Nove rosas vermelhas
A sogra apareceu para uma visita rápida, e o genro percebeu logo: não ia aguentar por muito tempo. Disse que ia ao banho público. Vestiu-se depressa e saiu.
Mas outra contrariedade cresceu diante dele: o balneário estava fechado para obras. E aí sim, o humor estragou-se de vez.
Voltar para casa, nem pensar!
Começou a vaguear pelas ruas. Entrar em lojas não lhe parecia coisa de homem. Sentou-se tristemente num banco de jardim.
De repente, reparou num casal. Devem andar pelos sessenta. Bem vestidos, davam passos demorados estavam mesmo a passear.
Ela ia de braço dado, trocando palavras baixinho.
O homem olhou e pensou: Têm conversa para dar e vender. Eu e a minha, quinze anos juntos, já não há nada para dizer. Temos é o silêncio.
O casal parou. O marido ajeitou com carinho o lenço ao pescoço da mulher. Continuaram o passeio.
O homem pensou então: Ora vejam, conseguiram guardar o amor. Nós já nem notamos a existência um do outro.
A mulher dele é pequenina, magra, daquelas que sempre parecem cansadas, que um dia deixam de se cuidar, contentando-se com pouco.
Trabalha na fábrica, tomam conta de dois filhos, sempre preocupada.
Anda de um lado para o outro, apressada, nunca se senta: há sempre alguma tarefa a chamar por ela. O velho robe, o cabelo desgrenhado. A casa conhecia-lhe o vaivém, na mão um pano, noutra a esfregona.
Já não sorri no rosto, só concentração, a expressão quase não varia.
Quase não pisa o salão de cabeleireiro. Quando a vergonha de sair à rua se impõe, lá vai ela.
O homem sentado no banco perguntava-se: Éramos tão apaixonados. Onde ficou tudo isso?
Tentou resgatar aquela sensação antiga, esquecida nos bolsos do tempo. Conseguiu: sentiu uma ternura suave.
A ternura varreu-lhe a alma, deixou rastos mornos. Deu-lhe pena da mulher, quis fazer-lhe um agrado.
Não era dia para ficar parado. O gesto tinha que ser já, sem pensar.
E, sabe-se lá porquê, pôs-se a andar apressado, sem rumo certo.
A resposta apareceu quase sem querer quase tropeçou num quiosque de flores: Comprar flores? Ela vai dizer que sou tolo, que gastei euros à toa em vegetais. Melhor era comprar uns ténis novos à Carolina, para a ginástica.
Hesitou, indeciso entre o impulso e a razão. Os sulcos doces que a ternura deixara no peito não paravam de doer levemente.
Fez-se homem: fosse o que fosse.
Entrou. A florista saudou-o com aquele olhar atento. Ele não comprava flores há mais de quinze anos. Talvez uma rosa só uma.
Por dentro, qualquer coisa sussurrava: Uma só, não conta nada.
Bateu com o pé no chão, teimoso: Nove. Quero nove rosas vermelhas!
Assustou-se: estarei louco? Mas já não havia volta a dar.
Saiu do quiosque. Pareceu-lhe que toda a gente o olhava de lado.
Ligou para casa, só para se certificar: Já foi embora a sogra?
Subiu as escadas com o coração a galopar era tudo estranho: Ela vai atirar-me à rua com as flores e tudo. Se se passa, atiro tudo ao lixo!
A mulher acabava de pousar o saco da farinha. Tinha as mãos limpas. Ele aproximou-se, ela nada percebia. Parou, calado, o peito cheio de ansiedade.
A mulher olhou e viu as flores. Ficou imóvel.
Leonor, isto é para ti. Apeteceu-me. Não te zangues?
Ela demorou a pegar, olhou como se visse um fantasma.
É para ti, Leonor.
Aproximou as flores do rosto, esboçou um sorriso tímido. Naquele instante, não existiam fábricas, trabalhos domésticos, nem anos passados.
Quase murmurou: Obrigada.
O vaso ficou ao centro da mesa. As nove rosas vermelhas iluminaram a sala.
Ela passou os dedos pelas pétalas, foi até ao espelho. Parou, ajeitou o cabelo. O rosto era outro agora – menos cansado, mais leve.
O marido aproximou-se e abraçou-lhe a cintura. Ficaram ali, em silêncio.
Por um instante, a mulher ficou parada, só por um instante.







