Aos catorze anos já enfrentava enxaquecas hemiplégicas, crises raras que podem deixar metade do corpo paralisada.

Aos catorze anos, já me debatia com enxaquecas hemiplégicas, crises raras que podem deixar metade do corpo inutilizada.

Tudo começou aos catorze anos, quando fui diagnosticada com enxaquecas hemiplégicas um tipo tão raro que grande parte dos médicos portugueses só estudou nos livros. Durante anos, estas crises surgiam uma vez por mês, tirando-me a força do lado esquerdo do corpo e arrastando as palavras como se tivesse sofrido um AVC. Mas, ao fazer vinte e quatro anos, tudo mudou. As dores deixaram de seguir um padrão e, subitamente, instalaram-se na minha vida sem data de saída. Crónicas. Imprevisíveis. Assustadoras.

Chamo-me Benedita Ferreira e cresci em Coimbra. Antes das enxaquecas, era coordenadora júnior de projetos num gabinete de arquitetura em Lisboa que crescia a olhos vistos. Adorava o meu trabalho, vibrava com a adrenalina dos prazos e com o propósito que aquele ambiente me dava. Mas quando a dor passou a ser diária fosse uma pressão lancinante atrás do olho ou uma vaga de sintomas neurológicos que me deixavam sem conseguir mover o braço o meu mundo foi-se encolhendo, de um dia para o outro. Durante quase três anos, os médicos testaram tudo o que podiam justificar. Engoli dezenas de comprimidos com nomes intermináveis. Levaram-me a injeções de botox no couro cabeludo e maxilar. Fizeram bloqueios nervosos, procedimentos dolorosos que só me davam esperança durante uma semana, antes de tudo voltar ao mesmo.

Nada resultou.

Havia dias em que não conseguia sequer levantar a cabeça da almofada. Dias em que o meu marido, Fernando, tinha de me ajudar a entrar no duche, porque a fraqueza do meu lado esquerdo me fazia temer cair. Perdi o emprego, depois a minha independência e, a pouco e pouco, para meu horror, a confiança em mim própria. Acabei por me agarrar ao único alívio: os analgésicos fortes. Detestava tomá-los, mas não aguentava sem eles. Com eles, consegui regressar ao trabalho a meio-tempo. Mal e porcamente.

Foi então que, há dois ou três anos, os médicos começaram a sugerir uma alternativa. Estranha. Desesperada.

Gravidez.

Três neurologistas disseram-me o mesmo: para mulheres como eu, uma gestação até ao fim pode servir de reinício hormonal. Não conseguiam replicar esse efeito com medicamentos ou hormonas sintéticas. Só havia uma maneira.

Eu e o Fernando ficámos atónitos. Queríamos ser pais um dia, mas não assim, não como cobaia de um tratamento. É um risco, admitiu a Dra. Ribeiro. Mas pode acabar definitivamente com as enxaquecas.

A ideia apavorou-nos. Mas continuar como estava apavorava-me ainda mais.

Assim começou a decisão mais difícil da minha vida.

Durante meses evitámos o assunto. Sempre que era invadida pela dor, ou quando deixava de sentir o braço, ou deixava cair um copo, ou os pensamentos se enrolavam e eu não formava frases, o Fernando abria a boca como se fosse falar, mas voltava atrás. Nenhum queria dizer o que ambos sabíamos.

Valeria a pena arriscar colocar uma criança no mundo, se a minha condição não melhorasse?

A Dra. Ribeiro explicou tudo, ácida e cientificamente: os riscos da gravidez com enxaquecas hemiplégicas, as complicações possíveis, a probabilidade de não mudar nada no pós-parto. Mas também me disse outra coisa. Benedita, disse baixinho, já vi isto funcionar. Não posso prometer que resulte contigo. Mas já vi acontecer.

A ideia ficou presa na minha cabeça, como uma pedra impossível de tirar.

Numa noite, depois de uma crise violenta, fiquei deitada no chão frio da casa de banho, a testa colada ao mosaico. O lado esquerdo mole, a voz desfeita. O Fernando sentou-se a meu lado, a fazer festas no meu cabelo. Quando a paralisia acalmou, murmurei: Já não aguento viver assim.

Ele não tentou contrariar-me.

Falámos durante horas. Sobre o medo. Sobre a responsabilidade. Sobre o nosso eventual bebé se seria justo ter um filho numa altura em que eu era tão instável. No fim, o Fernando disse algo que nunca vou esquecer: Se isto te der uma hipótese de voltares a viver de verdade o nosso filho nunca vai crescer a achar-se um peso. Ele vai saber que te salvou.

Foi nesse momento que decidimos.

A gravidez não foi um passeio. Foram sete meses de tentativas, consultas, análises atrás de análises e uma montanha-russa de emoções que nos deixou de rastos. Quando o teste finalmente deu positivo, chorei tanto que o Fernando achou que algo tinha corrido mal. Eram lágrimas de alívio. De receio. De esperança.

O primeiro trimestre foi duro. As hormonas oscilaram sem aviso. Uns dias acordava cheia de energia, outros enjoada e a tremer. As enxaquecas não desapareceram, mas algo mudou subtilmente. As crises ficaram menos frequentes. A paralisia dissipava-se mais rápido. A dor era ligeiramente mais suportável. Um detalhe minúsculo, mas depois de anos sem esperança, era um milagre.

Quando estava grávida de seis meses, os ataques diários transformaram-se em dois ou três por semana. Não desapareceram, mas eram geríveis. Vivíveis.

A primeira vez que passei um dia inteiro sem enxaqueca, desatei a chorar na caixa do Pingo Doce. A funcionária olhou-me como se estivesse maluca, mas não liguei. Fazia quase cinco anos que não sentia tanta liberdade.

O Fernando voltou a sorrir. Eu comecei a funcionar novamente. Demos espaço ao otimismo, mesmo que frágil.

Mas a gravidez ainda tinha mais para me ensinar.

No sétimo mês, tive um episódio estranho: perdi completamente a visão durante quase um minuto e, quando voltou, já não sentia nenhuma das mãos.

Foi quando as médicas disseram a palavra que eu tanto temia.

Pré-eclâmpsia.

O diagnóstico caiu como um balde de água fria. Aquela gravidez que devia curar-me transformou-se numa emergência. A pré-eclâmpsia era tensão alta, perigo para o bebé, perigo para mim. Com o meu historial neurológico, tudo ficou ainda mais complicado.

Fui internada no Hospital da Universidade de Coimbra para vigilância apertada. O quarto cheirava a desinfetante e ao ar frio do inverno que entrava pela janela. As máquinas apitavam sem descanso. As enfermeiras tiravam-me sinais vitais de hora a hora. Odiava estar outra vez num lugar onde não confiavam que eu fosse autónoma.

Mas, estranhamente, mesmo com medo, as enxaquecas não pioraram. Pelo contrário, começaram a abrandar, como se o meu cérebro finalmente tivesse desistido.

O problema era a tensão sempre a subir.

Os médicos começaram a debater induzir o parto antes do tempo. Queremos ir o mais longe possível, disse-me a Dra. Ribeiro, mas estamos atentos. Os teus sintomas estão mesmo no limite.

Os dias passaram, cada um era um braço de ferro entre o meu corpo e o relógio. O Fernando praticamente mudou-se para o hospital, a dormir na poltrona apertada, a comer sandes da máquina, de mão dada comigo a cada medição.

Então, às 35 semanas, tudo desmoronou. As minhas tensões dispararam. Apanhei uma dor de cabeça tão forte que pensei que voltavam as crises hemiplégicas, mas não era paralisia era pressão, inchaço, algo diferente.

A obstetra entrou, serena mas sem margem para dúvidas: Benedita, temos de provocar o parto. É hoje.

Olhei para o Fernando, cheia de medo. Não é cedo demais? Ela vai ficar bem?

Ela é forte, sussurrou ele, embora a voz lhe saísse entrecortada.

A indução começou logo. O bloco de partos parecia demasiado brilhante, demasiado cheio de máquinas e pessoas preparadas para qualquer complicação. Ligaram-me ao sulfato de magnésio para evitar convulsões; sentia o corpo a pesar, como se a gravidade tivesse duplicado.

Doze horas depois uma eternidade , às 3h12, a nossa filha Leonor nasceu, com um choro furioso que fez sorrir toda a equipa.

Era pequenina, mas saudável. Viva. Perfeita.

Acolhi-a ao peito, pele com pele, lágrimas a deslizar-me pelo rosto. O Fernando beijou-me a testa, sussurrando: Conseguiste. Ela está aqui.

O milagre maior viria mais tarde.

Dois meses depois, sentado de madrugada na cadeira do quarto dela, a embalar a Leonor para adormecer, reparei que não tinha tido enxaquecas há semanas. Nem sequer uma dorzinha.

Ao fim de quatro meses, já iam noventa dias sem ataques.

Aos nove meses, a neurologista declarou as enxaquecas hemiplégicas em remissão.

Voltei a trabalhar a tempo inteiro. Voltei a correr. Voltei a fazer planos para o futuro sem temer acordar paralisada.

Às vezes, altas horas, olho para a Leonor a dormir e pergunto-me como algo tão pequeno conseguiu restaurar toda a minha vida. Os médicos tinham razão: a gravidez mudou tudo. Não de um dia para o outro. Não por magia. Mas devagar, como o nascer do sol: não se vê minuto a minuto, mas o milagre é inegável quando olhamos para trás.

As enxaquecas não desapareceram de um momento para o outro.

Libertaram-me.

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Aos catorze anos já enfrentava enxaquecas hemiplégicas, crises raras que podem deixar metade do corpo paralisada.
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