Não venha ensinar-me a viver

Não me ensines a viver
Cláudia, deixa-me entrar! Já não consigo viver com eles. Aquilo não é uma casa, é uma prisão, choramingava a minha irmã mais nova, parada à porta.
Parecia mesmo uma noiva fugida, coitada. O rímel borrado nas faces, lábios a tremer E na mão, o punho de um enorme trolley.
Espera aí bocejei, meio adormecida, e fiz-lhe espaço. O que é que se passa?
Eles não me deixam respirar, Cláudia! Tu não fazes ideia. Olha, ontem cheguei às dez, em vez das nove, e o pai fez-me um interrogatório, cheirou-me como se fosse um cão da polícia! A mãe nunca aprende a bater à porta. Entra sem pedir licença, mesmo quando estou a trocar de roupa, quando estou com amigas a conversar no Whatsapp Não tenho privacidade nenhuma!
A Ana resmungava, indignada. Por acaso, com vinte anos, aquele controlo todo parece mesmo um inferno. Ninguém gosta que os pais mexam nos bolsos, entrem a toda a hora no quarto e te obriguem a justificar cada passo.
Não vás ali, não comas isto, não sejas amiga daquela! continuava a Ana. Já não tenho dez anos, sou adulta. Tenho o direito de viver à minha maneira, não como lhes convém. Hoje disse que ia dormir em casa da Marta para estudar para os exames. O pai foi logo: Nada de dormir fora, em casa é que estudas. Isto é normal? Pareço estudante da primária?
Eu ouvi-a com calma e, por momentos, até senti pena. Os nossos pais sempre foram um pouco antiquados, ansiosos e hiperprotetores, sim.
Aliás, eu própria passei pelo mesmo. Com vinte anos, também entrei em guerra. Não gostava que o pai me esperasse à janela até às onze, nem que a mãe fosse verificar se levava o casaco. Mas resolvi à minha maneira.
Vou transferir-me para ensino à distância, anunciei há sete anos atrás. E vou sair de casa.
Para onde? Como vais viver? exclamou a mãe, aflita.
A amiga trabalha num salão, precisam de uma rececionista. Alugamos um quarto para três. Damos conta do recado. Se não conseguir, volto.
E consegui, com algum esforço. Nos primeiros meses, foi só arroz e dormida num sofá velho, mas ninguém mandava no meu horário. Os pais ainda tentaram ajudar com dinheiro e comida, mas eu recusei, orgulhosa.
Está tudo bem. Faço por mim.
Foi nessa altura que me deram a chave do apartamento da avó. Mais que um presente, foi um reconhecimento de autonomia.
Mas com a Ana foi diferente.
Há dois anos, quando a avó materna morreu, o apartamento foi para ela. A Ana tinha acabado de fazer dezoito.
Pronto, disse logo ela, mal recebeu a chave. Agora sou uma bela noiva, com dote. Posso viver sozinha!
Os pais olharam um para o outro, espantados.
Vamos lá ver, disse o pai. O apartamento é teu. Contas no inverno são no mínimo uns duzentos euros, se tocares a luz e gás com cuidado. Alimentação, depende do que comes, mas fica à volta de trezentos. Transportes, roupa, cosméticos, internet Para viver com independência e pagar a universidade privada, precisas de pelo menos mil e quinhentos euros por mês. Onde vais arranjar esse dinheiro?
Ana piscou as pestanas, sem resposta. Achava que fazer o favor de estudar à custa dos pais já era obra suficiente.
E ficou tudo por aí. Não protestou muito, também não estava com pressa de sair. Mas ficou irada quando os pais arrendaram o apartamento dela e pegaram o dinheiro para si: para pagar a universidade, contas, alimentação e roupas dela. Às vezes recebia algum dinheiro de bolso, mas nunca ficou satisfeita. Queria viver na sua casa e, ao mesmo tempo, não mexer uma palha.
Lembrei-me de todas essas discussões e olhei melhor para ela. Casaco novo, botas de pele, mala de marca A Ana não parecia bem uma vítima do regime carcerário. Parecia mais uma princesa a queixar-se porque o colchão tem uma ervilha.
Tiraram-me a chave do carro, continuou Ana, enxugando lágrimas. Disseram que enquanto não fechar as notas, tenho de andar de autocarro. Estás a ver? De autocarro! Espera-se pelo menos meia hora!
Que horror comentei, observando o drama do trolley. E então, quais são os teus planos?
A minha compaixão dissipou-se rapidamente.
Vou ficar contigo. Até que eles acalmem e peçam desculpa. Tu tens um T2, dá para os dois. Prometo que não atrapalho, fico quietinha no quarto a estudar
Mordi o lábio. Não era para mal falar da Ana, mas algo ali não batia certo.
Ana, suspirei. Falemos a sério. Queres viver como eu? Sem controlo, perguntas, nem toque de recolher?
Claro! os olhos brilharam. Quero decidir quando chego, o que visto.
Ótimo. Então porquê vieste cá, em vez de alugar casa? Ou um quarto numa residência?
Ana ficou sem saber que dizer. Parecia-lhe uma pergunta disparatada.
Como assim? Não tenho dinheiro. Sou estudante.
Pois. Estás a estudar, vives às custas dos pais. Comes o que compram, vestes roupa deles, usas o carro abastecido pelo pai fazia as contas nos dedos. Liberdade, Ana, custa caro. Eu com a tua idade já trabalhava e estudava. Tu queres comer o peixe e não engasgar com a espinha.
Estás a dizer que não me vais deixar ficar?
Suspirei. Não queria meter-me, mas era inevitável.
Primeiro vou ligar à mãe, disse. Quero ouvir a versão dela.
Ana hesitou, mas não me impediu.
Já era tarde, mas a mãe estava acordada. A conversa foi emotiva, tensa, até meti em alta-voz. Descobri que tinham tirado a chave do carro e cortado saídas porque a Ana não tinha apenas diretam. Faltam mesmo disciplinas, estava em risco de ser suspensa.
Os professores implicam comigo! Não gostam de raparigas! reclamava a Ana, corando.
Certo, mas os outros passaram, só tu ficaste para trás, respondeu o pai. Achaste que eras mais esperta? Ias para casa da irmã gozar a vida?
O pai tem razão, olhei para a Ana. Não acolho maus alunos cá em casa. Não sou tua ama.
Ana atirou-me um olhar mortal.
Ah, então todos contra mim? Muito bem! Vou viver no meu apartamento! afirmou. Expulsem os inquilinos. Quero viver sozinha, ninguém me vai chatear.
Fez-se silêncio. Ela ergueu o nariz, convencida de que tinha apanhado os pais de surpresa.
Está bem, respondeu calmamente a mãe. Sem problema.
Ana ficou de olhos arregalados.
A sério? Expulsam? Amanhã mesmo?
Não amanhã, conforme o contrato, explicou o pai. Têm duas semanas para sair. Enquanto isso, vais ficar connosco e fechar as cadeiras. Mas, Ana Percebes que vais viver mesmo sozinha?
Sim, ficou desconfiada.
O dinheiro do arrendamento acaba. explicou o pai, pausando para deixar a Ana processar. A partir de agora, pagas tu a universidade. Habitação, comida, roupas, tudo. Não te damos um euro. És adulta, vive como adulta.
A Ana ficou de boca aberta. Era óbvio que esperava que os pais continuassem a ajudar.
Mas mas estou a estudar! Não posso trabalhar! É regime presencial!
A Cláudia também estudou, lembrou a mãe. Transferiu-se para ensino à distância e começou a trabalhar. Escolhe tu. Queres independência? Está à vontade. Mas pagas tudo. Ou ficas connosco, pelas nossas regras, e sustentamos. Não há meio termo.
A Ana olhou-me, a pedir apoio, mas eu só lhe consegui devolver um olhar de gozo.
Então, maninha? sorri. Bem-vinda à vida adulta. Vês que o peixe tem espinha?
Seis meses passaram. O contacto com a Ana ficou em perguntas de cortesia e respostas fugazes. Só sabia que ela já não vivia com os pais, não me metia mais. Temia que voltasse para pedir favores ou apoio.
Um dia, entrei na cafetaria perto do Parque Eduardo VII, a fugir da chuva. Atrás do balcão, estava a Ana.
Era um cappuccino médio sem açúcar, certo? perguntou com voz cansada, mas educada.
A minha irmã estava diferente. Nada de pestanas postiças, unhas arranjadas com brilhantes. Unhas curtas, por exigência do trabalho. Em vez da hoodie de marca, um avental verde da cafetaria com crachá. Olheiras fundas, que nem a base escondia.
Olá, sorri com aquele misto de pena e respeito. Sim. E um croissant, se estiver fresco.
Ana acenou, sem sorrir, e foi preparar.
Está fresco. Trouxeram de manhã.
Fazia tudo rápido, sem aquela arrogância de quem espera que o mundo pare por ela.
Como correram os exames? perguntei enquanto ela vaporizava o leite.
Fechei, respondeu, seca. Mudei para ensino à distância. É mais fácil. A mãe ligou há pouco, a oferecer-se para levar comida. Recusei. Dou conta.
Ergui as sobrancelhas, admirada.
Desde quando é que te tornaste orgulhosa?
Não é orgulho, é inteligência. Se aceitar comida, voltam a implicar: porque não limpas o chão, porque há pó nas prateleiras. Não quero. Prefiro comer aveia com água, mas não levo sermões.
Sorri. Ela pousou a chávena.
São três euros e cinquenta.
Passei o cartão, ouvi o bip.
Está a ser difícil? perguntei baixinho.
A Ana hesitou um instante. Vi um brilho infantil nos olhos, como quando apareceu há meses, mala na mão. Mas recuperou.
Nada de especial. Ao menos ninguém me dá lições. Vendi o carro, já agora. O metro é mais rápido. E mais barato.
És uma mulher, Ana. A sério.
Ela soltou um meio sorriso torto.
Pois, mulher Só que às vezes adormeço aqui mesmo. Vá, vai-te embora, senão levam-me multa por falar com clientes.
Sentei-me ao lado da janela, a olhar para ela a esfregar o balcão.
Pois, a minha irmã acabou por conseguir o que queria: vida adulta, sem controlo dos pais. E até não era mau. Só que, como sempre, o peixe tinha espinhas e agora ela tinha de mastigar devagar para não se engasgar.
Terminei o café, tirei uma nota de vinte euros da carteira, deixei-a debaixo da servilleta, levei a loiça ao balcão, virei costas e fui embora.
Não era esmola de pobre. Era gorjeta de quem reconhece um bom barista, que finalmente está a aprender o equilíbrio entre sonhos e realidade.

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