Ó D. Madalena, outra vez insiste nisto? Não combinámos que a casa de campo é para descansar, recarregar energias, não para fazer de escrava? Eu venho ao Ribatejo respirar ar puro, não para andar feita rastilho entre couves e batatas. Olhe que tenho manicure feito de fresco, e as costas ainda me doem depois de uma semana inteira a trabalhar no escritório. Não é para passar o fim de semana de enxada na mão.
Mafalda ajeitou o chapéu de aba larga, escondeu-se atrás dos óculos de sol e enterrou-se mais confortavelmente na cadeira de baloiço no alpendre. Uma mão segurava o copo com limonada gelada, na outra fazia deslizar o telemóvel. Nem olhava para a sogra, que suava a meio da horta, apoiada na enxada, limpando a testa com o dorso da mão.
Dona Madalena suspirou fundo. O sol de maio batia forte naquele ano, e a terra do Alentejo exigia cuidado. As ervas daninhas cresciam visivelmente, abafando as tenras folhas das cenouras e das beterrabas. O marido, Manuel da Silva, já com mais de setenta, resfolegava de joelhos na terra, endireitando-se aqui e ali para aliviar as costas. Fazia-o em silêncio sabia que aquela terra alimentava a família.
Mafaldinha, não te estou a pedir para lavrares tudo, filha disse Madalena, mascando as palavras para não se exaltar. Ao menos apanha um bocadinho de morangos; em vinte minutos está feito. Olha como as ervas avançam. O Pedro vem cá, gosta de moranguinhos limpinhos.
O seu Pedro pode ir buscar morangos ao supermercado, se quiser respondeu Mafalda, nem tirando os olhos do telemóvel. Hoje em dia há fruta todo o ano, mesmo melancias em dezembro. Não vale o esforço. Estas hortas são coisas do antigamente. Se for a somar gasolina, adubos, remédios para as dores, a cenoura sai a preço de ouro.
Assim eram quase todos os fins de semana desde que Pedro, filho único de Madalena e Manuel, casara com Mafalda. Para Madalena e Manuel, a casa de campo era o refúgio, o orgulho, o sítio onde tudo era partilhado. Já Mafalda, lisboeta de nascença e de espírito, não percebia o apego à luta com pragas e ao trabalho braçal, quando tudo estava à venda nas prateleiras, lavado e empacotado.
Pedro mantinha-se ocupado no grelhador, mantendo a paz possível. Doía-lhe ver os pais lavrar sem descanso, mas temia a cara de caso da mulher não lhe valia a pena contrariá-la: era capaz de passar um fim de semana inteiro calada só por teimosia. Ao menos assim, pegando na enxada às escondidas, evitava discussões.
Deixem-na, mãe, pai gritou Pedro, virando entrecosto. Daqui a pouco ligo o sistema de rega, está bem?
Regar não chega, filho respondeu Manuel da Silva. Mas vá, Madalena, façamos nós. Deus ajuda quem trabalha.
Madalena apertou os lábios, sufocando a mágoa. Amava aquele chão, não se queixava do cansaço o que doía era aquilo: sentir que eram os serventes do lazer dos mais novos, não uma família unida pelo esforço. Sempre pensara que ali haveria alegria e entreajuda, não esta solidão invisível.
O verão entrou com peso. Todos os fins de semana repetia-se o ritual: Pedro e Mafalda chegavam sexta à noite, com carne temperada e bolos da pastelaria. Mafalda dormia até ao meio-dia e, acordando, punha-se a tostar no relvado (naturalmente cortado por Manuel), enquanto Madalena rodopiava de enxada, regador e tacho, a dar conta de plantações e refeições. No campo o apetite é outro, diziam.
Na cozinha, Mafalda só conhecia o papel de espectadora.
Ó D. Madalena, o seu caldo verde é qualquer coisa! Ou os pasteis de bacalhau nunca saberei fazer como a senhora. Tem mãos mágicas.
Madalena derretia-se com o elogio, esquecendo o cansaço e voltando à panela, enquanto Mafalda folheava revistas à sombra.
Chegado julho, com a framboesa madura, aconteceu o inevitável. Madalena precisava de apanhar os frutos antes de caírem.
Mafaldinha, faz-me o favor de apanhar um cesto de framboesas? Quero fazer compota para vos dar no inverno.
Mafalda estremeceu, mirando os arbustos cheios de picos.
Está cheia de urtiga lá por baixo! E os mosquitos são ferozes. Quer mesmo compota? Vou mas é comprar já feita e trago-lhe.
Não preciso dessas misturas de supermercado explodiu finalmente Madalena. Aqui é tudo natural. Não custa nada apanhares meia hora de fruta!
Custa, sim devolveu Mafalda, farta. Eu não vim ser apanhadeira. Quer compota, apanha. Eu fico bem sem doces, até faço dieta.
As framboesas, no fim, apanhou-as Pedro, às escondidas, enquanto a mulher se banhava. Madalena olhou-o, o balde cheio; quis chorar por ele sempre entre a espada e a parede. Engarrafou os doces em silêncio: Fique de reserva, que o inverno há de perguntar ao verão.
Agosto trouxe tomates e pepinos maduros. O orgulho de Madalena era a estufa atulhada de frutos: coração de boi, rosa, amarelo, todos sumarentos e doces. O trabalho triplicou: era preciso conservar, ferver, esterilizar. O aroma a salsa, folha de louro e vinagre enchia o ar.
Mafalda rondava os frascos ainda quentes.
Que maravilha! Pepinos de conserva, o Pedro adora com batata cozida. Fizeram aquele pisto delicioso do ano passado?
Fiz, sim. Madalena, trémula de cansaço, só teve tempo para um sim.
Ótimo, queremos vários frascos. No supermercado só se encontra conserva avinagrada. O seu toque é divinal.
Madalena não respondeu. Pensava no marido a ensacar cebolas, ambos exaustos.
Setembro: tempo da colheita das batatas, o ponto alto da labuta. Madalena esperava pela ajuda dos mais novos. A terra estava cheia, colheu-se para duas casas.
Mas na véspera, Pedro ligou hesitante:
Mãe, este fim de semana não dá. A Mafalda tem festa de anos de uma amiga, vamos jantar fora ao Chiado. Se calhar deixamos a colheita para a próxima semana?
Vão cair grandes chuvadas, filho respondeu baixo Madalena. Perde-se tudo.
Contratam alguém, mãe. Transfiro dinheiro. Peçam ao vizinho João.
Madalena pousou o telefone. Não valia a pena pedir favores cada um com o seu quintal. Ela e Manuel passaram o fim de semana curvados, de enxada e saco ao ombro. Paravam para tomar remédio do coração, massajinham as costas e voltavam. Domingo à tarde tinham tudo no alpendre: 25 sacas de batata limpa, e mais cenouras, beterrabas, abóboras, tudo alinhado para o inverno.
Duas semanas depois, chegada do outono e tarefas feitas, Pedro e Mafalda apareceram. Abriam o porta-bagagens, com caixotes e sacos vazios.
Olá a todos! Mafalda estava animada. Pronto, cá estamos para recolher o cabaz. Pedro, leva já três ou quatro sacos de batatas e arruma as cenouras. Eu vou escolher os frascos; preciso de pepinos, tomates, pisto, e claro o doce de framboesa.
Madalena, da janela, sentiu o peito apertado. Vieram-lhe à memória o sol tórrido, os mosquitos, a dor do marido, a indiferença de Mafalda.
Manuel, vem cá chamou.
Vês isto?
Vejo, Madalena.
E que vamos fazer?
Como tu achares, foi o teu suor. O teu comando.
Madalena endireitou-se, ajeitou o lenço e dirigiu-se ao pátio. Pedro ia buscar a pá, Mafalda mandava.
Pedro, espera aí disse Madalena, alta e clara.
Filho e nora olharam, surpreendidos.
Que foi, mãe? Queres as chaves do armazém?
Não precisas de chaves, nem de caixotes. Podem ir arrumar tudo de volta ao carro.
Como? Mafalda engasgou-se. Viemos buscar os produtos, está quase inverno!
Pois, Mafalda. E como dizem os velhos: quem não trabuca, não manduca. Lembras-te da formiga e da cigarra da fábula?
Mãe riu-se Pedro, ainda a achar graça que disparate. Temos batatas a mais. Não quer mesmo dar alguma?
As batatas são nossas, Pedro. Plantadas, regadas, colhidas, tudo por nossas mãos. E cada frasco, frasco suado.
Mas somos família! indignou-se Mafalda, descendo as escadas. Ficou lívida. Vai deixar o próprio filho sem batatas? Metade ficará a apodrecer!
Se apodrecer, foi pelo meu braço. Ou dou ao vizinho João, que sempre nos dá uma mão. Mas para vocês, meus filhos, não há nada. Nada.
É birra?! Quer dar-nos lição? a voz de Mafalda subia, estridente.
Não é castigo. É justiça. Passaste o verão a dizer que no supermercado se encontra de tudo, que não compensa semear. E tens razão. Vai ao supermercado. Compra lá tudo, podes escolher o que quiseres. Mas daqui, não levas nada.
Mas isso é tudo química! escapou-se-lhe.
Pelo caseiro paga-se, Mafalda, paga-se com trabalho interveio Manuel, acompanhado-a. Tu nem apanhaste uma framboesa. Agora queres sair daqui com janelas e caixas cheias. Não pode ser. Acabou-se.
Pedro ficou em silêncio, corado, a cabeça em baixo.
Desculpem, mãe, pai. Não fui capaz de contrariar a Mafalda. Falhei-vos.
Vai, filho murmurou Madalena, a voz a tremer. Não fiques chateado. Aprende só isto: há coisas que não se podem só levar; há que dar também. Amor mostra-se nos gestos, não nas palavras. E respeitar o esforço dos outros é o princípio de tudo.
Pedro abraçou-os. Subiu para o carro com Mafalda, que atirou a fruta mordida para a jardinheira, bateu a porta e saiu dali furiosa.
Ficaram Madalena e Manuel sozinhos, o vento de outono a varrer folhas amarelas pelo quintal.
Talvez tenhamos sido duros, Madalena murmurou Manuel, rodeando-a com o braço.
Era preciso, Manuel. Ou nunca percebem que o pão não nasce das árvores.
Passaram meses frios. Pedro mal telefonava; Mafalda nunca. O inverno caiu, tenaz. No apartamento, Madalena sorria para a despensa cheia: batatas soltas, picles, doces. Tudo na casa.
Pelas festas, bateram à porta. Pedro, só, com flores e um saco de compras.
Olá, mãe. Posso entrar?
Manuel apareceu, sentaram-se à mesa. Chá e doce de framboesa.
E a Mafalda? perguntou Madalena, cautelosa.
Trabalha. Zangou-se muito, mas… encostou-se atrás sabes, mãe, comprámos batatas no supermercado uma desilusão: cozidas ficaram como sabão. Pepinos de boião a saber a vinagre. Deitámos tudo fora.
Madalena serviu mais chá.
Disse-lhe: Vês, Mafalda? Não há sabor sem suor. Discutimos. Mas ela pensou bem. Ontem até disse: Se calhar não estivemos bem. Roubaram-se aos pais…
Pedro retirou um envelope do saco.
Aqui está algum dinheiro. Fizemos as contas quanto custariam estes produtos a um produtor biológico. Aceitem, por favor. É justo, uma compensação por não termos ajudado. Queremos comprar-vos parte da colheita.
Manuel abriu a boca para recusar, mas Madalena pousou-lhe a mão no braço.
Está bem, Pedro. Aceito. Será investido nas sementes para o ano, e talvez para arranjarmos a estufa. O vosso contributo.
Levantou-se, foi buscar sacos ao armário: um banco de pepinos, tomates, pisto, a compota preferida de Mafalda, um saco de batata.
Obrigado, mãe. Pedro tinha olhos húmidos. E combinámos: na Páscoa, vimos ajudar de verdade. Já comprei o plástico novo para a estufa. E a Mafalda vai tratar das flores e das ervas. Disse que há manicure que resiste às luvas certas.
Assim é que é sorriu Manuel. Quando o trabalho é repartido, tudo tem mais sabor.
Pedro saiu. Madalena ficou à janela, um alívio novo no peito. O ensinamento foi dado duro, mas necessário. Agora era certo: no verão seguinte haveria família, horta e união. E a batata, se Deus quisesse, teria ainda mais gosto regada a entendimento.
Na mesa de Natal dos filhos estavam os frascos de conserva dos pais. E pela primeira vez Mafalda, servindo-se, disse apenas, pensativa:
Pedro, para o ano vamos plantar mais courgetes? Encontrei uma receita de compota que quero experimentar.
Para Madalena, tal promessa foi o melhor presente de todos.






