Recordo-me de um episódio marcante que presenciei há muitos anos atrás, envolvendo um jovem motorista de autocarro da rodoviária, com apenas 25 anos de idade. Foi um gesto que jamais esqueci.
Numa manhã calma, ao pararmos numa paragem em Aveiro, entrou uma senhora de idade bastante avançada, talvez com uns 80 anos. Assisti com atenção enquanto ela tirava um lenço dentro dele estavam, claro, algumas notas de euro cuidadosamente dobradas. Contou o dinheiro certinho e pediu ao motorista, com um sorriso afável, para lhe avisar na próxima paragem, junto à mercearia da rua principal. Ele acenou com a cabeça, muito cordial, e seguiu viagem.
Quando chegámos ao destino, a senhora preparou-se para pagar e agradeceu-lhe com carinho:
Obrigada, meu filho.
Mas o jovem recusou o dinheiro! Pegou antes na sua carteira, avisou que já voltava, e num abrir e fechar de olhos correu até à mercearia próxima. Quando regressou, trazia um saco com quatro litros de leite, natas frescas, pão quente, esparguete e carne! Tudo isso entregou à senhora. Ela, emocionada, tentou recusar dizendo:
Não vale a pena, a minha reforma ainda dá para o pão e o básico.
O rapaz insistiu:
Se não aceitar, deito tudo no lixo.
A senhora, incapaz de conter as lágrimas, agradeceu-lhe e desejou-lhe sorte na vida. O motorista entrou de novo no autocarro. Só então uma passageira, provavelmente na casa dos quarenta, comentou alto e em tom sarcástico:
Valeu mesmo a pena gastar o seu dinheiro e atrasar-nos só para ouvir uns obrigados?
O rapaz virou-se sem hesitar, abriu a porta e pediu-lhe que saísse do autocarro, lançando-lhe estas palavras:
É por causa de pessoas como a senhora que os mais velhos acham que os jovens de hoje não têm princípios, pois não souberam ensinar nada além de ganância e falsidade aos seus filhos!
A mulher saiu do autocarro completamente vermelha, como um tomate maduro. Naquele momento, senti orgulho por existirem jovens assim em Portugal. Oxalá houvesse mais como ele!






