A Amiga do Cemitério: O Desaparecimento do Meu Marido, Anos de Sofrimento com a Sogra, a Casa nas Ma…

A Amiga do Cemitério

Numa dessas noites de nevoeiro em Lisboa, o meu marido saiu para comprar pão e nunca mais voltou. Vivíamos juntos há cinco anos, eu, ele, as crianças e a mãe dele, numa casa antiga de azulejos estalados. Quando no amanhecer fui ao posto da GNR em Arroios para dar parte do desaparecimento, disseram-me que só podiam aceitar a participação passadas três noites. Assim o fiz, atordoada.

Três anos se passaram desde então, como se tivessem sido engolidos pelo nevoeiro do Tejo. Todos os dias eu esperava ouvir a porta a abrir-se e o passo conhecido do meu homem. Até ao desaparecimento, suportávamos a mãe dele, uma mulher que desde sempre me olhava com rancor, querendo ver no fundo dos meus olhos alguma culpa. Depois que nos tornou dependentes dela, pareceu perder todo o juízo. Contava aos vizinhos que os meus amantes mataram o filho dela e o lançaram ao rio, junto à velha doca desativada.

Tinha esperança de que ela voltasse a si, parasse com as invenções. Nunca aconteceu. Os boatos só aumentavam Lisboa tem muitas docas, algumas profundas, e homens que lançam olhares. Mas para mim, família é coisa sagrada, nem pensar em aventuras. Só que os dias iam ficando pesados, cada colher mal posta na mesa era razão para uma discussão. O ambiente ficou insuportável.

Procurei alternativas de habitação, mas a sogra travava-as todas. A cada proposta de troca de apartamento, arranjava objeções: o terceiro andar era alto demais para as pernas dela; no rés-do-chão, a juventude faria barulho; o segundo andar não era no bairro certo tudo servia. Finalmente, apareceu uma oportunidade numa casa defronte, segundo andar, tudo o que era preciso: perto do mercado da Graça, das mercearias. Mas ela recusou de novo: Vou ver todos os dias da janela a casa de onde o meu filho sumiu.

Destruída, aceitei o que pintava: troquei tudo para um rés-do-chão num prédio velho, mesmo ao lado do cemitério dos Prazeres, onde as campas invadem o horizonte. Saímos de lá como inimigas, ela e eu, esquecidas de termos partido o pão juntas durante anos. Percebi então que ela pouco se importava com os netos, que passariam a crescer ouvindo marchas fúnebres em vez de canções, e a brincar entre cruzes em vez de baloiços.

O novo lar era frio, quase subterrâneo de tão pouca luz que deixávamos entrar só respirámos melhor depois de improvisar cortinas escuras, para não ver carros funerários do lado de fora. No primeiro mês tudo ainda parecia estranho, mas cedo comecei a sentir que os dias pesavam mais. Uma manhã, enquanto preparava papas para os filhos, ouvi estrondos na escada. Era a minha vizinha, caída, torcera o tornozelo, sacos de compras espalhados. Ajudei-a a chegar ao sofá, juntei as compras e, quando voltei com elas, encontrei-a a chorar.

Ofereci-me para chamar o INEM, mas recusou. Chorava, não de dor do desespero. Esta casa é malditas. Raros são os dias em que não acontece alguma desgraça. Quem vive à beira dos mortos não tem sossego. Tentei acalmá-la, dizendo que era só um capricho do destino, mas ela abanava a cabeça: Logo tu vais perceber.

Na verdade, mal dito, mal feito. Dias depois, o meu filho deixou cair um haltere no pé, acabou engessado no hospital São José. A filha começou com dores de barriga gastrite, disseram. E depois veio o pior.

Acordei de madrugada com um barulho estranho, unhas arranhando vidro. Olhei o relógio: duas em ponto. Senti-me puxada até à janela. Quando afastei a cortina, gelei. Mesmo do outro lado do vidro, uma mulher da minha idade, com o rosto morto-azulado iluminado pela lua, mirava-me com um sorriso irónico, surpreendido. Fiquei paralisada, com a garganta seca, sem conseguir gritar ou mexer-me, agarrada à cortina como uma estátua. A mulher virou-se e foi em silêncio, arrastando-se na direção do cemitério. Só aí consegui mexer-me e fui dormir num canto, cheia de medo.

O dia seguinte enrolou-se num torpor angustiante. Se alguém me perguntasse o que se passara, não teria coragem de contar. Atribuí tudo a delírios ou armadilhas da sogra imaginei-a a contratar alguém para me assustar, ou a uma funerária interessada em comprar a casa barata e fazer negócio com coroas de flores. Mas as desventuras continuaram.

Dois dias depois, fui apanhada no corte de pessoal da loja onde trabalhava. Disseram-me que com crianças pequenas a situação não mudava nada. Tive de assinar a carta de despedimento. Nessa tarde, no 735 a caminho de casa, perdi a carteira com os últimos euros que nos restavam.

Desesperada, peguei nas alianças de casamento e fui até ao Montepio tentar vendê-las. Ofereceram-me uma ninharia. Ao sair, um homem segurando um cartão dizia Compro ouro. Ele ofereceu bem mais e aceitei de imediato, dinheiro escondido no bolso. Foi então que um jovem apressado passou por mim, deixando cair bem à minha frente um embrulho. Chamei por ele, mas já tinha desaparecido como fumo na esquina. Curiosa, abri o embrulho: notas de quinhentos euros em maços.

Nesse instante, apareceu uma cigana de saia rodada: Encontrámos o tesouro! Não faças caso da polícia só querem para eles. Vamos dividir! Ela agarrou metade da maçaroca, empurrou-me o resto e desapareceu rápido. Tudo se passou tão depressa que os meus dedos fecharam-se nas notas, mesmo com a consciência a arder.

Mal cheguei ao fim da rua, vi o tal rapaz e um homem careca de ar ameaçador, empunhando um taco. Vieram na minha direção. Foi você que ficou com o meu embrulho!, acusou o jovem. Mal pude entregar a quantia, só para ouvir: Isto não é tudo! Tentei explicar a história da cigana, mas nem quiseram saber. Chamaram-me ladra e exigiram o resto. Acabaram por ficar com tudo, inclusive o que restava das alianças.

Caminhei pela calçada mourisca, perdida em lágrimas, lembrando das palavras da vizinha esta casa é mesmo amaldiçoada. E nunca tinha sentido um peso tão grande.

Nessa noite, volta o arranhado nas janelas. O medo tornou-se paralisante, mas no sonho-lucidez fui de novo até à cortina. A mulher de rosto morto estava lá fora, fitando-me outra vez. Tapei a boca, presa pelo terror, e ficámos assim, eu e ela, em silêncio. O rosto dela parecia ganhar cor, vida efémera. Virou-se e afastou-se para as campas. Sentei-me no chão, fria, até à luz da manhã.

No dia seguinte, a vizinha bateu à porta trazia a conta dos serviços do prédio. Reparei que mal conseguia esconder as lágrimas ao falar comigo. Quando, por fim, ofereceu-se para pagar a minha parte e me abraçou, desabei. Falei-lhe da minha vida, das contendas com a sogra, dos males das crianças, do desaparecimento do marido, do desgosto, da pobreza. Pausou, depois, disse-me para lavar a cara e ir com ela tinha algo para me mostrar.

Caminhámos entre os túmulos floridos, sob a sombra dos ciprestes. Parámos diante duma sepultura quase oculta pelo mato. O retrato da mulher na lápide arrepiou-me: era a visitante noturna. É ela?, perguntou a vizinha. Acenei que sim, não consegui abrir a boca. Pegou-me pela mão e levou-me dali rápida.

Em casa, ela contou-me que também vira o fantasma daquela mulher, e logo depois, a vida dela desmoronou perdeu o filho, o marido partiu, ficou doente. Um rasto de desgraça. Nos dias seguintes, a aparição não voltou, mas em mim germinou uma obsessão: precisava de visitar aquela sepultura.

Num desses dias claros, fui ao cemitério das Amoreiras. Fiquei diante do túmulo, que parecia abandonado. Arranquei as ervas, limpei folhas, esvaziei-me do medo. O rosto da foto, à luz do sol, parecia belo, quase bondoso. As sobrancelhas arqueadas como gaivotas, o nariz fino, vestido de veludo escuro com um colar antigo. Não aguentei: Que fiz eu de mal? Porque me visitas? Achas que sou feliz? li o nome: Marília.

Comecei a falar, a despejar mágoas e tristezas, como se desabafasse a uma velha companheira. Senti a dor diminuir, como se partilhada pela terra. Ao sair, despedi-me dela, sentindo que partilhava da mesma infelicidade a dela, roubada pela morte, a minha por ter deixado a vida escorrer para o desespero.

Nessa noite, sonhei. Marília entrou-me no quarto, agora radiante como na foto, sentou-se ao meu lado. Escuta bem. Não tens pecados! Faz o que te vou dizer e tudo mudará. O teu marido está vivo no Norte de África a trabalhar para pagar dívidas do jogo. Nunca mais o verás; não o procures, não voltará. Vende a casa ao agente funerário e compra outra longe daqui. Vou ajudar. Em breve conhecerás um homem bom, que amará os teus filhos como se fossem seus. Adeus. Dissolveu-se no ar, como incenso.

Acordei com o aroma de terra molhada e folhas velhas a pairar no ar, como se ela ainda pairasse ali.

Três dias depois, vieram do agente funerário bater-me à porta interessados na casa para abrir um escritório. Em menos de uma semana, o negócio estava feito. Arranjei logo outro apartamento, num bairro luminoso e nobre de Lisboa.

Não demorou muito até encontrar um novo companheiro, generoso e afável com os meus filhos. Tudo sucedeu como a amiga do cemitério profetizara. E eu, sempre que passo por perto, sei que nunca a esquecerei…

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