Na aldeia da Dona Alexandrina, morreu o seu velho gato: um verdadeiro campeão com muitas vitórias en…

Na aldeia onde vivia Dona Alexandrina, morreu o seu gato. Era um gato ilustre. No seu currículo, contavam-se batalhas vencidas contra fêmeas desconfiadas, rivais felinos postos na linha e ratos apanhados com mestria. Mas o tempo cobra a todos; já era um bichano envelhecido, nada a fazer. Quase vinte anos aguentou neste mundo sem precisar de conserto de raiz.

Dona Alexandrina enrolou o seu companheiro num pano limpo, pegou numa enxada e foi pelo quintal fora dar-lhe sepultura. O marido dela, o senhor Manuel Coelho, andava atarefado ao fundo do pátio, na adega estava a arranjar qualquer coisa lá em baixo, a praguejar baixinho de vez em quando.

Depois de prestar as últimas homenagens ao gato, Dona Alexandrina tapou a cova, saiu do matagal atrás do quintal já com a enxada suja de terra pendurada no braço. Nisto aparece a vizinha Dona Filomena, mulher de Lisboa, sempre cheia de cerimónias.

Boa tarde, Alexandrina da Silva! cumprimentou Filomena, e por educação atirou: Então, que andas a fazer?

Olha, Filomena respondeu Dona Alexandrina com voz pesarosa. O meu Manel lá se foi, coitado. Deus chamou por ele, já era tempo. Chorei um bocado e fui enterrá-lo ali atrás do quintal.

Dona Filomena ficou de boca aberta; lembrava-se bem de ter visto o senhor Manuel Coelho no café, no dia anterior, onde ele tinha comprado açúcar, tabaco Português e um garrafão de vinho.

Não acredito! exclamou a lisboeta. O teu Manel faleceu? Mas como assim, tão de repente? Só ontem o vi, na maior das saúdes!

Pois foi, ontem ainda andava bem-disposto assentiu Dona Alexandrina. Até comeu um carapau inteiro e à noite ainda ficou a brincar comigo na sala

Os olhos de Filomena pareciam saltar das órbitras.

Mas hoje, assim que amanheceu, o meu Manel ficou mole, adoentado concluiu Dona Alexandrina. Deitou-se no banco, resmungou qualquer coisa e ali entregou a alma ao Criador.

Filomena benzeu-se de susto.

Valha-me Deus! murmurou ela. Era o Manel e agora já não é Mas ó Alexandrina, para que é a enxada, afinal?

Então, Filomena fui enterrá-lo ali atrás, já te disse! repetiu Dona Alexandrina. Enrolei num pano limpo e pronto, marquei o sítio com um ramo, para não me esquecer onde está.

Filomena, habituada a costumes citadinos, não compreendia bem como é que Alexandrina podia simplesmente enterrar o defunto marido Manuel ali no matagal do quintal, ainda por cima só marcando com um pau.

És mesmo cuidadosa, Alexandrina, não se pode negar balbuciou Filomena, atrapalhada. Foste logo enterrar! Mas não era suposto sei lá, chamar pelo menos o senhor da Junta para fazer a declaração?

Agora foi Dona Alexandrina que olhou Filomena com olhos espantados.

Vê lá o que dizes! riu-se Dona Alexandrina. O Manel foi homem de fibra mas achas que vamos chatear sempre o polícia da aldeia por estas coisas? Ele não dá conta de todos os Manéis do país! Mais valia chamar logo o Presidente da República!

Filomena calou-se. Dona Alexandrina mudou a enxada de braço, com ar de quem já estava farta.

Se calhar lá na cidade é que funciona assim concedeu, menos tensa. Vocês são todos muito doutores: advogados, juízes Aqui na aldeia faz-se à moda antiga. Morreu o António, paciência. Pega-se na enxada, cava-se atrás do terreno, que há muito espaço.

Pois, pois murmurou Filomena, meio perdida. Realmente ainda não sei tudo sobre esta aldeia. Mas porque é que foste pô-lo ali nos silvados? Não dava para enterrar decentemente, com padres e tudo?

A incompreensão de Filomena começou a irritar Alexandrina.

E lá havia de o pôr aonde, se morreu? retorquiu, de sobrancelha franzida. Não vou levá-lo ao cemitério com as pessoas de missa! Era o que mais faltava. Aqui sempre se enterrou tudo atrás do quintal.

Dona Filomena sentou-se devagarinho numa tora. Olhava de soslaio para a enxada nas mãos de Alexandrina e só queria que as pernas não lhe falhassem.

És demais, vizinha! exclamou finalmente. E já foste ali pôr outros antes do Manel?

Ah, alguns, sim pensou Alexandrina. Antes dele, houve o Chico. Era calmo mas, por dentro, não valia nada. Às vezes, vinha ter comigo à noite, e de manhã lá tinha eu a cama toda molhada! Bem que levei com ele E antes ainda o Zé Esse sim, muito doce, dava-me carinho. Mas chegou-lhe a hora, e pronto. Já mudei de gato algumas vezes.

Cravou a enxada na terra como quem mete um ponto final na conversa.

Agora estão lá todos num cantinho, bem alinhados! O Manel, o Chico, o Zé os meus amores. Mas não tem mal, a minha neta Antónia diz que me arranja outro novo qualquer dia destes. Haverá sempre gatos para me fazer companhia!

Ninguém sabe no que pensou Filomena nesse momento, porque atrás de Alexandrina apareceu então o senhor Manuel Coelho com terra até aos cabelos, furioso como um toiro.

Queres a minha morte, velha do diabo? gritou para a mulher. Caí-me terra em cima, andei lá enterrado até aqui! Berrei por ajuda e tu aqui à conversa!

Arrancou a enxada da mão dela e completou:

Dá cá a ferramenta! Tenho que escavar para ir buscar as botas e o garrafão de vinho também lá ficou!

Nessa altura, dona Filomena escorregou do cepo e foi abaixo com os nervos. Por isso, o garrafão de vinho da adega acabou a servir para a reanimar.

E assim, ficou bem claro que, na vida, as aparências podem enganar, e muitas vezes aquilo que julgamos ser um grande drama ou até uma fatalidade é apenas um mal-entendido. Às vezes, é preciso escutar e entender melhor antes de tirar conclusões, pois a pressa pode fazer-nos tropeçar até em gatos enterrados atrás do quintal.

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