Olívia passou o dia inteiro a preparar-se para a passagem de ano: limpou a casa, cozinhou pratos tradicionais e pôs a mesa com todo o carinho. Era a primeira vez que não passava o réveillon com os pais, mas sim com o homem que amava.
Já vivia há três meses com António, num pequeno apartamento dele em Lisboa. António era quinze anos mais velho do que ela, divorciado, pagava pensão aos filhos e, de vez em quando, gostava de beber mais do que devia… Mas nada disso importava para Olívia, porque estava rendida ao seu encanto. Ninguém percebia bem o que via nele: estava longe de ser bonito, antes pelo contrário, tinha um feitio terrível, era mais agarrado ao dinheiro do que se podia imaginar e quase sempre andava teso. E, mesmo quando tinha, o dinheiro era só para ele. Mesmo assim, Olívia apaixonou-se por aquele milagre de homem.
Durante aqueles três meses, Olívia alimentava a esperança de que António reconhecesse o quanto era dedicada e prendada, convencendo-o assim a pedi-la em casamento. Ele próprio dizia sempre: Temos de viver juntos para ver se és mesmo boa dona de casa. Não quero outra como a minha ex. Mas Olívia nunca soube como era a tal ex-mulher, porque António preferia fugir ao assunto. Por isso, ela esforçava-se o melhor que sabia: não levantava a voz quando ele chegava bêbedo, cozinhava as refeições preferidas, lavava a roupa, limpava a casa e comprava tudo com o seu próprio dinheiro tudo para não parecer interesseira. Até a ceia de Ano Novo foi paga por ela e, como presente, ofereceu-lhe um telemóvel novo.
Enquanto Olívia cuidava dos preparativos, António também se preparava à sua maneira: saiu para beber uns copos com os amigos. Apareceu em casa animado e informou que para a celebração do Ano Novo vinham lá os seus amigos pessoas que Olívia nem conhecia. Faltava uma hora para a meia-noite, a mesa estava pronta, mas o ânimo de Olívia desaparecera. Ainda assim, continha-se para não lhe dizer tudo o que sentia afinal, não queria ser como a ex dele.
Meia hora antes do Ano Novo, entrou pela casa dentro um grupo barulhento e já bem regado de homens e mulheres. António ficou logo mais animado, puxou todos para a mesa e começou-se a festa. Nem se deu ao trabalho de apresentar Olívia aos convidados, que a ignoravam completamente, entretidos nas suas conversas e piadas. Quando Olívia sugeriu que estava quase na hora de brindar ao novo ano com espumante, uma das mulheres olhou para ela com estranheza, como se não percebesse o que fazia ali.
Quem é esta? perguntou uma rapariga, já com a voz arrastada pelo vinho.
É a vizinha de cama! respondeu António a rir, arrancando gargalhadas dos outros.
Comiam a comida que Olívia preparara e gozavam com ela. À meia-noite, troçavam da sua ingenuidade, elogiando António por ter arranjado uma empregada a custo zero. E António? Nem uma palavra em defesa de Olívia; ria-se junto com eles, lambendo-se com a comida que ela comprara e preparara, enquanto lhe faltava ao respeito.
Olívia saiu da sala em silêncio, juntou as suas coisas e foi para casa dos pais. Nunca tinha tido um Ano Novo tão triste. A mãe recebeu-a com um típico: Eu bem te avisei, e o pai respirou de alívio. Depois de chorar tudo, Olívia finalmente deixou de ver o mundo com óculos cor-de-rosa.
Uma semana depois, quando António ficou sem dinheiro, apareceu à porta dela como se nada fosse e perguntou:
Então? Ficaste amuada? Estás a fazer birrinha? E vendo que ela nem lhe respondia, ainda provocou: Que bonito! Agora ficas a coçar na tua mãe, enquanto eu passo fome! Começas a ficar igual à minha ex!
Olívia ficou sem palavras diante de tamanha lata. Tantas vezes tinha ensaiado o que lhe diria, mas agora só lhe saiu um Vai-te embora! e fechou-lhe a porta na cara.
E assim, naquele Ano Novo, a Olívia percebeu que o amor-próprio vale mais do que qualquer paixão cega e começou, enfim, um novo capítulo da sua vida onde o maior respeito vinha de si mesma.







