Uma amiga está desolada: o filho decidiu casar-se com uma rapariga fora do nosso círculo. Compreendo…

Uma conhecida minha vive um drama: o filho decidiu casar-se com uma rapariga completamente fora do nosso círculo. Compreendo o sofrimento dela, tenho filhos, também sofreria assim…

Mas lembro-me logo da história da Fernandes.

O filho da dona Fernanda chegou um dia e anunciou, sem rodeios: Esta é a Mariana. Casámos. Na família Fernandes havia de tudo: um professor catedrático, dois doutorados, uma coreógrafa, um engenheiro-chefe, uma crítica literária de renome, uma cardiologista famosa e por aí adiante.

De repente, a tal rapariga de procedência duvidosa e educação claramente deficitária, pai desaparecido, mãe tratadora de vitelos (imagina!), formação em pintora de construção civil, aspecto modesto, entrada e saída incógnitas parecia que o destino tinha resolvido provocar.

A rapariga, pintora, pelo menos portava-se bem nem se ouvia, nem se via, apenas o sussurrar dos seus passos no corredor.

Espera, Fernanda, dizia-lhe a amiga Arlete, deixa só ela ambientar-se, ainda te vais fartar de chorar.

No outono, o filho partiu para uma missão de trabalho no Brasil.

Só de pensar que aquela figurinha vagueia por casa, apetece-me nem voltar para lá, desabafava Fernanda com Arlete.

Pelo Natal, o filho voltou, mas em março, veio com notícias: tinha recebido uma oferta de contrato no Rio, conhecera lá a Priscila, e na quinta-feira ia-se divorciar da pintora; na sexta, apanhava o voo. Mãe, não te preocupes, eu ligo sempre.

Chorou, despediu-se, acenou-lhe com um lenço.

Enquanto isso, a pintora arrumava os seus poucos bens: um saco de viagem e um saco do Continente esse era todo o seu património.

Tinha o olhar de uma cadelinha maltratada.

Fernanda respirou fundo e perguntou:
Tens onde ficar?
A pintora respondeu, quase sem voz:
Daqui a um mês, há cama livre no dormitório, até lá as colegas deixam-me dormir numa cama extra, desdobrável.

Fernanda ficou a olhá-la e disse:
Então, só vais quando tiveres mesmo de ir. Desfaz as malas.

E insultou-se em silêncio. Arlete, a amiga, corroborou a ideia: parvoíce total.

De manhã, a rapariga saía cedo, de balde e pincel, voltava tarde, exausta, cinzenta de cansaço. Tentou pagar pelo alojamento, disse, com dignidade, que o ordenado era suficiente.

Passaram assim três semanas. De repente, Fernanda foi acometida por uma crise grave, internamento hospitalar de mês e meio, só escapou por um triz.

O filho ligou algumas vezes:
Força, mãe, eu e a Priscila estamos ótimos, aqui tens uma foto nossa junto às cataratas. Priscila não é nada de especial, pensei Fernanda, valia tanto esforço?

Arlete visitou-a poucas vezes, preocupações da casa, pouco tempo.

Durante esse tempo, a pintora preparava caldos, sumos naturais, fazia bolinhas de frango ao vapor. Insistia para Fernanda comer mais uns bocados.

Este carinho todo deixa-me desconfiada, murmurava Arlete, estás mesmo certa de que ela não se instalou aí para sempre? Não andou a levar coisas? Quer um croquete? Não? Segura mesmo? Acabei de sair do trabalho, estou cheia de fome.

Ao ter alta, Fernanda foi levada a casa pela pintora. Ajudou-a a subir, depois saiu apressada. Não entrou.

Tudo estava impecável, arrumado. Em cima da mesa, um bilhete:
Sra. Fernanda, muito obrigado. O almoço está no frigorífico. As melhoras. M.

Foi lá ao esconderijo das economias tudo intacto.

Espreitou o quarto do filho nenhum rasto da pintora.

Uma semana depois, Fernanda caminhou pelo corredor frio e longo e bateu à porta do dormitório. Três camas, mesa, a cama extra debaixo. Disse:

Quando tiveres o teu apartamento, então sais. Agora, rápido, está um táxi à espera, o taxímetro já está a contar.

No outono foram comprar-lhe um casaco tinha vergonha de ver a menina assim, precisava também de botas decentes. No centro comercial cruzaram-se com Arlete.

Criada assim é difícil de arranjar, e tu nem pagas nada! comentou Arlete. Bem visto, Fernanda!

Não é criada, é minha nora, respondeu, vamos lá, Mariana, precisamos ainda de uma mala, de umas calças e eu queria ver um cachecol.

Fernanda disse:
Ela poupou sozinha para a entrada do apartamento, não me pediu um cêntimo. O prédio vai ficar pronto, procuro papel de parede que combine. Mal tem tempo, trabalha sem parar, chegou a casa tão cansada que adormeceu sentada enquanto eu ia buscar chá.

Fernanda continuava:
Já me consome esta angústia, só penso: jovem, bonita, trabalhadora e vai ter casa própria, a Mariana é tão sensata, mas o engano ronda quem menos espera… Nem durmo, preocupa-me que não caia nas mãos de algum caloteiro ou tipo reles, alguém mesmo fora do nosso mundo…

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