VIDA, COMO A LUA: ORA CHEIA, ORA MINGUANTE
Sempre pensei que o meu casamento era inabalável e eterno, como o próprio universo. Infelizmente estava enganada…
Conheci o meu futuro marido na Faculdade de Medicina, ainda éramos estudantes. No quinto ano, casámo-nos. A minha sogra, como prenda de casamento, surpreendeu-nos com uma viagem à Eslovénia (que naquela altura ainda era Jugoslávia) e as chaves de um apartamento. E isto era só o começo.
Ao tornarmo-nos marido e mulher, mudámo-nos imediatamente para um T3 espaçoso. O meu sogro e a minha sogra apoiavam-nos muito. Todos os anos, graças a eles, eu e o meu marido passeávamos pela Europa. Eu e o Artur éramos jovens e felizes. O futuro parecia risonho. Ele era virologista, eu médica de clínica geral. Era só trabalhar, tratar, amar. Vieram os nossos filhos: Tomás e Guilherme.
Hoje, ao recordar esses anos, percebo que a minha vida nessa altura era um rio cheio e sereno. Sem dúvida vivi na abundância ao longo dos dez anos que partilhei com o Artur. Depois, tudo desabou de um momento para o outro.
Um dia, ouvi a campainha tocar. Abri a porta e deparo-me com uma rapariga bonita, com um ar um pouco abatido.
Procurava alguém, menina? perguntei, tentando manter a calma.
A senhora é a Leonor? Então é mesmo consigo que preciso falar. Posso entrar? hesitou ela, um pouco nervosa.
Entre, já cheia de curiosidade.
Ao olhá-la de perto, reparei que estava levemente grávida.
Leonor, chamo-me Matilde. Tenho muita vergonha do que vou dizer, mas estou apaixonada pelo seu marido. O Artur também me ama. E vamos ter um filho, atirou de uma só vez.
Ora, isso é que não esperava. Só isso? comecei a ferver por dentro.
Não e tira do bolso do casaco uma caixinha bonita. Por favor, Leonor, aceite isto.
Abri a caixa e vi um anel de ouro.
Mas para quê? Acha que pode comprar o meu marido? O Artur não está à venda! Fique lá com o seu anel! fechei de imediato a caixa, já irritada.
Não quero ofendê-la, Leonor! Sei que vos vou magoar, a si e aos seus filhos. A minha mãe sempre me dizia: Filha, se te apaixonares por homem casado, vais acabar sozinha!. Mas eu não consigo viver sem o Artur. Por favor, aceite, talvez me alivie a culpa! e a Matilde desata a chorar genuinamente.
Por um segundo, até tive pena dela. Mas quem é que tem pena de mim? Roubou-me a felicidade, e ainda tenho de sentir compaixão por ela Recuperei a compostura, devolvi-lhe o pagamento e fechei-lhe a porta na cara. Bem, foi a partir desse instante que a minha vida resvalou
Logo a seguir, a sogra ligou a dizer que o Artur tinha decidido sair de casa. Dona Fernanda veio cá buscar as roupas do filho. Indiquei-lhe o armário, ainda incrédula. Ela arrumou tudo no mesmo saco de viagem que trouxe.
Leonorzinha, apesar de tudo, continuamos a ser família. O Artur e a Matilde, olha, são como borregos: vão para onde lhes apetece! tentou ela consolar-me.
Meio ano depois, a Matilde deu-lhe uma filha. Disseram-me depois que Artur tinha adotado a filha que ela já tinha do primeiro casamento. Em todo esse tempo, nunca veio ver os nossos filhos. Enviava uns trocos via a mãe dele; chamavam-lhe pensão de alimentos. Eram os tempos difíceis dos anos 90.
Acabei internada no hospital com um ataque de nervos. Os rapazes ficaram a viver com a avó, que os enchia de mimo e guloseimas. Quando saí do hospital, corri a buscá-los, mas recusaram-se a vir comigo. A avó faz comidas boas, não ralha, e nunca nos falta chocolate. Não tinha argumentos.
Dona Fernanda, abraçando-se aos netos, pediu-me:
Leonorzinha, deixa-os cá com o avô e comigo, pelo menos por enquanto. Vais ter de trocar o apartamento, não vai ser fácil, e eles ficam bem aqui. O Artur acha que não vais conseguir aguentar um T3 sozinha. Uma T1 chega-te, não chega?
Assim, sem grande cerimónia, fiquei sozinha na nova casa roubada do marido, agora eram os meus filhos Tive de trocar o T3 por um T1 minúsculo, velho, com paredes a descascar, casas de banho de outros tempos e chão de madeira que gemia ao menor passo.
Os meus filhos ficaram de vez com a avó. Só os podia ver em datas festivas.
Leonor, não perturbe o bem-estar deles aparecendo aqui sem avisar, dizia a sogra. Construa a sua vida.
Com o tempo, os rapazes foram-se afastando de mim. Aquela ligação de mãe e filhos perdeu-se durante muitos anos. A verdade é que só queria enfiar-me num canto escuro da casa e esquecer-me do mundo. Perdi o sabor da vida.
A minha avó repetia: A vida é como a lua: ora cheia, ora mingua. Sabia que aquilo não podia durar para sempre. Caso contrário, enlouquecia. Comecei a sentir que precisava de fazer algo completamente fora do normal, algo impulsivo. Farta de ser sempre certinha, vítima de todos. Afinal, tinha-me licenciado com honras em Medicina!
Um dia, no trabalho, convocaram-me para uma conferência em França. Lá conheci o Marko, médico sérvio. Ainda hoje não sei bem como nos entendíamos. Palavras nem eram precisas. Vivemos um amor louco durante dez dias.
Mas terminou e regressei a Lisboa. Não queria voltar, mas aquelas horas com Marko devolveram-me à vida. Senti-me de novo viva! Depois vieram outros encontros e desencontros, mas nada sério. Como se diz, coisas passageiras.
Um dia, ao ver-me, a sogra comentou:
Leonor, estás tão diferente! Mulher renovada!
Apesar de tudo, continuava sozinha. Uma grande amiga, ao emigrar de vez para a Grécia, chamou-me para uma última visita. A Margarida era solteira e sem filhos.
Pronto, Leonor, vou casar-me com um grego. Estou farta dos nossos bêbados. Quero ser feliz como mulher normal, confidenciou a chorar.
Porquê lágrimas, amiga? Aos quarenta tudo começa! não percebia o drama dela.
É assim, Leonor! O meu Alexandre está perdido. Quero que o conheças. Talvez consigas ajudá-lo Olha, levas! Fica para ti! disse, rindo-se.
Foi assim que o Alexandre acabou a ser meu marido. Só tinha um defeito, mas suficiente para abafar todas as qualidades: era alcoólico inveterado. Diz-se: bom será, mas é manco. Mas eu não conseguia viver sem ele! E começou
Narcologistas, centros de reabilitação, lágrimas minhas. Tudo em vão. Ele dizia:
Leonor, és tu que queres que eu pare de beber. Eu não quero.
Mesmo assim, nunca pensei largá-lo. Antes isto que amarga solidão. Por algum motivo decidi lutar pelo meu homem, tal como aquela Matilde lutou pelo Artur. Foram sete anos de batalha
Até que ele mudou. Arranjou trabalho como motorista no Instituto de Medicina Legal. O que vê todos os dias impressiona, mas eu sou feliz! Parece estranho, mas finalmente tenho um marido exemplar! Chega a casa calado, pensativo. O mais importante: sóbrio!
Quando a Margarida passa por Lisboa, exclama:
O Alexandre deixou de beber? Não acredito!
Ao que respondo a rir:
Troca ou devolução não aceito!
Os meus filhos cresceram. Agora têm pouco mais de trinta anos. Solteiros. Depois de tudo o que viram, dispensam o casamento. Tentativas não faltaram, mas não pegaram. Sinto que o capítulo dos netos vai ser complicado.
Quanto ao ex-marido: a Matilde, a segunda esposa, afundou-se no álcool e já ninguém a vê nos cafés do bairro. A filha deles cria sozinha o próprio filho. O Artur casou-se pela terceira vez, agora com a sua enfermeira do consultório. Mais tarde, antes desse casamento, até perguntou aos nossos filhos:
Acham que a vossa mãe aceitaria recomeçar tudo comigo?
A minha resposta foi como um carimbo: Só se choverem sardinhas em Agosto! Ou seja, nunca!







