Será que Passei a Irritar o Meu Próprio Marido? Oito Anos de Felicidade e Depois Tudo Mudou: A Histó…

Comecei a ser um incómodo para o meu próprio marido…?

Durante oito anos, tudo fluiu maravilhosamente, mas no nono ano começou a tornar-se insuportável para o Paulo, e o que mais o incomodava era eu, Eugénia.

O Paulo passou a chegar a casa já escurecido, jantava em silêncio, resmungava qualquer coisa sem jeito, abria o computador e ficava até às tantas a jogar jogos de guerra. Quando olhava para mim, fazia uma cara de quem tem cáries dolorosas a perfurarem o corpo inteiro. E cada vez mais, dizia com secura que ia, essa noite, dormir em casa da mãe.

Um dia, já sem aguentar, liguei para a sogra:

– Dona Emília Augusta, o Paulo está aí consigo?

Ao que ela respondeu, doce como mel, quase melosa:

– Uma boa esposa, Eugénia minha querida, está sempre a par de onde anda o seu marido.

Até comprei um livro chamado Como prender o marido. Fui explicar à empregada da livraria que era para uma amiga. Ela olhou-me com aquele ar de piedade amarga.

Depois percebi que algo não batia certo naquilo do livro. Quantos maridos seria preciso prender para se ter experiência para escrever um livro inteiro? E de onde viriam esses novos maridos, se os antigos se mantêm presos?

Cento e cinquenta páginas de conselhos úteis: que o marido deveria sentir saudade do conforto do lar, que se devia experimentar roupa interior sedutora, que era obrigatório interessar-se pelos assuntos do marido. Até me atrevi, finalmente, a fazer massa de pão com fermento mas o marido não sentiu vontade de regressar ao aconchego do lar. Se calhar, devia ter amassado a massa com a tal roupa interior. Ou então ter ido assim, feta uma tentação, visitar a sogra, onde, segundo a lenda, o marido se abrigava.

Também tentei viver os interesses do Paulo: logo na primeira tentativa passei um nível daquele jogo de tiros que ele andava há uma semana sem conseguir. Mas o relacionamento não saiu mais caloroso nem mais terno dali.

Fui a um centro comercial para comprar botas de inverno e voltei para casa com um cachorrinho gorducho, gastando precisamente o mesmo dinheiro. Olhei para aquele focinho peludo e soube o que sempre tinha desejado: ter um cão. Não um poodle que cabe numa mala, mas um cão a sério, com alma.

A senhora que se apresentou como criadora perguntou-me:

– Percebe alguma coisa de cães, menina? Não? Então olhe, é um retriever dourado.

Quando perguntei porque não era ele lá muito dourado, ela explicou, caridosa:

– Quando crescer, fica dourado. É uma moda, este cão, raça pura, os pais campeões, vai ver, vai ser lindo! E há papéis. Estou a dar a preço de saldo.

Quando me disse o valor, percebi que não tinha lá tudo, mas a criadora, simpática, aceitou o que eu tinha.

Alguém na vida tem de ficar contente por nos ver chegar a casa. As botas, por muito caras, não abanam o rabo, nem olham nos olhos, nem trazem os chinelos.

Nessa noite, o Paulo aportou por ali e perguntou:

– Mas… o que é isto?!

Retriever dourado, de raça, expliquei. Nem foi caro e até tem documento!

Nos papéis dizia que o cachorro era um puro bulldog alentejano. O telefone da criadora era afinal da junta de freguesia, onde qualquer menção a retrievers ou bulldogs causava risos marotos.

– Tu não tens olhos? Onde é que vês aqui mistura de retriever com bulldog? Quanto pagaste? Quanto? Meu Deus, onde é que te falta o juízo!

Os berros do Paulo não agradaram ao cachorro, que rosno… mas só saiu um largo xixi.

– Estou farto! gritou o Paulo para o tecto, voltando ao computador. E fiquei com impressão que não estava a matar monstros virtuais, mas a mim. Com gosto.

De manhã, o cachorro já tinha ficado à vontade: durante a noite, tinha transformado os ténis novos do Paulo numa obra de arte olfactiva e roído os sapatos.

E aí tudo rebentou.

Tudo em mim era insuportável: o rosto, a roupa, a alma, o pensamento. Até o facto de ganhar o dobro do Paulo – só para o humilhar. E não ter filhos.

– Oh Paulo, foste tu que não quiseste filhos arrisquei, baixinho.

– Ouve lá, que filhos pode ter uma pateta?! Iam sair iguais: cabeçudos e parvos! Olha para ti, quem é que te queria?

O cachorro, depois de escutar aquela conversa, arrastou as patas gordas até ao Paulo e tentou mordê-lo no tornozelo.

Fiquei muda, engasgada de tanto dó pelos meus filhos que nunca nasceram, e só vi o Paulo a atirar roupas para dentro da mala.

Trinta anos. A vida acabou. Fim. Cheguei ao meu destino.

Não havia por onde continuar, mas, claro, o cachorro não percebe dramas. Tinha aquela carinha infeliz e mastigava uma meia minha, tal qual um pobrezão não alimentado nem esfregado. Não ligava ao meu sofrimento só queria comer, beber, ouvir elogios e ter a barriga coçada.

O cachorro, a quem batizei de Tomás, crescia como fermento, mas por muita pinta de cão dos Baskerville, não ameaçava nada. Nunca desenvolveu jeito para o trinca-trinca; o que gostava era de lamber e pedir mimo.

À noite, passeávamos até tarde. E foi a passear que me perdi…

Em dezembro, cavavam-se buracos nos jardins do bairro, ora chovia ora nevava, o chão era lama. Numa dessas crateras caiu o Tomás, e guinchou. Eu, assustada, saltei atrás dele, e vá lá, só me sujei pernas inteiras, mas nada partido. O buraco era fundo e escorregadio, faltava pouco para a meia-noite e o telemóvel tinha ficado em casa.

No início, que vergonha pedir socorro em voz alta, mas depois de várias tentativas frustradas, gritei Socorro! com tudo. Acabaram por se aproximar dois rapazes góticos, que à luz fraca do candeeiro pareciam vindos de uma assembleia mortuária. Não começaram sacrifícios nem abriram covas, mas chamaram os bombeiros e não me deixaram ali, rindo-se alto dos seus assuntos góticos.

O Tomás foi o primeiro a ser retirado, lambendo toda a gente do resgate, incluindo os góticos. Depois fui eu, já enregelada, sem nem tempo para vergonha.

O chefe dos bombeiros, bem irritado, ensaiou um discurso: que era um cão burro, uma dona tola, funcionários da câmara inúteis e trabalhadores desclados. O governo também apanhou.

Tomás não tinha ouvido linguagem daquelas, mas fazia festa ao bombeiro como se nada fosse, ao ponto de lhe abrir o nariz com a cabeça.

Às tantas, ali estávamos à uma da manhã: Tomás todo sujo mas feliz, eu coberta de lama e a tremer, os bombeiros salpicados de beijos, os góticos bem-dispostos e o chefe todo ensanguentado do nariz.

– Olhe, minha senhora, eduque lá o vosso monstro… disse ele bufando.

– Tento, mas sabe como é, ele é obstinado.

– Igualinho a mim atirou um gótico ao outro, soltando uma gargalhada que nem tentava ser tétrica.

– Eu vivo ali naquele prédio; se quiserem lavar-se, apareçam convidei, com os dentes a bater.

– Vai lá, chefe disseram os bombeiros , senão pareces o Hannibal Lecter do Bairro Alto.

– Se calhar ainda abro eu um buraco para me enterrar, antes que as obras acabem e passe a vida solteira! riu-se depois a minha amiga Lúcia.

P.S. Os filhos da Eugénia não são prodígios. São só crianças espertas e engraçadas: Tiago e Benedita. No primeiro ano da escola, pediram para falar sobre a família.

O nosso pai salva o mundo! E a nossa mãe trabalha com computadores! disse o Tiago, cheio de orgulho.

E a calada Benedita acrescentou:

E o nosso cão sabe ver televisão!

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Será que Passei a Irritar o Meu Próprio Marido? Oito Anos de Felicidade e Depois Tudo Mudou: A Histó…
Tinha oito anos quando a minha mãe saiu de casa. Foi até à esquina, apanhou um táxi e nunca mais voltou. O meu irmão tinha cinco. Desde então, tudo mudou lá em casa. O meu pai começou a fazer coisas que nunca tinha feito: levantar-se cedo para preparar o pequeno-almoço, aprender a lavar e passar roupa, pentear-nos de forma desajeitada antes da escola. Via-o a errar nas medidas do arroz, a queimar a comida, a esquecer-se de separar a roupa branca da colorida. Mas nunca nos deixou faltar nada. Chegava cansado do trabalho e sentava-se para rever os nossos trabalhos de casa, assinar os cadernos, preparar os lanches do dia seguinte. A minha mãe nunca voltou para nos visitar. O meu pai nunca trouxe outra mulher para casa. Nunca apresentou ninguém como sua companheira. Sabíamos que saía, que por vezes chegava mais tarde, mas a sua vida pessoal ficava fora das paredes do nosso lar. Em casa éramos só eu e o meu irmão. Nunca o ouvi dizer que se apaixonou de novo. A sua rotina era trabalhar, chegar, cozinhar, lavar, deitar-se e recomeçar. Nos fins de semana levava-nos ao parque, ao rio, ao centro comercial — nem que fosse só para ver as montras. Aprendeu a fazer tranças, a coser botões, a preparar almoços. Quando havia festas na escola e precisávamos de fantasias, usava cartão e roupas velhas para as fazer. Nunca se queixava. Nunca dizia: “Isso não é trabalho para mim.” Há um ano, o meu pai foi para junto de Deus. Foi rápido. Não houve tempo para despedidas longas. Ao arrumar as coisas dele, encontrei cadernos antigos onde anotava despesas da casa, datas importantes, recados como “pagar a mensalidade”, “comprar sapatos”, “levar a miúda ao médico”. Não encontrei cartas de amor, nem fotos com outra mulher, nem vestígios de uma vida romântica. Apenas as marcas de um homem que viveu para os filhos. Desde que ele partiu, uma pergunta não me larga: foi feliz? A minha mãe saiu para procurar a felicidade. O meu pai ficou e parece que abdicou da sua. Nunca voltou a formar uma família. Nunca teve um lar com companheira. Nunca mais foi prioridade para ninguém, a não ser para nós. Hoje percebo que tive um pai incrível. Mas também entendo que ele foi um homem que ficou sozinho para que nós nunca estivéssemos sós. E isso pesa. Porque agora, sem ele, não sei se alguma vez teve o amor que merecia.