Exame para Adultos — Quando o Coração Fala Mais Alto: Entre o Sucesso Profissional, a Família e a De…

Exame para adultos

Ritinha, porque é que não vens celebrar connosco o fim do projeto? perguntou Luís, sorrindo, com um piscar de olho maroto.
Porque, meu caro amigo, hoje tenho um encontro, respondeu Rita, sem esconder algum embaraço.
Ora, isso sim é novidade! Luís ficou espantado. Conhecia Rita há cerca de cinco anos, sabia que ela era mãe solteira e sempre lhe parecera que não estava à procura de homem nenhum… Estranho. Ou talvez andasse. Era ele, Luís, que nunca tinha reparado. Então não te vamos prender aqui, que corra tudo bem, disse ele, voltando-se para os restantes colegas. E então, vamos?
Bora lá.
Não temos tempo a perder!
Claro! ouviram-se vozes animadas, e todos seguiram para o café da esquina.

Luís seguiu com o grupo, sorrindo para todos, mas lá no fundo sentiu aquela picada de ciúme. Mas qual ciúme, afinal? Entre ele e Rita nunca houve nada que não fosse puro profissionalismo e amizade.
“Que coisa estranha”, pensou Luís.

***

Nesse dia, Luís chegou a casa muito mais tarde do que o costume. Assim que entrou, os filhos correram para ele aos gritos: O pai chegou! O pai chegou!. Logo a seguir veio a esposa.
Luís! Finalmente! exclamou Joana, abraçando-o e dando-lhe um beijo.
Aproveitámos bem o tempo e até construímos um navio espetacular. E tu sempre fora, sempre em reuniões, Joana sorriu.
Alguém tem de trazer os euros para casa, resmungou Luís. E além disso, tenho direito de ficar a trabalhar até à hora que quiser!
Tens toda a razão, concordou Joana, compreensiva.
E não quero interrogatórios, ainda resmungou ele, com carranca.
Se alguém perguntasse a Luís, naquele momento, porque falava assim, nem ele saberia explicar.
Luís, o que se passa contigo? perguntou ela, sorrindo sem perder a calma.
E Luís percebeu exatamente o que o movia. Queria vê-la perder aquele sorriso que tanto o irritava agora, e que ela sentisse o mesmo mal-estar que o consumia por dentro.
Nada. Só estou cansado. Põe o jantar a aquecer, tentou dizer num tom neutro e, assim que Joana se dirigiu à cozinha, sentou-se no banco do corredor, apertou a cabeça nas mãos e sentiu um nó no peito.
“O que é que estou a fazer à minha vida?”, pensou, aterrorizado.

***

Passaram uns dias e Luís deixou-se disso. Convencera-se de que aquela dor não era mais do que desapontamento por não ter conseguido reunir todos para celebrar o projeto.
Agora, mergulhava de cabeça num novo desafio.

***

Rita, se calhar hoje precisas de ficar até mais tarde, avisou ele. Preciso que me entregues os relatórios.
Olha, hoje não dá mesmo, Luís. Tenho de ir ver a minha mãe, abanou a cabeça Rita. É importante para mim. Amanhã venho mais cedo e trato disso.
Pronto, combinado. Luís assentiu.
Mas, na verdade, ficou indisposto. Como assim? O projeto era importante! Nada podia ser mais urgente
Está a tua mãe doente? perguntou Luís.
Sim, está respondeu Rita, baixando os olhos.
Compreendo, acenou ele. Por uma mãe doente, abria exceção.

Só que depois soube pelas colegas que não era nada disso. Que Rita inventara aquela desculpa para não ficar.
Como assim? Então não vai ver a mãe? admirou-se ele.
Não vai sozinha, vai com o namorado! revelou Helena, chamando-o à janela. Olha ali…
Luís aproximou-se. Viu Rita sair do prédio, onde um jovem a esperava junto ao carro. Deram-se as mãos e seguiram juntos.
Nesse instante, um ciúme violento invadiu-o.
“Meu Deus! É verdade! Ela arranjou mesmo alguém!”, ecoou-lhe na mente.
Bem, esforçou-se por soar indiferente. O expediente termina às seis, é normal irem à vida deles.
Sentou-se diante do computador, mas o pensamento não largava Rita.
***

O tempo avançava. Luís estava cada vez mais inquieto. Só de ouvir a voz ou ler uma mensagem de Rita, o coração disparava tal como batia anos antes, quando se apaixonou por Joana.
“Será possível que me apaixonei?”, perguntava-se, entre o medo e o riso. Tentava ignorar, como adulto que era. Tinha acabado de fazer 40 anos. Tinha uma família. Gostava da mulher. Ou gostara agora era mais respeito, gratidão, afeição. O amor louco, quente, tonto já passara. Talvez passe a todos

A inquietação aumentou. Mal via Rita aproximar-se, endireitava-se automaticamente, desejando que olhasse para ele. Iniciava conversas, pedia opiniões, depois analisava cada frase, cada gesto, como se ali estivesse escondida uma resposta.
Perguntou-se um dia: E se a tivesse conhecido antes? Antes de nascerem os filhos?
E a resposta caiu nele como um raio: Sim. Teria seguido outro caminho. Não de repente, mas acabaria por ir. Por ela, largaria tudo.
A culpa então abateu-se sobre si, esmagadora.
Olhou para a fotografia de família na estante do escritório: Joana, os meninos, todos juntos na praia e tão felizes. Tudo certo. Tudo no lugar. Porque é que agora sentia estar a viver a vida de outra pessoa?
Não sabia explicar. Porque agora? Porque Rita? Já trabalhavam juntos há anos e só agora? Porque não conseguia esquecer, deixar de pensar nela?
Sentia o seu mundo desmoronar. Os valores firmes de antes caíam um a um. Não queria trair ninguém, nem perder a família, nem deitar tudo fora mas não conseguia deixar de sentir o que sentia.

***

Nessa manhã, acordou cedo. O quarto ainda escuro e só uma nesga de luz entrava pelas cortinas.
Deitado a olhar para o teto, Luís não conseguia afastar Rita da cabeça. Nem por um minuto. Até naquele silêncio confortável em casa, sentia a presença dela cá dentro, como uma farpa enterrada fundo.
Lembrou-se do dia anterior: ela saíra mais cedo. De novo, com aquele rapaz. Sempre, quando a via partir, algo se rasgava dentro dele.
“Estou a perder-me, pensou. Se não travar isto, perco tudo. Devagar, vou secar por dentro, deixar de ser quem era, afastar-me dos filhos, de Joana e odeio-me só de o imaginar. Depois será tarde demais.”
Levantou-se, vestiu-se, foi para a cozinha fazer café. Olhou lá para fora a rua deserta, o céu cinzento, um silêncio que mais parecia solidão. Aí tomou a decisão.

***

Como assim, vai para outro departamento? rodearam-no todos, até Rita estava presente.
Há um problema grave lá, vou tentar ajudar a resolver, explicou Luís.
Então é só temporário, não é?
Claro, claro que sim, acenou Luís, sabendo bem que o temporário é sempre muito longo.
Chegou a ponderar despedir-se, mas aquela empresa pagava-lhe bem e havia futuro. Por isso, pediu transferência nem que fosse só por uns meses.
Seria a fuga do círculo vicioso, onde cada palavra ou olhar de Rita virava tempestade.
Não queria ser desses que deitam tudo a perder por um capricho e depois desculpam-se: “Sou só humano”
Sabia que ia doer, mas havia de passar.
Nessa noite disse a Joana:
Quero passar mais tempo contigo e com os miúdos. Não quero andar sempre fugido no trabalho.
Joana olhou-o, surpreendida.
A sério?
Sim. Sinto que estou a perder o que de mais importante há na vida.
Ela não respondeu, apenas sorriu de leve aquele sorriso tão dela, tão casa, que o fez estremecer de emoção.

A partir daí, começou a ir buscar os miúdos à escola, acompanhava-os ao parque, não faltava mais a uma festa do colégio. Começou a falar com Joana sobre tudo, até sobre as inquietações e os dias difíceis. Interessava-se, genuinamente, pela vida dela.
Às vezes perguntava-se: “Por que nunca o fiz antes? Porque via isto como obrigação, e não privilégio?”
Não deixou de pensar em Rita, de todo. Mas as lembranças foram rareando. Quando a via, só sentia um leve murmurinho. Não dor, não ciúme. Apenas nostalgia uma antiga hipótese recusada. E agradecia ter feito aquela escolha.
***

Luís! Oh, Luís!
Luís caminhava no centro comercial a caminho da loja de brinquedos, quando ouviu o nome gritado. Virou-se: era Rita.
Luís! Onde te meteste? O departamento todo esperava o teu regresso. Já passou um ano!
Luís sorriu. Recordou aqueles tempos, mas sentiu apenas alegria pela sua presença nenhuma mágoa.
Olá, Rita. É bom ver-te!
Como estás? perguntou ela.
Estou bem. Aliás, muito bem, disse, sentindo que, pela primeira vez, era mesmo verdade.
Nunca voltaste porquê? Sempre foste o melhor chefe.
Precisava de mudar de vida, atirou, sucinto. E tu?
Casei-me. Ele é bom homem, mesmo. A minha filha adora-o.
Luís assentiu, sem ciúme. Só um ligeiro espanto, como quando se encontra um velho amigo diferente do que se lembrava.
Fico feliz por ti, disse, com sinceridade.
Conversaram só um pouco mais o suficiente para pôr as novidades em dia, sem convite para café, sem tentar esticar o reencontro. Ambos sabiam: era mesmo o fim. Ou talvez um princípio, mas longe um do outro.
Despediram-se; Luís comprou o presente, saiu, entrou no carro. Só então percebeu: já não sentia nada por Rita. Nem dor, nem palpitação. Não havia mais vontade de largar tudo.
Olhou em frente o sinal vermelho, as pessoas a atravessar, crianças de mão dada e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se exatamente no lugar certo.
Não numa vida inventada, nem num conto de fadas mas na sua vida. Real. Complicada. Sua.

***

Rita e Joana estavam na passadeira do ginásio. Iam sempre às mesmas aulas, acabavam por se cruzar.
Como foi o vosso reencontro? perguntou Joana.
Rita deu de ombros.
Foi só isso. Desejou-me felicidades. No fundo, a vencedora és tu, disse, olhando para Joana. O teu marido é um homem incrível.
Eu sei, respondeu Joana, com um sorriso cúmplice, e piscou-lhe o olho.

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Conheci o meu marido no dia do próprio casamento dele