Conduzia pela estrada nacional ladeada por pinhais gelados, quando de repente uma alcateia de lobos …

Lembro-me como se fosse hoje, apesar de tudo ter acontecido há tantos anos, numa daquelas noites geladas do inverno transmontano. Ia eu pela antiga estrada nacional, ladeada pelo pinhal coberto de neve, quando de repente toda a calmaria se quebrou naquele instante que nunca esquecerei…

A noite era fria, as árvores alinhavam-se dos dois lados do asfalto, desenhando sombras estranhas sob o facho dos faróis. Quase não passavam carros, só o silêncio e a neve traçando caminhos pelos meus pensamentos. Relaxada, deixei a Amália Rodrigues a cantar baixinho no rádio, enquanto divagava sobre a vida.

De repente, tudo mudou num ápice. O vermelho vivo dos travões diante de mim iluminou o breu, obrigando-me a uma travagem brusca. Apertei o pedal até ao fundo; senti o coração quase saltar fora do peito, como se a alma me fugisse pelos dedos das mãos, brancas de tanto agarrar o volante.

Credo… murmurei, ainda a tentar perceber o que se passava.

Foi então que vi: uma matilha de lobos saía serenamente do bosque, ocupando toda a estrada. Não um, não dois, mas muitos suas silhuetas cinzentas recortadas na brancura da neve. Os olhos brilhavam, refletindo o amarelo dos faróis e, por um breve momento, pareceu-me que observavam cada gesto meu.

Fiquei petrificada. Os lobos aproximavam-se, impassíveis, seguros de si. Um deles, maior e mais robusto, parou mesmo à frente do meu carro e fitou-me. O tempo pareceu alongar-se, só existíamos eu e aquela fera misteriosa, olhos-no-olhos.

Tentei recuar, mas, pelo espelho, percebi que também estavam por trás, dos lados, em todo o lado. Cerco absoluto. O meu peito apertado mal deixava o ar entrar, os dedos endurecidos no volante.

Então, subitamente, o silêncio foi rasgado. O lobo maior lançou-se sobre o capô com um salto impressionante. Senti o peso a deformar o metal, ouvi o arranhar das garras e os rosnados cavoquejantes contra o vidro. Era um som tão primal, tão profundo, que estremeci até aos ossos. Gritei, incapaz de controlar o pânico.

Nunca me hei-de esquecer: eu naquele carro, cercada de neve, lobos por todo o lado, e um, enorme, cravado no capô, pronto a rebentar o vidro. Pensei: É o fim. Já imaginava o vidro a estilhaçar-se e as bestas a entrarem.

Mas, quando tudo parecia perdido, aconteceu algo verdadeiramente fora do comum…

Do pinhal ecoou um som grave e profundo não era um uivo, mas quase um chamamento ancestral, que me atravessou de lado a lado. O lobo no meu capô ficou estático, ergueu as orelhas e, em segundos, desviou o olhar.

Das sombras emergiu então o chefe da alcateia. Era imponente, majestoso, cada passo transmitia autoridade e calma. Aproximou-se, sem pressa nem raiva, parou no meio da estrada e olhou para os seus companheiros.

Bastou-lhe esse olhar firme, silenciosamente impositivo. O lobo saltou do capô, recuou, e toda a matilha, um a um, seguiu-o de volta ao bosque. Sem barulho, sem alvoroço, só a obediência cega ao chefe.

Naquele instante, vi claramente: aquilo não era um ataque, era uma ordem. Era como se ele dissesse: Não. Os humanos não são presa. Os carros não são ameaça. E todos acataram. O último a desaparecer entre as árvores foi o chefe. Antes de desaparecer, parou, olhou-me fixamente e naquele olhar calmo, onde não via ódio mas uma vastidão de sabedoria antiga, senti uma mensagem inexplicável.

Só depois de a floresta os engolir voltei a respirar, com as mãos ainda a tremer e o corpo colado ao banco. Pensei: se não fosse aquele lobo, tudo teria acabado de outra maneira… Nunca mais voltei a olhar os lobos, nem a floresta, da mesma forma.

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Conduzia pela estrada nacional ladeada por pinhais gelados, quando de repente uma alcateia de lobos …
Aos catorze anos já enfrentava enxaquecas hemiplégicas, crises raras que podem deixar metade do corpo paralisada.