Eu e o Tiago conhecemo-nos quando ambos tínhamos vinte e sete anos. Nessa altura, o Tiago já tinha concluído a licenciatura com distinção e preparava-se para defender a tese. Sempre foi um aluno brilhante. Entretanto, já tinha conseguido juntar dinheiro suficiente para comprar um T2 e uma garagem. E depois de terminar o curso, planeava comprar carro. Um ano depois, casámo-nos. E passados mais um ano e meio nasceu a nossa filha. Quando fizemos trinta anos, a nossa bebé já tinha dois meses.
Com a aproximação do aniversário dele, sugeri celebrarmos num restaurante, juntamente com os pais dele. Mas ele recusou. Disse que preferia festejar só connosco, com as suas mulheres.
Assim fizemos. No dia seguinte, ao sair do trabalho, foi visitar os pais. Mas regressou rapidamente. Sentou-se no sofá e começou a chorar. Fiquei em choque. Um homem feito, independente, pai de família, a chorar como se fosse um miúdo. Fui tentar acalmá-lo e dar-lhe algum consolo. E, de repente, o Tiago abriu-se comigo. Confessou que, em criança, era castigado fisicamente pelos pais ao mais pequeno deslize: por jogar à bola, por sujar a roupa, por manchar os cadernos… Tanto o pai como a mãe lhe batiam.
Quando cresci, deixaram de me bater, mas nunca ouvi da parte deles uma palavra de carinho. Acabei o secundário com a melhor média.
Não é nada de especial, só o secundário. Vais ter que ir para a faculdade. E lá foi o Tiago, mesmo sem ter grande vontade de tirar um curso superior.
Comprou casa.
Só tem cinquenta metros quadrados.
Isto apesar de eles viverem numa casa com trinta metros quadrados. Casou-se.
Mulher tão magra e baixinha, será que consegue ter filhos?
Teve uma filha.
Nem sabemos de quem é aquela criança. Não tem nada nosso!
E por fim, os pais ficaram ofendidos por ele não ter organizado um jantar em honra do aniversário de casamento deles.
Filho ingrato!
Foi o veredito deles. E então o Tiago virou-se para mim:
Serei assim tão mau filho que eles não conseguem gostar de mim? Expliquei-lhe que há pessoas que não sabem amar. Teve azar de nascer numa família assim. Mas agora tem a mim e à nossa filha. Nós amamo-lo muito. Porque ele é mesmo o melhor marido e o melhor pai do mundo.
Não reparas no quanto a tua filha sorri quando chegas a casa depois do trabalho? E o Tiago, ao lembrar-se do olhar radiante da nossa menina ao ver o pai, acalmou-se. Pouco depois, esboçou um sorriso também.





