A mulher, que se chamava Mafalda, desconfiava há meses que o marido a traía. Tantas reuniões de última hora, tantas viagens ao armazém buscar ferramentas, tantos cheiros no casaco dele que não batiam com nada em casa. Aguentou calada, a observar, até tomar coragem e contratar um detetive privadoprometeu-lhe provas em dois dias, nada mais. E naquela manhã, o telemóvel apitou: mensagem curta, só morada. Vá já. É urgente. Precisa de ver tudo com os seus olhos.
A Mafalda conduziu durante quase uma hora, afastando-se cada vez mais de Lisboa, cruzando subúrbios enevoados, estradas vazias de sentido, até a rua se tornar numa vereda de terra. O coração, descompassado, parecia quase colar-se ao vidro do carro.
No interior da mata, sentia-se uma névoa húmida, e a cada quilómetro via o mundo à volta derreter à medida do medo e da incerteza. Imaginou, no seu delírio, encontrar uma vivenda escondida de paredes brancas, um Fiat do marido mal estacionado ao portão. Quem sabe até ouvir gargalhadas atrás dos canteiros.
Mas ao vislumbrar uma estrutura antiga em tijolo vermelho, isolada entre pinheiros, o estômago encolheu-se num nó. Havia ali qualquer coisa de opressivo e familiar, como um sonho passado esquecido. Parecia um velho celeiro ou um armazém abandonado. Nenhum Fiat, nenhuma alma viva.
Mafalda saiu do carro, sentindo o frio a atravessar-lhe o casaco. Pegou no telemóvel, pronta para ligar ao detetive ou chamar a polícia se fosse preciso. As portas pesadas do edifício estavam encostadas, mas não fechadasainda oscilavam no vento quente e húmido.
No interior, tudo cheirava a bolor, ferro velho e coisas deixadas para trás. No canto mais recuado do chão, uma tábua de madeira, mais lisa do que seria de esperar, chamou-lhe a atenção. Com a mão trémula, Mafalda tentou puxá-lae a tábua deslizou de lado silenciosamente.
Abrindo-se, revelou um corredor apertado e sombrio, onde um colchão manchado a aguardava como se fosse um santuário do medo. Sentada sobre ele, estava uma mulher que Mafalda não conhecia. Os ossos destacados pela pele, algemada ao cano enferrujado da parede.
Mafalda petrificou, com o nome na garganta abafado pelo horror. A mulher levantou a cabeça devagar, os olhos fundos a brilhar sob a luz suja:
És tu, a esposa? sussurrou ela em português arrastado. Não devias ter vindo. Ele prometeu que nunca saberias.
Quem? a voz da Mafalda desfez-se.
O teu marido. Há sete meses que me mantém aqui. Disse que procurava substituta.
Só aí Mafalda notou o tabuleiro no chãoum prato de caldo verde ainda quente; alguém tinha estado, há escassos minutos, ali. As sombras dançavam.
Foi então que, atrás dela, passos soaram. A polícia, alertada pelo detetive, tinha finalmente chegadomas no estranho nevoeiro do sonho, Mafalda ficou sem saber se alguma vez acordaria.







