— Kika? Eu chamei-a de Pinheirinha! Andou por aqui toda a manhã. Via-se logo que estava perdida. Depois veio encostar-se aos meus pés. Peguei nela logo e meti-a no carro, coitadinha, para não ficar ao frio — sorriu o homem… — Ó Tânia, mas será possível teres tanta falta de sorte? Quantas vezes te disse que esse Vítor não te servia para nada! — ralhava a mãe de Tânia. Tânia mantinha a cabeça baixa. Apesar de ter acabado de completar trinta e sete anos, sentia-se como uma miúda da escola apanhada a trazer um zero para casa. Sentia-se amarga e injustiçada — por si, pelo seu casamento falhado e pela filha pequenina. Logo quando se aproximava o Natal, o tempo mais mágico do ano, tinham ficado sem pai de família. — Vou-me embora, ouviu-se Vítor dizer num tom descuidado mal Tânia serviu-lhe uma taça fumegante de caldo verde. Deixando Tânia sozinha na cozinha, em lágrimas, enquanto a cadelinha Kika vinha para o seu lado, a tentar consolá-la do abandono… E agora, com uma mãe descontente, a aversão à cadela, falta de trabalho e uma filha a perguntar todos os dias se o pai volta pelo Natal, Tânia tenta arranjar forças para criar magia no lar apesar das dificuldades. Mas quando até a Kika foge, a esperança desaparece… Tudo até à noite em que, na véspera de Ano Novo, um gesto inesperado e a gentileza de um vendedor no mercado de pinheiros, devolvem não só a cadelinha — agora chamada Pinheirinha — como trazem uma nova esperança para a família de Tânia, mostrando que, mesmo nos dias mais frios do inverno português, a magia do Natal sabe sempre encontrar o caminho para casa.

Bolota? Eu chamei-a de Alegria. Andou aqui a correr o dia todo. Percebe-se logo perdeu-se. Depois, aninhou-se aos meus pés. Então, pus a coitada dentro do carro, para não apanhar frio sorriu o homem

Mariana, mas como consegues ser tão azarada? Quantas vezes te disse que o Pedro não era pessoa para ti! ralhava a mãe da Mariana.

A mulher estava parada, de cabeça baixa. Apesar de ter completado trinta e sete anos há pouco, sentia-se como uma adolescente apanhada a chegar tarde a casa.

Sentia-se profundamente magoada por ela, pela vida conjugal falhada, e pela sua filhinha. À véspera do Natal, o mais mágico dos dias, encontravam-se sem o pai em casa.

Vou-me embora atirou Pedro levemente, como quem diz que vai à mercearia. Mariana nem percebeu logo o que queria dizer.

Vais para onde? perguntou ela, por hábito, pousando-lhe à frente um prato de caldo verde fumegante.

Ó Mariana, tu não percebes nada do que é importante! Nem sei como vivi estes anos contigo revirou dramaticamente os olhos Pedro.

Mal conseguiu perguntar mais, o Pedro desabafou, detalhando tudo:

Não aguento mais! E ainda por cima, aquele teu cãozinho sempre a ladrar. A miúda está sempre doente. Nada de romance, Mariana. Olha para ti, já viste no que te tornaste? terminou ele, com ar zangado.

Mariana tentou ver o seu reflexo no vidro do armário da cozinha, mas só conseguiu perceber as lágrimas que caíam sem parar. Ficou ali no meio da cozinha, sozinha.

Pedro detestava ver mulheres a chorar. Olhou com pena para o caldo verde, levantou-se, e foi preparar as coisas para sair…

A Bolota, apercebendo-se de que algo estava errado, rosnava mansamente junto aos pés da dona, tentando animá-la.

Ao menos descanso finalmente sem essa barulheira do cão disse Pedro, aparecendo à porta com o saco ao ombro.

Pedro, e a Eva? murmurou Mariana, pensando em como custaria à filha, que dormia tranquilamente no quarto.

Desenrasca-te! És mãe, não és? respondeu ele e, ao som dos latidos de Bolota, fechou a porta e foi-se embora…

Mariana passou a noite abraçada à sua cadelinha. Bolota lambia-lhe a cara, numa tentativa de mostrar que compreendia o desgosto.

Durante dias, Mariana não sabia como contar à mãe o que se passava. Esta, ligava amiúde, perguntando como iam as coisas. Mariana respondia rapidamente que estava tudo bem e desligava.

E trabalho, filha? Arranjaste alguma coisa? Olha, se o Pedro te larga, nem dinheiro vais ter para viver dizia-lhe a mãe, quando a ia visitar.

Foi então que Mariana não aguentou e desabou a chorar, explicando que ninguém a chamava para entrevistas e que o Pedro já lhe tinha dado com a porta há dias.

A mãe ficou abalada. Não estava nada à espera.

Já se via como aquilo ia acabar. Tanto tempo juntos, uma filha, e o teu homem nunca pensou casar contigo exclamou a mãe.

No fundo, sentia pena da filha e da neta.

E agora, o que vais fazer? perguntou ela, finalmente.

Mariana encolheu os ombros:

Vou tentar arranjar trabalho como auxiliar no infantário da Eva respondeu, conformada.

O ordenado não vai dar para nada… E ainda tens a cadela para alimentar resmungou a mãe, nunca fã de animais. Àquela Bolota, que a filha recolhera da rua, então, nem podia ver.

Ia continuar a queixar-se, mas calou-se ao notar que Mariana lutava para não chorar.

Pronto, filha, não chores mais. Eu ajudo-te. Se for preciso, fico com a Eva acabou por dizer para animar a filha…

Assim passou mais uma semana.

Mariana Manuel conseguiu emprego. Levava todos os dias a Eva ao infantário. A menina parecia feliz.

Mãe, podemos levar a Bolota connosco para o trabalho? É que a avó está sempre a resmungar que está cansada de passear com ela. E a Bolota podia ajudar-te a lavar os pratos ou proteger-nos na hora da sesta! dizia a filha, a sorrir.

Mariana ria e abraçava-a, mas não conseguia evitar que o coração se apertasse sempre que Eva perguntava:

Mãe, o pai vai voltar este Natal? Achas que chega a tempo da passagem de ano?

Não teve coragem de dizer a verdade. Inventou uma viagem de trabalho. Quis combinar com Pedro que ele viesse visitar a filha, mas ele dava desculpas:

Mariana, não me atrapalhes a nova vida. Diz-lhe que fui numa missão secreta, como um espião, que demoro. E não te esqueças do meu cachecol, ainda não o encontrei para o Natal dizia ele, desligando.

Mariana ficava a matutar, com medo desse Natal sem o Pedro e sem saber como explicar tudo à filha.

Tudo mudou inesperadamente. A avó foi com Eva ao centro de saúde a rapariga andava adoentada, mas melhorava. Do nada, Pedro apareceu no passeio.

Pai, voltaste? gritou Eva, correndo-lhe ao encontro.

O homem hesitou, forçou um sorriso e explicou, baixinho, que ele e a mãe não iam morar juntos. Depois, foi-se embora, apressado.

Olha, pode ser que venha visitar-te disse antes de sair.

Eva ficou muito séria, murmurando só:

Não voltes, não faz falta.

Nessa noite, a febre voltou, e dois dias depois lá foi a médica a casa.

Eva não falava com ninguém, nem queria melhorar.

Talvez tenha sido o stress disse a médica, depois de ouvir a história.

Mariana culpava-se:

Devia ter-lhe contado tudo, ela ia entender desabafou com a mãe, que abanou a cabeça…

Dois dias a seguir, novo choque. A avó foi passear Bolota, mas sem trela, apressada. A cadela, ao ser repreendida, fugiu a correr para a rua.

Ah, então é assim? Vais passar frio e logo voltas disse a mulher, voltando a casa para cuidar da neta.

Eva, assim que soube que Bolota desaparecera, deixou de comer e beber. Mariana prometia que a encontraria, mas Eva negava-se:

Só como quando a Bolota aparecer, virou-se para a parede.

Isto é da tua educação, Mariana. Sempre a mimar-lhe foi logo a mãe a criticar.

Mais valia teres vigiado a cadela, mãe, do que vires cá ensinar-me lições respondeu Mariana, pela primeira vez firme.

Bem, não sou obrigada a isto! ofendeu-se, saindo de casa.

Mariana ficou sozinha. Pela noite, vagueou em redor do prédio, enquanto Eva dormia finalmente. Nunca perdeu a esperança que Bolota surgisse mas voltou para casa gelada e adormeceu em lágrimas…

Eva acordou cedo:

Mãe, sonhei com uma árvore de Natal! Estávamos a decorá-la e encontrávamos a Bolota!

Na mesa, apenas uma pequena árvore de plástico decorava a casa.

Mas Eva chorou. Queria mesmo uma árvore verdadeira.

Só com uma árvore grande é que aparece a Bolota, como no sonho! dizia ela, entre lágrimas.

Mariana suspirou. Comprar uma árvore natural estava fora de questão com o ordenado pequenino, nem pensar. Ligou à mãe, mas esta recusou visitá-las:

Pelos vistos, preferes uma cadela à tua própria mãe!

Mariana percebeu que não podia contar com ela. Ainda bem que vinha o fim de semana.

Eva continuava em baixo, passava o dia deitada. Quando tudo estava pronto para a véspera de Natal, Eva não se conteve:

Não temos árvore, mãe. Nem a Bolota vai voltar. Nem o pai

Mariana acariciou-lhe o cabelo, evitando chorar. Pediu à vizinha do lado, senhora Conceição, para olhar a Eva, e saiu disparada para a rua…

O frio cortava e os flocos de neve rodopiavam pelo ar. Mariana não via nada à sua frente, só procurava pela Bolota.

Onde te meteste, minha pequena? murmurava, percorrendo a vizinhança.

De repente, encontrou um pequeno mercado de árvores de Natal. Um homem forte, de boné e cachecol, arrumava as poucas árvores que restavam.

Não quer levar uma árvore, minha senhora? Faço-lhe um desconto.

Mariana só pensava: Talvez a família dele o espere em casa, a mulher a pôr a mesa, e os filhos entusiasmados nas janelas….

Nisto, um jovem casal comprou uma árvore à última hora.

E então, vai querer? Ficou só esta. Ajudo-a com a entrega disse o vendedor.

Mariana olhou aflita. Não tinha dinheiro consigo, e mesmo os poucos euros em casa não chegavam.

Viu então ramos partidos naquele carrinho.

Desculpe… posso levar alguns desses ramos, se já não servir para nada? pediu ela, baixinho.

O homem olhou-a com tristeza, percebeu logo tudo.

Leve à vontade, faço questão de ajudar, respondeu, entregando-lhe vários ramos.

Mariana agradeceu, sentindo um nó na garganta.

Sabe, a minha filha está doente, só quer uma árvore… a cadela fugiu… desabafou, sem se conter.

O homem ouviu em silêncio. Também a mulher dele o tinha deixado recentemente, e ele passava o Natal sozinho.

Um instante depois, aproximou-se outro homem:

Então, quanto é por essa árvore? perguntou ele, de olho na última.

Já foi vendida. Vá ali ao lado, ainda deve haver respondeu o vendedor.

Mariana ficou surpreendida.

Venha, ajudo-a a levar a árvore a casa, sorriu-lhe ele.

Mas eu não tenho dinheiro… explicou Mariana, envergonhada.

Eu não me esqueci, assentiu ele.

Foi então que aconteceu algo inesperado coisas que só se passam na véspera de Natal!

O homem abriu o carro de caixa aberta, e lá estava a Bolota, enroscada num velho casaco de lã, a dormir.

Como é que…? balbuciou Mariana, a custo.

Bolota? Eu chamei-a de Alegria. Andava perdida aqui de manhã, percebe-se logo estava cheia de frio… Veio direito a mim, deitou-se aos meus pés. Então, resgatei-a, para não lhe acontecer nada sorriu ele.

Chamava-se Paulo. Gostava de animais e tinha sempre jeito com crianças.

A partir daí, a casa da Mariana encheu-se de calor e esperança como nunca antes. Talvez se deva ao encanto do Natal, talvez estivesse já escrito assim…

Ninguém sabe ao certo. Mas posso garantir que agora esta nova família está feliz. E a Bolota, por vezes, ainda lhe chamam Alegria.

Hoje anotei assim no meu diário: Nunca devemos perder a esperança, mesmo quando tudo parece escuro a vida pode surpreender-nos com uma nova alegria, ao virar da esquina.

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— Kika? Eu chamei-a de Pinheirinha! Andou por aqui toda a manhã. Via-se logo que estava perdida. Depois veio encostar-se aos meus pés. Peguei nela logo e meti-a no carro, coitadinha, para não ficar ao frio — sorriu o homem… — Ó Tânia, mas será possível teres tanta falta de sorte? Quantas vezes te disse que esse Vítor não te servia para nada! — ralhava a mãe de Tânia. Tânia mantinha a cabeça baixa. Apesar de ter acabado de completar trinta e sete anos, sentia-se como uma miúda da escola apanhada a trazer um zero para casa. Sentia-se amarga e injustiçada — por si, pelo seu casamento falhado e pela filha pequenina. Logo quando se aproximava o Natal, o tempo mais mágico do ano, tinham ficado sem pai de família. — Vou-me embora, ouviu-se Vítor dizer num tom descuidado mal Tânia serviu-lhe uma taça fumegante de caldo verde. Deixando Tânia sozinha na cozinha, em lágrimas, enquanto a cadelinha Kika vinha para o seu lado, a tentar consolá-la do abandono… E agora, com uma mãe descontente, a aversão à cadela, falta de trabalho e uma filha a perguntar todos os dias se o pai volta pelo Natal, Tânia tenta arranjar forças para criar magia no lar apesar das dificuldades. Mas quando até a Kika foge, a esperança desaparece… Tudo até à noite em que, na véspera de Ano Novo, um gesto inesperado e a gentileza de um vendedor no mercado de pinheiros, devolvem não só a cadelinha — agora chamada Pinheirinha — como trazem uma nova esperança para a família de Tânia, mostrando que, mesmo nos dias mais frios do inverno português, a magia do Natal sabe sempre encontrar o caminho para casa.
-Komu to hovoríte?