Chamo-me Estefânia, tenho 68 anos e durante muito tempo acreditei que fiz o melhor que podia pelos m…

Chamo-me Beatriz, tenho 68 anos e, durante muitos anos, acreditei que fiz o melhor que consegui pelos meus filhos. Hoje, sei que eles já não veem as coisas dessa maneira. Fui mãe solteira, não por escolha. O meu marido saiu certo dia sem avisar e nunca mais voltou. Não houve despedidas, não houve explicações. Simplesmente desapareceu, deixando-me sozinha a criar os nossos filhos. Mais tarde, contaram-me que ele tinha ido embora com outra mulher. Nunca me confirmou nada porque nunca mais deu notícias, nem olhou para os filhos.

Na altura, os meus filhos tinham seis e quatro anos. Eram pequeninos, completamente dependentes, e eu estava sozinha no mundo. Não tinha família próxima. Cresci numa aldeia pequena, isolada, daquelas em que se sai à procura de uma vida melhor e se descobre que não há rede de apoio, nem ninguém a quem se possa ligar quando o mundo desaba.

Os meus filhos não me culpam por não terem tido comida ou casa. Nunca lhes faltou o essencial, ou pelo menos, sempre me esforcei por isso. O que me apontam é o lado emocional aquilo que não consegui dar. Sempre fui uma mãe rígida. Não por falta de carinho, mas por medo. Fui educada a acreditar que o amor se mostra com sacrifícios, não com palavras. Com disciplina, não com abraços.

Para os sustentar, trabalhei numa fábrica de confecções em Lisboa. Escolhi esse emprego porque me permitia estar com eles ao fim do dia, vigiá-los, garantir que comiam e estavam em segurança. Quando a noite caía, saía para vender bolos caseiros nas ruas. Os olhos pesavam de sono, o corpo cansado, mas a necessidade falava mais alto. Com dois trabalhos, consegui mantê-los de pé.

Trabalhava em excesso. Estava fisicamente presente, mas emocionalmente ausente. Havia dias em que chegava a casa sem paciência para conversar. Quando choravam, pedia para não fazerem um drama. Quando pediam atenção, respondia com ordens. Quando erravam, corrigia mais do que confortava. Nunca fui de muitos mimos. Fui responsável, mas distante.

Houve alturas em que tudo desmoronou. Vivíamos de aluguer num pequeno apartamento mal chegava para dormirmos. Com um só ordenado, não dava para tudo. Às vezes, tinha de decidir: pagar a renda ou comprar comida? E preferia sempre garantir-lhes o pão. Atrasei pagamentos. Uma renda, depois outra, até que um dia fomos postos fora de casa.

Recordo bem esse dia. Sem saber para onde ir, com duas crianças pequenas e umas malas, dormimos no chão da sala da vizinha Maria, grata por não termos de ficar na rua. Eles eram demasiado pequenos para perceber, mas eu sentia tudo: a vergonha, o medo, a exaustão. Os vizinhos, ao saberem do nosso sufoco, juntaram algum dinheiro e conseguimos mudar-nos para um quarto ainda mais pequeno, numa casa antiga com um pátio partilhado. Era apertado, mas ao menos estávamos seguros.

Os meus filhos lembram os gritos, onde eu só recordo cansaço. Eles sentem distância, onde eu apenas me lembro de lutar para não cair. Onde eles viveram medo, eu só via a luta pela sobrevivência.

Apesar de tudo, criei-os. Foram à escola, acabaram os estudos. Hoje, são pessoas instruídas, com famílias e um caminho traçado. Agora, quando adultos, olham-me de forma diferente. Perguntam-me porque nunca lhes perguntei como se sentiam. Porque não os protegi sempre que alguém lhes fez mal. Porque parecia que tudo era mais importante que eles. Cuidavas de nós, mãe, mas nunca nos abraçavas, disse-me um dia um deles. Essa frase ficou cravada em mim. Porque não era falta de amor, era falta de saber demonstrar. Ninguém me ensinou como ser terna. Fui educada a sobreviver, não a sentir.

Com o tempo, começaram a afastar-se. Não aparecem com frequência. Têm a sua vida, família, filhos, responsabilidades. Dizem que estão ocupados, acredito, mas não é só isso. Um dia disseram-me, quase sem darem conta de quanto dói: que as mulheres deles são diferentes de mim. Mais pacientes. Mais carinhosas. Mais presentes para os filhos. Não foi dito com dureza, disseram-no como quem explica. Mas senti aquilo como um julgamento silencioso. Como se me dissessem que deram aos seus filhos tudo aquilo que com a mãe deles lhes faltou.

Percebi então que já não me julgam só como mãe do passado, mas também comparam-me às mães que agora conhecem. Talvez seja verdade que a vida me tornou amarga. Que endureci cedo demais. Que o cansaço ficou colado à minha voz e aos meus gestos.

Hoje, são os meus filhos que me julgam, porque já têm palavras para o que em crianças engoliam calados. E eu escuto-os, mesmo quando dói, mesmo quando me obriga a confrontar quem sou. Mesmo quando me faz sentir pequena.

Não escrevo isto para me justificar. Fui uma mãe que não soube ser meiga. Sim, falhei. Hoje percebo isso, mesmo que seja tarde. Mas sei também outra coisa dei tudo o que podia com a mulher que fui no tempo certo. Amei como sabia. Não se pode dar aquilo que nunca se recebeu.

Talvez um dia vejam a mãe inteira, e não só os seus erros. Talvez não. Ser mãe não é ser perfeita. É amar mesmo quando não se sabe como fazer bem. E mesmo que hoje me olhem como juiz, espero que Deus me olhe como mãe com misericórdia, com verdade e com um amor que não julga, mas cura.

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