Sinto Saudade Dele: Nunca Tive Tanta Saudade de Alguém Assim, Mesmo Não Me Sentindo Totalmente Bem na Relação e Sabendo Que Havia Coisas Que Não Gostava – Uma História Que Começou no Facebook, Com Conversas Profundas, Encontros em Parques Frios de Lisboa, Gestos que Pareciam Lar, Vidas Passadas Complicadas, Surpresas no Aniversário, Mensagens Ofensivas de uma Ex, Superações, Testes de Convivência, Dificuldades Financeiras, Decepções, Recomeços, Mágoas e a Descoberta Dolorosa de Que Nem Sempre o Amor é o Suficiente – Mas Fica a Saudade do que Foi Bom e a Certeza de Que Alguns Laços Não São Para Sempre

Tenho saudades. Nunca senti falta de ninguém desta forma. E nem sei bem porquê até porque com ele nunca me senti inteiramente em paz, havia sempre algo que não me agradava.
Conhecemo-nos pelo Facebook. Começámos a trocar mensagens e um dia ele convidou-me para tomar um café. Fomos passear a um jardim em Lisboa. Lembro-me bem daquele dia: estava emocionalmente em baixo, desmotivada, e ainda por cima o corpo doía-me por causa da ginástica, especialmente as pernas que protestavam a cada passo. Conversámos ali no jardim, já o sol se tinha posto, o céu estava limpo e fazia mesmo muito frio. Falámos da vida, dos nossos caminhos, do que procurávamos.
Quando chegou a hora de ir embora, dei-lhe um abraço. Um abraço que ficou, longo, como se me demorasse na única casa que me acolhia naquele instante. Custou-me a acreditar que aquele gesto de conforto viesse de um homem tão reservado, sério, quase ausente mas senti, no íntimo, que ele não era apenas essa máscara. Não sei se ele ficou desconfortável, tal como eu. Percebia-se que ambos vínhamos de um lugar difícil e aquele abraço, para ele, também foi bálsamo. Despedimo-nos de novo, já com um abraço breve, e cada um seguiu o seu caminho.
As nossas conversas continuaram noite dentro. Assim passavam os dias: um “bom dia” dele, trocadilhos, mensagens constantes, companhia à distância. Começámos a sair juntos: discutíamos assuntos profundos, falávamos dos nossos sonhos, inventávamos cenários para a vida a dois. Contou-me que vivia com um amigo. Falou-me de uma ex-namorada, e admitiu escrever-se com algumas amigas ex-companheiras. Mais tarde, voltou a morar com os pais.
Quando decidimos oficializar a relação, contou-me a verdade: afinal tinha vivido com a ex-namorada, não com um amigo. Segundo ele, entre eles, já nada existia, muito antes sequer de me conhecer apenas ainda trabalhavam juntos.
Um dia ele publicou uma fotografia deles os dois. Pelo aniversário dele, planeei ir buscá-lo e surpreendê-lo com um jantar num restaurante rústico, à maneira antiga, daqueles cheios de história em Sintra. Durante a manhã, recebi uma mensagem ofensiva no Instagram, assinada por uma mulher. Não respondi. Só lhe perguntei, a ele, o que era aquilo. Lembrei-lhe da ex daquela mania de criar confusão, mandar pessoas insultar outras e escrever mensagens desagradáveis. Esperei para falar com ele, sem ceder à provocação. Disse-me que resolveria, mas os insultos continuaram. Respondi apenas o indispensável. Nunca fui mulher de me rebaixar, de ceder à arrogância alheia. Acabei por bloquear aquela conta.
Este episódio ficou para trás. Seguimos em frente e a relação até ganhou força. Partilhávamos mais de nós. Eu estava desempregada, e ele incentivava-me sempre a procurar trabalho. Por vezes ajudava-me com pequenas despesas o que me envergonhava mas nunca lhe pedi coisa alguma, era sempre iniciativa dele. Quando foi de férias, entregou-me as chaves de casa: Fica por cá. Fiquei, enganei-me, aceitei ficar duas semanas de seguida.
Ele parecia testar-me para perceber quem era eu, no dia-a-dia. Gastava imenso dinheiro em comida de fora porque, dizia ele, cozinhar era perda de tempo, que se podia sempre comprar tudo já feito. As férias terminaram e, com elas, gastaram-se muitos euros. Sugeri-lhe que poupasse, mas ele não me ouviu. Depois, acusou-me de não o ter ajudado a economizar, dizendo que, se ele gastava, era porque eu permitia quando, na realidade, sempre lhe sugeri que cozinhássemos em casa, que poupássemos.
Começou então a queixar-se das contas, dos pagamentos que tinha por fazer, o que me fez sentir ainda pior. Arranjei trabalho; comentou então que queria agora testar-me. O teste era: saber se, vivendo em casa dele, eu lhe iria dar dinheiro ou compensá-lo pelo que tinha gasto comigo. Disse que sentia que me sustentava. Eu não sabia o que dizer. Tudo era novo para mim, estava a aprender o que era partilhar uma vida a dois.
Disse que tudo iria mudar e mudou. Quase já não fazíamos planos, encontros eram raros. As mensagens tornaram-se curtas, frias, secas. Referia que precisava recuperar financeiramente, que tinha ficado desorganizado, mal se alimentava. Tudo começou a desmoronar-se.
Um dia, disse-me que lhe mexi no bolso, que o prejudiquei financeiramente mesmo eu nunca tendo pedido seja o que for. Eu já trabalhava. Às vezes pagava eu, outras pagava ele. Mas os planos já não existiam. Tudo estava diferente. Decidimos terminar. E fizemo-lo civilizadamente gratos pelo bom e pelo que aprendemos. Fechámos aquela porta, de cabeça erguida.
Tentámos reaproximar-nos mais tarde. Conversámos. Mas as coisas já não eram iguais: não gostava de ficar em casa dele depois do trabalho sem comida nenhuma. Por vezes nem me convidava para jantar. Eu ficava na dúvida se levava alguma coisa para almoçar ou se devia tomar um pequeno-almoço mais reforçado, para não sentir fome durante o dia. Expressei-lhe como me sentia; ele não sugeriu solução alguma, não disse nada. Passei a sentir-me sozinha, habitante de mim mesma. Isso começou a matar tudo o que ligava a nossa relação.
Numa dessas tardes, ao regressar a casa com ele nos transportes públicos de Lisboa, senti-me mal, quase a desmaiar. Sentei-me no chão do elétrico para não cair. Ele nem reagiu. Esse momento afastou-me de vez. Afastei-me, primeiro por dentro. No fundo, ainda gostava dele, mas já entendia que não era o homem certo para ter ao meu lado apesar dos sonhos partilhados, das metas bonitas.
Pedi-lhe muitas vezes que nunca nos deitássemos zangados. Mas acabei tantas vezes a adormecer a chorar. Até que um dia decidi: não vou mais fazer isto a mim mesma. Acordei cedo, recolhi as minhas coisas e fui-me embora. Falámos. Disse-lhe o que sentia. Ofereci-lhe um desenho feito por mim, que ele adorava, mas fui buscá-lo à parede e levei-o comigo. Não o devia ter feito. Algo quebrou-se em mim e nele também.
Semanas depois, voltámos a falar. Disse-me que, ao tirar-lhe o desenho, tirei-lhe a última alegria que tinha, que ficou algo definitivamente partido dentro dele. Voltámos a fechar aquela porta. Por vezes escrevia-lhe mensagens de gratidão ou mandava alguns vídeos, mas ele nunca respondeu. Tudo ficou vazio.
Uma noite, para perto da meia-noite, recebi uma mensagem cheia de insultos a acusar-me de ser a mulher que o afastou da família. Apaguei o chat e bloqueei. Depois começaram a contactar-me pelas redes sociais da empresa onde ele trabalhava. Percebi logo que era a ex-namorada, ou talvez alguém de uma futura relação. Ignorei. Falei com a gerência, coloquei limites disse que, se continuasse, avançava judicialmente. Pararam de imediato.
Fiquei triste. Mudei. Percebi que não era ele o homem que eu queria. Tivemos um final sereno, mas revê-lo de novo ao lado de quem tanto caos lhe provocou, doeu.
Por vezes tenho saudades. Das coisas boas, de alguns momentos. Mas só isso. Sei, no fundo do coração: comigo ele sentia paz, orgulho. Não creio que com ela seja sequer parecido nem que se torne o homem que queria mostrar ao mundo.

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