Uma filha para duas mães
Entre Olga e Constantino, o amor floresceu num instante, à primeira vista. Namoravam há apenas um mês quando, num encontro à beira do Tejo, Constantino sussurrou:
Olguinha, casa comigo.
Olga ficou sem palavras.
Como assim casar? Só estamos juntos há um mês.
E então? Para mim, bastou este mês para perceber que és o meu destino Não existe outra mulher para mim. Só tu.
Ai, Constantino respondeu ela, rindo baixinho, encostando-se ao peito dele. Eu aceito.
Mais tarde, a mãe de Olga, Dona Maria, interrogou-se com preocupação sobre aquela decisão tão rápida:
Filha, não te precipitaste? Não estarás grávida, pois não?
Mãe, claro que não! O Constantino só me disse que não vive sem mim É amor, mãe. Puro amor.
Com o tempo, quem duvidou daquela união relâmpago percebeu logo que os dois eram feitos um para o outro. Era visível o carinho com que Constantino tratava a esposa, e Olga retribuía com amor e dedicação.
Mas aquele amor genuíno tinha uma sombra triste. Ambos desejavam muito um filho, mas a gravidez nunca chegava.
Constantino, devíamos fazer exames Talvez haja uma razão para não conseguirmos ter um filho.
Concordo contigo, Olga.
Houve esperança, consultas, viagens e muitas preces, mas, por fim, Olga não conseguiu engravidar.
Oguinha estive a pensar e se fôssemos ao lar de crianças e adotássemos um menino ou menina? sugeriu Constantino com voz trémula.
Eu concordo! exclamou Olga, surpresa pela aceitação do marido. Também pensei nisso
Então vamos respondeu Constantino. Conheço um lar de crianças, passo por lá voltando de trabalho de Lisboa, foi aí que decidi.
Quando chegaram ao lar, em Alcobaça, entre tantos meninos de olhos tristes, uma menina de três anos, louro-clara de olhos azuis, correu para Olga e agarrou-se às suas pernas.
Mamã! disse a criança, radiante.
Foi assim que a pequena Luz apareceu no lar deles uma menina cheia de alegria, com uma risada contagiante. Olga finalmente sentiu-se verdadeiramente mãe, abraçando Luz com todo o carinho. Constantino também adorava a filha.
A vida era tranquila. O casal morava numa aldeia perto de Óbidos, onde vizinhos e amigos sabiam que Luz era adotada. Quando era pequena, não houve problemas. Mas ao crescer, um dia, uma colega de escola mencionou que Luz não era filha biológica de Olga e Constantino.
Luz tinha catorze anos quando chegou a casa e explodiu em lágrimas e raiva.
Mamã, porque nunca me disseram que fui adotada no lar? Eu sei, já me contaram
Filha, esperávamos que fosses mais madura, para não te magoar Mas agora… Eu sempre temi este momento.
Luz chorou, gritou, fechou-se, depois tornou-se revoltada. Naquela idade difícil, respondia aos pais com frieza, batia portas, e por vezes parecia procurar ferir Olga.
Pouco depois, o inesperado: Constantino morreu num acidente de carro, numa viagem de trabalho ao Porto; era dezembro, uma tempestade terrível e o carro despistou-se na autoestrada.
Constantino viajava frequentemente; se se atrasava, enviava um postal, pois nessa altura quase não havia telemóveis. Quando morreu, Olga tinha quarenta e seis anos. Luz, em vez de apoiar a mãe, tornou-se distante, saía de casa e desaparecia dias inteiros.
Olga tentou de tudo para aproximar-se da filha, chorava, implorava, mas nunca gritava. Luz amadureceu depressa. Um dia, depois de terminar a escola, disse:
Vou para Lisboa.
Olga olhou para ela, segurando o pano da cozinha.
Para estudar, filha?
Não Vou procurar a minha mãe verdadeira.
Olga ficou sem ar.
Para quê, Luz? Eu não sou tua mãe suficiente?
Luz virou-se para a janela.
Preciso de saber quem é Preciso de saber porquê me deixou, porquê me abandonou. Tenho esse direito, mamã.
Tens, filha, claro suspirou Olga, sabendo que nada faria Luz mudar de ideia.
Era já quase maior de idade. Luz arrumou poucas coisas numa mala pequena, beijou Olga na face e prometeu voltar. Saiu para a paragem de autocarro, e Olga ficou sozinha, olhando-a partir, cheia de tristeza.
O tempo arrastou-se. Olga já estava reformada; nas noites longas de inverno, folheava os postais antigos do marido, guardados numa caixa de bolachas, com um laço. Eram só alguns, o último tinha ramos de pinheiro, amarelecido com os anos: Olguinha, vou demorar mais três dias, tenho saudades, muitos beijos, teu Constantino.
Com mãos trémulas, Olga passou o postal pelo peito, como se abraçasse o marido ausente. Já lá iam vinte e cinco anos desde que Constantino partiu.
Nos últimos tempos, Olga rareava na rua; já não se sentava na praça com as vizinhas, mal saía de casa. A janela coberta, o correio vazio, a casa silente.
Só ganhava cor quando Luz vinha visitar com os filhos isso era raro, e no resto do tempo, Olga estava só. Num aparador, uma fotografia de Constantino com a pequena Luz ao colo, ambos a sorrir.
Ai, Constantino, partiste cedo demais Deixaste-me só murmurava Olga para a moldura. Estou mesmo sozinha.
O silêncio era interrompido apenas pela gata Tita, saltando da janela e ronronando junto a Olga. Ela alimentava Tita, bebia chá, e decidiu que nesse dia iria ao mercado.
Enquanto tomava o chá, alguém bateu à porta do jardim. Olga lembrou-se daquele dia em que Luz partira para Lisboa à procura da mãe biológica. Era uma manhã cinzenta e calma; Olga preparava chá quando o toque na cancela a surpreendeu.
Ela calçou os sapatos, pôs uma manta de lã nos ombros e saiu ao pátio. Do outro lado estava uma mulher, mais nova, com olhos tristes.
Bom dia A senhora é Olga? perguntou, a voz tremendo.
Sim Quem é a senhora?
A mulher hesitou, trocando o peso de um pé para o outro.
Sou a mãe da Luz Queria dizer, a segunda mãe melhor dizendo, a biológica Chamo-me Vera Enfim, percebe, não é?
Olga gelou por dentro. Luz tinha partido há pouco tempo, e agora a mãe biológica, como a tinha encontrado?
Espere aconteceu alguma coisa à Luz para estar aqui? Ela conseguiu encontrar a senhora?
Vera falou depressa, confusa:
A Luz está hospitalizada Em Lisboa, algo no estômago Estávamos a passear no parque, ela agarrou-se ao ventre, sentou-se, ficou pálida. Liguei logo para o INEM.
Ficaram a olhar-se em silêncio.
Ela já me tinha encontrado há muito, só não tinha coragem de lhe contar, Vera deixou escapar uma lágrima.
Ai, mas entre Não fique aí exclamou Olga, despertando do choque. Venha à sala.
Olga serviu chá quente, Vera sentou-se à mesa, mãos trémulas.
Fui muito jovem quando tive a Luz. Os meus pais eram rigorosos, obrigaram-me a deixá-la no lar. O namorado evaporou-se ao saber da gravidez; os meus ameaçaram expulsar-me de casa. Assinei o papel no hospital Vivi anos a lamentar Desculpe, não é sobre mim. A Luz pediu-me muito que viesse buscá-la à clínica.
Olga levantou-se, pronta.
Porquê não me ligou?
Roubaram-lhe o telemóvel, aliás, toda a mala, com os documentos, enquanto esperava pela ambulância. Quando voltei ao banco, já não havia nada
Deus, pobre da minha filha, murmurou Olga.
Ela deu-me a sua morada; disse: Encontre minha mãe.
As duas mulheres mantiveram o olhar, sem hostilidade, só preocupação.
Vamos disse Olga. Fechou a porta à chave, seguiu Vera apressada.
O autocarro parecia pesar séculos. Olga e Vera começaram caladas; depois, aos poucos, conversaram.
Também estou só, desabafou Vera. O meu marido morreu, há três anos, doença longa. Tentámos mais filhos, nunca consegui. Sempre achei que foi punição de Deus por ter abandonado a Luz. Sim, o castigo é esse.
Então, só temos a Luz, disse Olga.
Só confirmou Vera. Uma filha para duas mães.
No hospital, perguntaram:
A quem vêm visitar?
A filha, Luz Pires disseram juntas Olga e Vera.
São quem, para ela?
Sua mãe responderam em coro, trocando um sorriso.
Duas mães? Está bem, entrem.
Luz estava pálida, deitada sob o soro, mas ao ver as duas, sorriu, emocionada.
Mamã e mamã murmurou.
Olga foi a primeira a beijá-la.
Calma, Luz, mamã está contigo, disse, e Vera sentou-se ao lado.
Agora vais ficar bem, filha. Não estás só, Vera aconchegou-lhe o cobertor.
Ficaram ali por muito tempo, conversando sobre tantos assuntos.
Desde esse dia, Luz passou a ter duas mães; depois veio o marido e dois filhos. E para Olga e Vera, uma filha partilhada. Juntam-se em família, raramente, mas sempre unidas.
Obrigada por ler, pela força e carinho. Sorte e bem-estar para todos!





