Olha, deixa-me contar-te o que me aconteceu, que ainda hoje me custa a acreditar… Depois do acidente de carro, fiquei internada no hospital em Lisboa, mesmo num estado frágil. Lembro-me que o Gonçalo o meu marido mal falava, ficava sempre encostado à parede como se não soubesse o que fazer. A minha sogra, Dona Lurdes, tomou logo conta de tudo: falou com os médicos, tratou dos papéis, decidiu quem podia entrar ou não. Eu estava tão fraca que não conseguia sequer responder-lhe.
Nesse dia, vejo a porta do quarto abrir-se claro, Dona Lurdes entra primeiro, toda formal, e pelo braço vinha a conduzir o meu filho, o Tomás, que só tem cinco anos. O miúdo vinha tão sério que quase nem o reconheci. Percebia-se que lhe tinham dito para estar calado e comportar-se como um crescido.
A minha sogra encostou-o à minha cama, olhou para mim com aquele sorriso forçado e disse que era só um bocadinho “para o menino não sentir saudades”, e depois afastou-se para a janela, como se quisesse dar-nos privacidade, mas eu bem sabia que ela estava ali de olho.
O Tomás subiu devagarinho para a minha cama, ficou encostado a mim todo desajeitado, e tirou de dentro do casaco uma garrafa de sumo de laranja. Entregou-ma com mãos trémulas, e senti um aperto no peito. Ele então aproximou-se do meu ouvido, tapou a boca com a mão como fazem os miúdos, e sussurrou:
A avó disse para tu beberes isto mas pediu para eu não dizer nada a mais
Apanhei um susto. O sumo estava frio, com aquela cor laranja, mais vivo do que qualquer coisa que servem no hospital. Nesse instante, senti os olhos do Gonçalo atrás de mim; ele tinha acabado de chegar e estava parado à porta, e a Dona Lurdes continuava a fingir que olhava para a rua, mas eu sabia que estava completamente atenta.
Pousei o sumo na cama e, discretamente, virei-o e deixei escorrer para o chão, como se tivesse bebido. E ali decidi: tinha de perceber o que estava a acontecer porque é que a Dona Lurdes queria tanto que eu bebesse aquilo, e através do meu próprio filho.
Quando eles saíram, não consegui parar de olhar para aquela mancha laranja no chão. Tinha os pontos da operação ainda frescos, já tinha perdido algum sangue, e ouvia os médicos repetirem sempre que qualquer coisa fora do plano deles podia ser perigosa.
No dia seguinte, com muito cuidado, pedi ao médico de serviço para analisar aquele sumo nem lhe disse porquê, só disse que tinha dúvidas. Passou-se o resto do dia, até que ao fim da tarde o doutor entrou com um ar cinzento.
Disse-me que encontraram lá dentro medicamentos para afinar o sangue, daqueles que provocam hemorragias. Para uma pessoa saudável, provavelmente não matava. Mas para mim, ali, com tudo tão recente, podia ser fatal podia morrer de uma hemorragia interna, e nem dariam por isso a tempo.
O médico perguntou-me, muito sério, quem me tinha dado o sumo. Contei-lhe toda a verdade. Ele fechou o dossier, olhou-me nos olhos e disse baixinho que, se eu tivesse bebido metade daquilo, provavelmente à noite já lá não estaria.
Foi nesse instante que percebi tudo. A Dona Lurdes falava com os médicos, sabia perfeitamente do meu estado, dos pontos, das restrições. Sabia ao que ia.
E mesmo assim, trouxe o Tomás. Deu-lhe a garrafa. Disse-lhe para não me contar nada.
Quando o Gonçalo regressou, entreguei-lhe o resultado da análise numa folha. Ele ficou pálido, olhou para a folha, depois para mim, como se não conseguisse acreditar.
A mãe disse que era só sumo, para te dar força murmurou ele, atrapalhado.
Fiquei calada. Porque naquele momento eu já entendia que, quando saísse dali, não ia ser só uma mulher de alta hospitalar. Ia sair uma mulher diferente uma que nunca mais vai deixar ninguém destes aproximar-se outra vez. E a verdade a verdade foi um susto de morte.







