A minha mãe vem morar connosco amanhã de manhã. Já falei com o tio António, ele vem ajudar a trazer as malas. E não faças essa cara, Benedita, não temos outra opção. Ela teve um pico de tensão, precisa de cuidados, comida caseira e descanso. E tu estás em casa a trabalhar remoto, por isso não te custa dar uma sopa e medir-lhe a pressão.
O Gonçalo disse isto com aquele tom de quem acha que manda, afundado no prato de caldo verde como quem avisa que o assunto está encerrado. Eu, que estava a cortar broa na bancada, parei com a faca suspensa no ar. Primeiro, fiquei de gelo, depois subiu-me um calor à cara.
Pousei a faca com calma e olhei para ele. Gonçalo, meu marido de vinte anos, sentadinho naquela nossa cozinha onde investi tanto amor, falava da minha vida como se eu fosse o extra da bimby ou do medidor de pressão.
Gonçalo, comecei, baixo, mas já com aquela firmeza que ele devia reconhecer. Alguma vez perguntaste se eu quero? Tenho o relatório anual para entregar esta semana. Trabalho de casa, não tenho folga eterna. Preciso de silêncio e concentração, não de andar a distribuir comprimidos e ouvir queixas o dia inteiro.
Só aí ele levantou os olhos, realmente incomodado.
Bené, estás a exagerar, é a minha mãe! Aquilo não é uma estranha, é família. O que é que querias que eu fizesse? Pôr a mãe num lar? Empregar uma cuidadora custa dinheiro e temos de pagar ainda o empréstimo do carro. Tu estás aqui todo o dia… Não custa nada fazeres uma pausa cinco minutos.
Cinco minutos? soltei um riso amargo. A tua mãe, Dona Graça, precisa de atenção vinte e quatro horas por dia. Lembra-te do verão passado na casa da praia. Ela não me largava: ora porque o chá estava frio, ora por causa da almofada, ora porque o sol batia mal. E estava saudável. Imagina agora, sentindo-se doente!
Estás a dramatizar resmungou Gonçalo. A minha mãe só gosta de ordem. E é só por um tempo. Um mês, ganha forças e volta para casa dela. E tu, como mulher, devias ser compassiva.
Devias. Aquela palavra encoleriza qualquer alma. Sempre a devedor, sempre a obrigação. Boa dona de casa, mãe exemplar (até o filho entrar para a universidade em Lisboa), mulher paciente, trabalhadora dedicada. E agora, aos quarenta e cinco, depois de criar filho e vingar na carreira, devolveram-me a velha dívida.
A sogra, Dona Graça, sempre foi das que se julga rainha do bairro. Mandava desde miúda atrás de um balcão e gostava de ser o centro das atenções. Qualquer queixume virava emergência nacional, exigindo toda a gente ao serviço. E, desta vez, achei que o Gonçalo queria passar-me o fardo quase em exclusivo.
Não posso, Gonçalo disse eu, agora decidida. Já tenho planos.
Planos?! Vais ver novelas de tarde?
Ofereceram-me um projeto grande. Vou ficar responsável pela contabilidade de uma cadeia de lojas. Dá bom dinheiro e muita responsabilidade. Não me posso distrair.
O Gonçalo nem pestanejou Desiste disso. Dinheiro temos, o que interessa é a saúde da mãe. Não sejas egoísta, Bené. Amanhã às dez trazemos a mãe. Prepara lá o quarto do miúdo, muda a roupa da cama e faz-lhe um caldo de galinha, ela não pode comidas gordurosas.
Levantou-se, largou o guardanapo e saiu. Sempre assim: decide, impõe e está feito. Ele contava que eu resmungasse mas cumprisse depois. Para não haver chatices, para reinar a paz familiar, eu cedia.
Fiquei ali parada na cozinha, os olhos presos na janela já escura. A única luz vinha do candeeiro da rua, a balançar ao vento. Só pensava: Se cedo agora, nunca mais paro. Viro enfermeira gratuita até ela morrer. Tensão alta não passa, é para sempre.
Lembrei-me do que falara com a minha chefe, Dona Leonor, naquela manhã:
Benedita, vamos abrir em Aveiro. Preciso de alguém de confiança para organizar a contabilidade. Vai ser uma estadia de um mês, talvez mês e meio, tudo pago e com o dobro do salário habitual. Mas preciso de resposta até amanhã.
De manhã hesitei, claro: ir para outra cidade, viver de mala às costas, deixar o Gonçalo sozinho… Não era fácil. Mas agora, diante do prato vazio, percebi: era o meu salva-vidas.
Fui lavar a loiça e, quando cheguei ao quarto, o Gonçalo já estava refastelado no sofá a ver bola. Abri o roupeiro, tirei uma mala.
Que fazes? perguntou, nem sequer olhando. Está na hora de limpar aquilo, no roupeiro está só tralha.
Vou embora, Gonçalo, respondi, metendo as roupas na mala.
Agora olhou-me, de sobressalto:
Vais para onde, à tua mãe? Aquela está lá no minifúndio.
Não. Vou para Aveiro, em trabalho. Um mês e meio.
Fez-se silêncio. Ele olhava-me como quem vê um ET.
Estás a gozar? E a minha mãe? Quem a trata?
Tu. És o filho. Não um estranho da rua.
Tu só podes estar doida! Trabalho todos os dias, entro às oito, saio às sete! Quem lhe dá os remédios? Quem faz a sopa?
Faz uma pausa. Ou marcas férias. Ou negocias o trabalho remoto, como sugeriste que eu fizesse por causa da família. Ser compassivo não é só para as mulheres.
Isto é traição! ficou vermelho como um tomate. Inventaste isso para fugir das responsabilidades!
Não, Gonçalo. Deram-me a proposta de manhã, hesitei. Mas tu ajudaste-me a decidir. Temos as prestações do carro, precisamos do dinheiro. E, com esta remuneração, até pagamos uma cuidadora. Se tu não deres conta do recado…
Continuei impávida a fazer as malas, a guardar escova, creme, um conjunto de roupa de casa, o portátil. O Gonçalo andava à volta, aos berros, a ameaçar, a rogar pragas.
Não vês que vais deixar uma idosa indefesa? queixou-se, quase teatral.
Ela não está abandonada, está com o filho querido devolvi, fechando a mala. Vou chamar o táxi. O comboio sai dentro de duas horas.
Não tens coragem! pôs-se à frente da porta.
Fui direito a ele, olhos nos olhos:
Tenho sim. Foram vinte anos a lavar-te a roupa, fazer jantar, suportar os caprichos da tua mãe. Estou cansada. Quero ser eu própria. Sai da frente. Ou posso mesmo pedir o divórcio: e então até dividimos a casa.
Ele saiu de lado. Nunca me tinha visto assim. A Benedita submissa ficou, saiu a outra.
Quando bati a porta, deixei o Gonçalo sozinho. E, no dia seguinte, meteram a Dona Graça em casa.
A sogra entrou como se fosse uma rainha desalojada com um ar sofredor e três malas cheias de frascos de doce, mantas velhas e imagens de santos.
Onde está a Beneditazinha? gemeu, instalando-se no quarto do neto. Trás-me a almofadinha, está aqui uma corrente de ar…
A Benedita… foi trabalhar. Chamaram-na logo.
A Dona Graça levou a mão ao peito, fingindo desfalecer.
Como? E agora? Quem me faz o caldo? Preciso de comer a horas certas! Gonçalo, como é que ela vos faz isto? Que crueldade…
Eu trato de tudo, mãe. Eu.
Começou o calvário.
Nem tirou férias o chefe não deixou, tinham um projeto a fechar. Tentou ficar a trabalhar meio-dia em casa, mas era impossível.
Às sete da manhã, Dona Graça batia com a bengala na parede (bengala essa que, na verdade, era puro teatro).
Gonçalinho, mede-me a tensão! Não aguento mais, estou a morrer.
Ele, cansado, carrancudo, ia medir: 138, beleza de valores. Mas a mãe choramingava, pedia gotas, chá com limão (duas colheres de açúcar, mas nem misturar!) e botija nos pés.
Depois era preciso fazer papa. Só que o Gonçalo sabia estrelar ovos, nada de papas. Queimou tudo.
Queres envenenar-me? a mãe escandalizava-se.
Durante o dia fugia para a empresa, deixando-lhe chá num termo, uns sandes. Mas ela chamava-lhe, por telemóvel, a toda a hora:
Gonçalo, perdi o comando!
Gonçalo, a janela está aberta, como se fecha isto?
Gonçalo, tomei o comprido vermelho ou o azul? Vai lá ver!
Quando chegava, estava a casa num caos. A Dona Graça, de cama, fazia revista aos armários.
Tens a casa cheia de pó! Eu ia limpar, mas até me vim abaixo. A tua Benedita é mesmo desmazelada.
O Gonçalo já só queria calar a mãe. Comprava comida feita, lavava pratos, levava sermão.
Ao fim de uma semana nem parecia o mesmo homem: olheiras, sem paciência, esquecia-se do trabalho e levou um raspanete do chefe. Em casa era uma tortura. A mãe não se calava, queria atenção, drama, choradeira.
Mãe, vê televisão, deixa-me trabalhar pedia ele, implorando paz.
Então o trabalho é mais importante que a mãe? e era um dilúvio.
Um dia, voltou mais cedo do escritório e apanhou Dona Graça… em plena atividade: estava ela de pé em cima do banco, a limpar o candeeiro! Assim que ouviu a chave na porta, saltou, correu para a cama e tapou-se toda.
Ai filho, chegaste? Estou tão mal, não me mexo…
O Gonçalo ficou a olhar para ela. Dentro dele, qualquer coisa se partiu.
Mãe, sussurrou, vi tudo.
Viste o quê? os olhos dela arregalaram-se.
A limpar candeeiros em cima do banco. Estás ótima. Só gozas comigo e com a Benedita.
E tu agora falas-me assim? Eu só limpava por tua causa! Ninguém quer viver na porcaria! Ingrato!
Eu ingrato? soltou uma gargalhada nervosa. Dormi mal uma semana, quase perdi o trabalho, a Bené fugiu por tua culpa. E tu ainda montas um teatro desses.
A tua mulher é uma víbora! Se fosse boa ficava aqui a aturar-me!
Ela foi boa mulher. Eu é que fui mau marido, a empurrar para ela obrigações que não eram só dela. E, se calhar, nem precisavam de existir.
Nessa noite, ganhou coragem de lhe ligar pela primeira vez.
Alô, Bené…
Sim, Gonçalo. Passa-se algo? Está a tua mãe mal?
Não, está espetacular. Demasiado espetacular. Bené, fui burro.
Eu sei disse ela, aflita mas amigável. E então?
Estou a rebentar. Ela não tem nada. Vi-a a limpar candeeiros! Só quer fazer de vítima.
Ela riu-se.
Calculava, Gonçalo. Quem tem ataque de tensão não anda em acrobacias.
Quando voltas? perguntou ele, enternecido.
Falta um mês. O contrato não espera.
Um mês… não sei se aguento.
Vais aguentar. Faz-te bem pensar um pouco no que é este trabalho doméstico. Também eu mereço respeito, Gonçalo.
Bené, desculpa. Pus-te sempre em segundo plano. O teu trabalho importa, tu importas.
Que bom ouvi-lo. Pronto, vou entrar na reunião. Força por aí.
Desligou. Um mês de inferno. Mas agora ele já sabia o que ia fazer.
Foi ter com a mãe:
Mãe, amanhã vamos ao médico. Cardiologista bom, pago eu. Fazemos exames. Se disser que precisas de cuidados, contrato uma cuidadora. Daquelas rijas, sem paciência para fitas.
Que cuidadora é essa, para quê gastar dinheiro? Eu cá…
Assim é que é, mãe. Ou precisas de apoio e tens uma especialista, ou voltas para tua casa e tratamos de uma empregada que te vá lá duas vezes por semana.
Vais pôr-me fora?!
Vou pôr-te de volta ao teu mundo, mãe. Aqui não resulta.
Nos três dias seguintes foi só birras. O médico não encontrou nada de preocupante. Os episódios dramáticos continuaram, mas o Gonçalo passou a chamar a linha SNS. Nas primeiras vezes lá vinham os técnicos, davam o recado, mas à terceira já se viam as manhas todas.
Ela fez as malas.
Leva-me para casa, filho. Ao menos as vizinhas têm conversa. Esta casa cheira sempre a detergente. E tu… foste estragado pela tua mulher.
O Gonçalo levou-a, fez as compras e prometeu visitá-la ao sábado. Vida nova.
Quando voltei, a casa brilhava e cheirava a limpo. O Gonçalo recebeu-me na estação com um ramo de rosas do campo, estava mais magro, com outro olhar. Era respeito. Sabedoria.
Ao jantar (ele próprio tratou da dourada no forno), conversámos.
Tive saudades confessou. Não só pelas tarefas… falta aqui qualquer coisa contigo fora.
Também senti a tua falta sorri. Acabei o projeto, deram-me prémio. E querem que eu comece a chefiar a área.
O Gonçalo ficou sério. Depois assentiu.
Mereces. És das melhores no que fazes. És o meu orgulho.
E a tua mãe?
Vai-se queixando das vizinhas, do governo, da poluição… Mas dizem que está rija. Combinei com a Dona Lourdes do prédio dela: vai lá duas vezes por semana, paga-se pouco, toda a gente sossegada.
Peguei-lhe na mão.
Sabes, Gonçalo, estou contente por tudo ter sido assim. Às vezes só no limite é que se aprende o valor das coisas.
É, aprende-se. Por exemplo, que mulher não é empregada, mas parceira.
Desde esse dia mudaram as regras. Eu nunca mais engoli sapos. O Gonçalo percebeu que tratar da vida e dos velhos não é só problema de mulher. A Dona Graça continuava a ser ela, mas agora não partia nada sem resistência de ambos.
E quando voltou a ligar com o habitual: Achas que vou morrer, Gonçalo? Venham já!, ele respondeu sem hesitar:
Mãe, chamo já a ambulância. Se for caso grave, acompanho no hospital. Senão, descansa e toma um chá.
E não é que os ataques passaram logo?
A minha lição? Defende os teus limites, nem que tenhas de ir até Aveiro. Viver à tua maneira é que importa. E vale muito a pena.






