. Saímos. Eu rolava as chaves no bolso. – E agora? – perguntou a Leonor. Não sobre a casa. Sobre, mesmo tudo. – Não sei – admiti. – Agora é connosco… Nesse peso assustador da responsabilidade, senti uma liberdade nunca antes vista. O primeiro passo era este: será que mesmo queremos tudo isso, carruagem e harpa? Tradições são importantes, mas têm de se construir sobre algo mais do que um dia especial… *** E então? A vida a dois do Manel e da Leonor começou logo no dia seguinte. Finalmente juntos! Vivem num T1 simples. Não é deles, mas é só para eles. Obras recentes. Só que… ninguém os incomoda! No início, casa cheia de amigos! Como não? Liberdade! Depois, passado um mês, veio a vontade de um cão – e dos grandes! A Leonor sempre sonhou com um, nunca teve: a mãe não deixava. O Manel já tivera um – mas fugiu ainda no tempo da escola. Uma tragédia para ele… Assim, o elo do sonho entrou pela porta: um simpático labrador chamado Mercedes. https://clck.ru/3RKgGM Esse filhote fez das suas. Rasgar cantos, roer pernas da mobília, fazer disparates… por todo o lado. Quando Vera Ignátia veio visitar, ficou pasmada: nem sabia do novo morador. – Manel! Leonor! Como puderam?! Nem avisaram! – quase chorou, a olhar a casa – e para quê? Um cão destes é preciso vigiar, e está sempre sozinho! Claro que estraga tudo. Tantos pelos! Nem limpam? E o cheiro! Não dá! Têm de devolver o cão! Amanhã mesmo! – Mãe, – saiu seco do Manel, – afinal deste-nos a casa por um ano. Agora vais controlar-nos também? Queres as chaves de volta? – Nem pensar – exclamou Vera Ignátia –, dou minha palavra. Um ano é um ano. Mas têm de devolver a casa tal como receberam. Percebem? – Sim, – concordaram ambos. – Até lá, não me chamem. Não quero ver isto. *** A mãe cumpriu. Não apareceu. Mal ligava. Passados quatro meses, o Manel voltou para casa: a relação acabou. Contou tudo – ela era péssima dona de casa, não sabia cozinhar, não cuidava do cão. Tiveram de devolver o Mercedes ao criador, e com um saco de ração para três meses, como foi pedido. E isso custa dinheiro! – Apressaste-te com a Leonor, filho? – perguntou Vera Ignátia, disfarçando um sorriso – queriam casamento com carruagem e harpa… – Casamento, mãe?! Por favor! Podes alugar outra vez a casa da avó. – Para quê? Não queres lá morar, já te habituaste? – Prefiro aqui, em casa – abanou a cabeça – ou és contra? – Sempre a favor, – respondeu Vera Ignátia –, ainda por cima, desde que a Catarina saiu com os miúdos, voltou a reinar o silêncio…