Tinha eu vinte e cinco anos quando, já há dois meses, vivia em casa da minha avó. A minha tia Carlota única filha ainda viva da minha avó Matilde partira de forma inesperada na primavera desse ano. Até então, avó Matilde partilhava o lar e o quotidiano com ela naquela casa antiga em Coimbra, dividindo silêncios e rotinas. Eu ia lá com frequência, estávamos próximas, mas cada uma de nós seguia a sua vida, sem grandes interferências. Tudo mudou no instante em que a avó ficou sozinha.
A dor da perda nunca me foi estranha. Perdi a minha mãe quando tinha apenas dezanove anos. Desde então, aprendi a habituar-me ao vazio, ao luto silencioso que paira todos os dias. Do meu pai, nem memória tenho. Nunca existiu mistério: simplesmente, não esteve presente. Por isso, ao perder também a tia Carlota, percebi com uma clareza difícil de afastar: restávamos agora apenas eu e a minha avó Matilde.
Recordo como aqueles primeiros dias depois do funeral foram estranhos e pesados. A avó não chorava pelos cantos, mas lia-se tristeza em cada detalhe: levantava-se devagar, esquecia luzes acesas, sentava-se a olhar o nada. Preferi ficar por uns dias para lhe fazer companhia. Esses dias transformaram-se em semanas, e, quando dei por mim, já havia arrumado as minhas roupas nos armários da casa dela, percebendo que não tencionava sair dali tão cedo.
As opiniões, como seria de esperar, não tardaram. Sempre há quem tenha algo a dizer. Alguns elogiavam: Fizeste o que devia ser feito não se deixa uma idosa sozinha após perder uma filha. Outros criticavam: Estás a desperdiçar os melhores anos! Devias sair, viajar, conhecer gente, ‘viver a vida’, arranjar namorado. Perguntavam-me se aquilo não me pesava nos ombros, se não me sentia presa, se não tinha medo de, um dia, dar por mim também sozinha.
Mas, para ser sincera, eu não via dessa forma. Trabalhava, poupava uns euros, tratava da casa, acompanhava a avó ao centro de saúde, cozinhávamos juntas, e ao serão víamos televisão na sala antiga iluminada de azulejos. Não sentia que estivesse a abdicar de nada. Sentia, sim, que estava a eleger um caminho. Não tinha parceiro, não pensava em ter filhos nem em partir para fora de Portugal. Apenas desejava estabilidade, presença, a decisão consciente de não repetir aquela narrativa de abandono que conhecia tão bem.
A avó Matilde era tudo o que restava da família mais próxima. Não tinha mãe, não tinha tias, do pai nem vestígios. Não aceitava que ela passasse os últimos anos a pensar que era peso, que atrapalhava, que não tinha lugar. Não queria vê-la a almoçar sozinha todos os dias, nem a adormecer com a sensação de que não tinha ninguém.
Talvez um dia venha a seguir outro trilho. Talvez viaje, me apaixone, quem sabe, parta para longe. Mas hoje, o meu lugar é aqui. Não por obrigação, nem por culpa. Mas porque amo a minha avó e porque me encontro a mim própria ao seu lado.
E vocês, o que fariam?







