“Afinal, vocês têm mais posses, então os vossos presentes deviam refletir isso”, reclamou a sogra — Uma noite tensa em Lisboa, quando Amélia e Rui tentam escolher o presente perfeito para a exigente Dona Maria, mas nada parece ser suficientemente bom

Hoje foi um daqueles dias que me deixam pensativa sobre os laços de família e a complexidade de agradar a todos. O ambiente estava quente esta noite em Lisboa, quando me sentei ao lado do Miguel no nosso sofá.

O que é que vamos oferecer à tua mãe? Estou mesmo sem ideias desabafei, enquanto olhava para ele à espera de alguma inspiração.

Miguel suspirou fundo. Encontrar um presente para a minha sogra, D. Conceição Loureiro, nunca foi tarefa fácil. Desde o início, a nossa relação sempre foi tensa.

Miguel percebeu logo que a mãe dele mantinha uma certa distância, e nós acabámos por fazer o mesmo.

Era uma espécie de pacto silencioso: nada devia a ninguém. Falávamos pouco ao telefone e só nos víamos em festas de família, se ambos achássemos indispensável.

Este ano, não havia como fugir. D. Conceição quis celebrar o seu 70º aniversário em grande convidou toda a família, incluindo nós.

Já agora, a mãe disse que gosta de qualquer prenda lembrou-se Miguel, de repente.

Revirei ligeiramente os olhos.

Ela diz sempre isso, mas depois nunca está satisfeita. A tua irmã pode dar-lhe o que quiser, nós é que não podemos recordei-me, abanando a cabeça. Lembro-me bem de todas as vezes em que D. Conceição olhou de lado para os nossos presentes.

Olha o que aconteceu no Dia da Mãe passado. Oferecemos-lhe um conjunto de cremes caríssimos. O que ela fez? Ficou a chorar e disse que só podíamos achar que ela era velha e feia desabafei. Só gosta mesmo de ouro ou de aparelhos eletrónicos, porque é fácil perceber quanto custaram.

Se calhar, ligo-lhe já e pergunto sugeriu Miguel, ainda que pouco convicto.

Faz como quiseres respondi, resignada.

Miguel marcou o número da mãe, à procura de algum indício que o ajudasse nesta missão complicada.

Oh filho, não preciso de nada. Só de vos ver aqui já fico contente respondeu D. Conceição com a voz sempre meiga.

Mas é mesmo verdade, mãe? Não vais ficar chateada se não for nada especial? insistiu ele.

Credo, Miguel! Qualquer coisinha me deixa feliz acalmou-nos, e Miguel acreditou.

A mãe diz que podemos dar o que quisermos contou-me Miguel.

Suspirei, descrente. Não confio em promessas de sogras.

Mas, como Miguel estava determinado a escolher algo ele próprio, aceitei. Calculámos um valor do orçamento e sugeri:

Que tal oferecermos-lhe um aspirador robot? Assim já não precisa de andar cheia de dores a aspirar o apartamento todo.

Concordámos. Comprámos o aspirador, que não foi nada barato (custou mais de mil euros), e seguimos para Cascais para a festa, aliviados por termos resolvido o drama.

Quando a D. Conceição nos viu, sorriu. Mas, mal reparou na caixa do aspirador, o rosto fechou-se.

Para quê isto? murmurou, cansada Põe ali naquele quarto, filho.

Fiquei parada, sem saber o que dizer. Não percebia por que motivo nunca era suficiente.

Logo a seguir, a minha cunhada Filipa chegou com o marido. Atirou-se aos braços da mãe, cheia de alegria.

Mãe, para ti! disse Filipa.

Obrigada, meu amor! Vocês são um encanto! respondeu D. Conceição, abraçando-a emocionada.

Espreitei, curiosa, para o saco da Filipa. De certeza que seria algo caríssimo para merecer aquela reação Qual não foi o meu espanto quando vi um conjunto barato de cremes de supermercado, daqueles que custam dez euros!

Olhei para Miguel, que também tinha notado. O olhar dele era meio incrédulo e meio furioso.

Miguel aguentou horas a ouvir a mãe a elogiar a prenda da irmã, até que não aguentou mais:

Mãe, podemos falar um bocadinho? chamou-a de lado.

O que se passa, meu filho? perguntou ela, visivelmente incomodada.

Recorda-se do que me disse sobre os presentes? Que lhe dava igual, que qualquer coisa servia?

Sim lembro-me.

Então porque é que tratou o nosso presente como se fosse nada, e o da Filipa como se fosse o melhor do mundo? perguntou, magoado. Não me venha dizer que foi impressão minha.

Não te vou dizer isso. Vocês têm mais posses do que a Filipa, portanto as vossas prendas deviam ser ao nível do vosso bolso! resmungou D. Conceição.

E o que é que a mãe sugere? Que compremos uma viagem para cada aniversário? Temos de pôr o preço colado no embrulho para sentir que valeu a pena? perguntou ele, já farto.

Olha que isto é sempre a mesma coisa! disse ela, já com vontade de acabar com a conversa. Se prefiro as coisas simples que a Filipa me dá, é porque ela me conhece e oferece-me de coração.

Ou é porque não sabe quanto custou o nosso! Só para teres uma noção, aquilo custou mais de mil euros! explicou Miguel.

Tão caro? exclamou ela, espantada, provavelmente a fingir. Mas logo se recompôs:

Sabes porquê? Os presentes da Filipa são com o que ela pode dar. Vocês fazem para cumprir calendário afirmou ela, de peito feito.

Mãe, estás a ser mesmo injusta respondeu Miguel, nervoso.

Eu e a Filipa já assistíamos à discussão, meio à porta, sem querer acreditar.

A Filipa percebeu logo a raiz do problema e alinhou do lado da mãe.

A mãe nunca quis um aspirador; precisava era de um humidificador, que o dela avariou esta semana. Se se interessassem mesmo, sabiam disso atirou Filipa, com aquele tom de professora.

Eu perguntei diretamente que presente queria! rebateu Miguel Querem é gozar comigo? Chega. Acabaram-se as prendas. Esforçamo-nos sempre, tu nunca estás satisfeita. Se aspirador não serve, se querias um humidificador, paciência! Vamos embora! disse-me Miguel, puxando-me para mim.

D. Conceição começou a chorar, a Filipa correu a ampará-la, mas nós saímos de casa de cara fechada.

Fiquei a pensar no caminho para casa: às vezes, dar é impossível quando se espera tanto em troca. Miguel nunca mais quis ir a festas de família. E, sinceramente, às vezes percebo-o.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

eighteen − three =

“Afinal, vocês têm mais posses, então os vossos presentes deviam refletir isso”, reclamou a sogra — Uma noite tensa em Lisboa, quando Amélia e Rui tentam escolher o presente perfeito para a exigente Dona Maria, mas nada parece ser suficientemente bom
ИЗНЕНАДА ЗА СЪПРУГАТА Когато Маруся отвори вратата, хвърли на шкафа огромен букет от фирменото парти, събу до болка омразните токчета и нахлузи пантофите. Макар че по-добре щеше да е с ботуши. Водата беше повече, отколкото по стълбите. От дъното на апартамента приглушено мяукаше котарак. Още нещо скърцаше, пушеше и бълбукаше. – Сашо, какво си направил този път?! Съпругът се появи след секунди. По гащи, бос, размазан сажди по лицето, пригорял, с лилав подутик под окото и кърпа на главата като тюрбан. – Марусе, върна ли се вече? Не очаквах да си толкова рано. Мислех, корпоратив, ти си директор – до последно ще стоиш… Маруся въздъхна, седна отчаяно на табуретката и нареди: – Разказвай, злосторнико. Пак ли някоя глупост? – Е-е, слънце мое, само не се тревожи… – Аз се тревожех, когато през 90-те рекет ме заплаши! Притеснявах се, когато беше финансовата криза! Сега за какво ли да ми пука? Казвай какво си направил с апартамента! – Ами… – По-бързо! – Добре де! Исках да те изненадам с празник. Да те поздравя по новому… Почистих, пуснах пералнята и реших да сготвя празнична вечеря. Взех си отпуска, пазарувах на Женския пазар, купих телешко… и то прокапа. – Телешкото? – прекъсна я Маруся. – Не, пералнята. Но не веднага. Сложих месото във фурната, отидох да чистя, а после се появи котаракът… – Жив ли е? – Разбира се! Само малко мокър. Кълна се, като пусках пералнята, вътре нямаше котка! Не знам как се оказа после… – Как?! Как влезе в затворената пералня?! – Не знам. Може би се промъкна… Стиснала очи, Маруся продължи: – Давай, става още по-интересно. Първо покажи котарака, да се уверя… – Слънце, не мога, трябва да отида до него. – Надявам се, че лапите му са цели… Сашо кисело избърса лицето си: – Да, даже ги имобилизирах– за безопасност. – Добре, после ще го видя. Какво стана още? – Докато котката се “къпеше”, усетих миризма на изгоряло. Отидох на кухнята, открих фурната, опарих си ръцете – месото гореше! Хвърлих олио вътре– не знаех, че ще пламне! – Косата ми опърли, дим излезе, започнах да гася… И тогава закрещя котката. Хукнах към пералнята, виждам очите му зад стъклото – стрес! Изключих машината, исках да я отворя, но не можах. Котката пищи, а котлонът гори. Взех лост. Счупих пералнята, потече вода, но котката е свободна! – Докато гасих печката, този престъпник тичаше из апартамента, чупеше вази, разсипа шампанско, съседите удряха по радиатора отдолу и обещаваха кастрация. Но всичко е наред, само не се ядосвай… Със сълзи от смях, Маруся стана, изблъска Сашо настрани и влезе в апартамента. Погромът беше качествен – както описано. Още десет детайла, от които по-слаба жена би онемяла. Но не и Маруся – 20 години мениджър в голяма компания я бяха калили. Важно беше, че нямаше внуци на гости, а мъжът и котката – живи. Котаракът, разбира се, бе вързан за радиатора и муцуната му замотана със стар шал, но жив, не изгорял – това стига. Сашо обясни: – Виж, скъпа, не искаше да седи на радиатора, а се боях, че няма да изсъхне. Не ставаше да го изтискам – не даваше. Затова го вързах, а муцуната – да не крещи, че съседите десет пъти вратата блъскаха, заплашваха с пожарна и полиция. Даже враня обещаха да викат, да прокълне! Маруся отвърза котката, утеши я с кърпата от Сашо и освободи муцуната ѝ. – Егати човек си, Сашо. Можеше да се задуши. Но след това “пране” едва ли вече се страхува от нещо. Седна на дивана, прегърна котката, погледна мъжа си. – Е? – В смисъл? Да се обеся ли веднага, или ще ми дадеш ти това удоволствие? – Оххх, – въздъхна Маруся. – То днес е Осми март. Сашо се усмихна широко, изтича в съседната стая, върна се тържествено с ръце зад гърба, коленичи пред нея и рецитира: – Марусче, слънцето ми! Триста години заедно сме, не спирам да се удивлявам на теб. Най-красивата, търпелива и любяща си! Честит празник! Подаде ѝ кутийка със златен пръстен и смачкан букет рози. Обясни неловко: – Като бяха хубави, ама не устояха на бесния котарак. Не се сърди нито на него, нито на мен. Просто исках да те зарадвам! Маруся притисна главата му в скута си, подуши розите и се усмихна. – Ах, чудо, още ухаят, и даже не на изгоряло. Недей повече да експериментираш, Сашо. Достатъчно са само цветя – още един такъв празник домът няма да издържи. А и съседите също. – Ми помислих, че на работа ти подаряват скъпи неща, букети – исках да е нещо необикновено, с изненада, с “пламък”! – И успя, беля моя – дори с пламък! Но не е важно какво получавам на работа – важното е, че тук всичко е истинско и с любов. – Айде сега да оправяме, да се мерим със съседите, че току-виж наистина викнали някоя враня – тя сигурно и мъж има, и може да е искал да изненада и нея… Кой знае какво ѝ идва на ум след това!