Pobre Ovelhinha
– Olá, pais! entrou a correr em casa a Andreia num sábado vou casar-me, o Ricardo pediu-me em casamento e eu disse logo que sim, nem pensei duas vezes.
– Meu Deus, Andreia, já estás uma mulher feita exclamou a Leonor, olhando para o marido, o Manuel, que estava sentado, sério e calado, a digerir a novidade da filha.
– Claro, mãe! Eu acabei o curso, já estou a trabalhar em Lisboa. O Ricardinho também trabalha, por isso decidimos juntar os trapinhos.
O Ricardo rapaz da cidade os pais conheciam bem. Ele vivia com a mãe, Graça, também em Lisboa, um rapaz calmo e educado, a família já o conhecia há anos e não desaprovava.
A Leonor e o Manuel trataram de organizar o casamento. Afinal, viviam na aldeia, tinham o seu próprio quintal e galinhas. O Ricardo até tinha juntado uns trocos, mas o Manuel foi direto:
– Ricardo, guarda esse dinheiro, vai-te fazer falta para comprares casa, nós cá tratamos da boda pode ser que a tua mãe ajude com alguma coisa.
A mãe do Ricardo, a dona Graça, despachou logo:
– Olhem que não tenho grande coisa, sempre criei o Ricardo sozinha e vivíamos só do meu ordenado; dou um jeitinho para umas lembranças.
Os pais da Andreia não a criticaram, mas a Leonor ficou logo com o pé atrás. Decidiram fazer a festa de casamento num restaurante simples aí em Lisboa modesto, mas bonito e correu tudo bem.
Logo depois, os dois decidiram comprar um apartamento através de crédito habitação. O dinheiro para a entrada veio dos pais da Andreia; os sogros, mais uma vez, só boas intenções, mas nada de euros. Dona Graça estava sempre aflita com dívidas.
A Andreia e o Ricardo já moravam na sua casa, quando chegou a netinha Mariana. A Leonor e o Manuel, com cada reforma, compravam qualquer coisa para a bebé e levavam de tudo quando iam da aldeia: leite, ovos, hortaliças, batatas.
Às vezes a Leonor telefonava à Graça:
– Graça, olha lá, juntamo-nos e compramos um presente decente para a neta, uma criança precisa de tanta coisa a crescer.
– Ai Leonor, não tenho dinheiro nenhum, estou pela hora da morte até parecia que ia chorar sabes que sou sozinha.
No aniversário da Andreia os pais vieram da aldeia com sacos de batatas, cenouras, carne caseira. A sogra deu-lhe cinquenta euros e a Leonor torceu logo o nariz. Ela e o marido ainda deram duzentos e cinquenta de presente. Não lhes custava gastar com a família da filha, mas ficava-lhe sempre aquele amargo de a sogra não ajudar em nada.
– Manuel, por que é que somos sempre nós a não poupar nos filhos, e a Graça nada! E está sempre a carpir mágoas, o que me custa ouvir. Agora anda tudo fácil? Trabalhar é que é preciso, não é ter pena de si própria! Era esta mulher que tu querias, agarrada a ti e a chorar pelos cantos? Eu trabalho tanto como tu o Manuel só ouvia, conhecendo já de cor o jeito da esposa.
A Leonor reparava que a Graça andava sempre de unhas feitas, roupa nova, cabelo arranjado e perguntava-se: onde ia ela buscar o dinheiro? Porque diz que não tem e depois está sempre apresentável?
Mas a reação do Manuel surpreendeu-a:
– Ainda bem que uma mulher se cuida, a Graça faz muito bem. Por isso parece mais nova do que é.
A Leonor ficou fula:
– Claro, tem tempo até demais mora num apartamento, não tem jardim para tratar, não tem quintal, não cuida de galinhas. Porque não se havia de arranjar? Nós aqui, na terra, só trabalhamos: ora no quintal, ora a tratar dos animais, ora limpeza em casa e virou costas ao marido. Também vou começar a cuidar de mim, mas serás tu a pegar nas lidas da casa: tratas da vaca, limpas a horta. Mas já vejo que não te apetece muito isso.
O Manuel nunca foi de grandes discussões, preferia o silêncio. Se respondesse, bem sabia que ela lhe dizia ainda mais. Todos estes anos já sabia o feitiço da mulher. Nada mudou depois desse desabafo: ela fazia quase tudo, o Manuel ajudava aqui e ali, mas dedicava-se sobretudo ao trabalho de motorista.
A Mariana cresceu, fez três anos e foi para a creche, mas começou a adoecer muitas vezes. Decidiram então que a sogra, a Graça, podia ficar uns tempos com a neta, até ela ficar mais resistente.
– Eu fico, não me custa nada, estou reformada aceitou a Graça.
A Leonor ficou contente:
– Graças a Deus, ao menos por isto ajuda!
O tempo foi passando. De repente, a Leonor reparou que o Manuel andava a ir muitas vezes a Lisboa.
– Leonor, separa aí umas coisas: natas, ovos, batatas, levo à Andreia, tenho que ir à cidade comprar umas peças para o carro. Aproveito e vejo a Mariana.
Ela preparava tudo e sentia alegria por ajudar:
– Comprar em Lisboa é caro, cá tudo é do nosso quintal, bem melhor.
O Manuel regressava tarde. Antes também ia a Lisboa, ora para a oficina, ora para trazer coisas do supermercado, coisas que não havia na mercearia da aldeia. Mas agora demorava-se muito mais quando ia à casa da filha.
No início, Leonor nem ligou, mas começou a desconfiar:
– Ora o meu Manuel anda encantado com a Graça isto já me cheira a esturro vou ter que ver isto.
Na ida seguinte a Lisboa, Manuel preparou os cabazes e a esposa disse:
– Manuel, desta vez vou contigo, morro de saudades da Mariana. E queria passar no supermercado, ver umas coisas olhou-lhe nos olhos, ele ficou atrapalhado e não conseguiu inventar desculpa, só acenou.
No caminho, Leonor viu que o marido ia distante.
– Estás esquisito, passa-se alguma coisa?
– Nada, só me dói um bocado a cabeça respondeu, meio evasivo.
Chegaram ao apartamento da filha e foi a Graça que abriu a porta, de robe aberto, toda arranjada e sorridente. Mas, ao ver que Leonor vinha com o marido, o sorriso apagou-se num instante.
– Oh, não esperava visitas! Entrem e puxou o cinto do robe.
Brincaram um pouco com a neta, deram-lhe uma boneca, ela mostrou os brinquedos, depois adormeceu. A Graça então sugeriu:
– Temos chá? levaram bolo e maçãs.
Sentados à mesa, a Leonor reparou nos olhares nada discretos que a sogra atirava ao Manuel, e ele correspondia também.
– Vejam só, não se incomodam nem comigo ali, isto já está a ir longe demais pensou, aguentando-se bem firme.
– Vou lá fora fumar um cigarro avisou Manuel, levantando-se da cadeira.
Assim que ele saiu, a Leonor foi direta ao assunto:
– Olha, não me faças de parva nem de ovelhinha pobre, vejo muito bem o que se passa. Sei porque é que o meu marido anda sempre a esta casa e não é pela neta. Para com isso. Se queres homem, arranja alguém para ti e deixa o meu em paz! Tens vergonha nenhuma, andar aí com o marido da tua nora Se continuas, sou eu que venho cá ficar com a Mariana. E não estragues a vida ao teu filho com as tuas brincadeiras.
A Graça ficou vermelha como um tomate, não estava à espera daquela frontalidade da Leonor. Sempre tinha pensado nela como uma camponesa que não percebia nada do mundo, sempre agarrada à lida. Mas teve que engolir a vergonha.
Ao sair do apartamento, Leonor ainda atirou em tom duro, enquanto o marido já seguia à frente pelo corredor:
– Não me tomes por ignorante que não sou.
No caminho de regresso, Leonor desabafou com o marido:
– Mais não vais sozinho à cidade. Já percebi tudo e aquela coitadinha não se vai pôr mais a fazer-te olhinhos. Já a pus na ordem!
– Leonor, não inventes, não se passa nada! atirou-lhe o Manuel.
– Está bem, é como dizes respondeu ela. Mas não tens nada que visitar mulher sozinha. Se é para ver a Mariana, sou eu que fico com ela e tu ficas cá com as galinhas. E comigo só se fala uma vez.
Nesse dia a Andreia ligou, toda aborrecida:
– Mãe, porque é que foste malcriada com a dona Graça? Ela ajuda-nos imenso com a Mariana, estou-lhe tão agradecida. Tu és é ciumenta. Que tem o pai ir ver a neta?
Leonor sentiu-se magoada a sogra andava a virar a cabeça da filha.
– Filha, és nova, ainda não percebes muita coisa. E gostavas que o teu marido ficasse horas na casa da tua amiga, nas tuas costas? A sogra é crescida e devia perceber o que faz. Não se recebe o marido alheio sozinha, muito menos a sorrir dessa maneira. E olha, tens só uma mãe tudo o que o pai te dá, foi por minha insistência. Se a tua sogra não puder ficar com a Mariana, eu vou para Lisboa.
– Desculpa, mãe, é que ouvi a versão dela. Pelo que parece, ela vendeu-te como a culpada…
– Pois, mas não deixei nada por dizer toda encarnada ficou ela, não esperava! Achava que eu não percebia nada
– Pronto, mãe, agora percebo. Ela trocou as voltas todas.
A partir daí, Manuel ficou mais recatado, sempre avisava a Leonor se ia a Lisboa e, muitas vezes, era ele a pedir que ela fosse junto. A Leonor também gostava, aproveitava para ver mais vezes a Mariana. Agora o marido ajudava mais na pequena quinta e, às vezes, até lhe reservava um momento de descanso. Trabalhavam juntos na horta.
– Um homem ocupado não tem tempo para asneiras e ainda aprende a dar mais valor à mulher pensava Leonor, com um sorriso. Agora sobra-me algum tempo, também cuido de mim. Porque é que eu havia de ser menos do que a sogra?
Bem haja a todos por lerem, por apoiarem! Felicidades e alegrias para todos!







