Ou a Mãe Vai Junto, ou Ninguém: Quando Um Casamento a Três Não Cabe Numa Casa Portuguesa

Ou a mãe, ou mais ninguém

Mariana, devíamos comprar mais um bilhete para o teatro.

Levantei os olhos do prato. O jantar ainda estava quente, mas o António já estava agarrado ao telemóvel, com aquela cara de quem resolve negócios sérios.

Mais um bilhete? Vai alguém connosco?

Ele nem me olhou.

A minha mãe está cheia de vontade de ir. Ontem contei-lhe que tínhamos planos e ela ficou entusiasmadíssima.

Pousei lentamente o garfo na borda do prato e levantei-me, fingindo que ia buscar um copo de água à bancada. A minha cara deve ter-se torcido sem me dar conta, nem tentei disfarçar. Só não queria que o António reparasse, porque não tinha forças, nem vontade, para explicar o que se passava cá dentro.

Pois claro. A mãe quer. Dona Rosa sempre quis.

Enquanto enchia o copo de água, lembrei-me das fotografias do nosso casamento. Duas centenas de fotos que o fotógrafo gravou numa pen, embrulhada com um laço bonito. Passei três noites a rever tudo, à procura de uma imagem em que estivéssemos só os dois, eu e o António. Só nós, sem família, sem convidados, sem ninguém pelo meio. Não encontrei nenhuma.

Em todas as fotografias lá aparecia a Dona Rosa: ora a ajeitar-lhe o colarinho, ora com um braço em cima dele, ora mesmo entre nós, a sorrir para a câmara como se a festa fosse dela. Ainda achei que era descuido do fotógrafo. Agora sei que não era.

Desde o início, Dona Rosa agiu como se eu fosse apenas uma colega de apartamento temporária. O apartamento, aliás, era meu. Meu, pago com o meu dinheiro. Mas ela aparecia quando queria, sem avisar, sem pedir licença, sempre pronta para opinar. As cortinas estavam mal. As panelas eram desadequadas. O cozido tinha sal a mais. O António estava magro. O António estava pálido. O António comia pouco.

Bebi um gole de água, encostando o copo à boca.

Todos os nossos planos acabavam sempre iguais. Cinema no mês passado? A três. Patinagem no feriado? A três. Até ao café pequenino na Rua da Prata, onde eu só queria estar com o António, conversar calmamente, ele achou boa ideia convidar a mãe. E ela veio, sentou-se entre nós, pediu chá com limão e falou quarenta minutos seguidos sobre a tensão e a vizinha do quarto andar que voltou a inundar o teto.

O teatro. Escolhemos a peça a dedo. Esperei por ela mês e meio, consegui bilhetes para a plateia, fila três. Devia ser a nossa noite, só nossa.

Mariana, estás calada porquê?

O António lá se dignou a largar o telefone e a reparar em mim.

Entende, a minha mãe sente-se sozinha acrescentou, com aquele tom tão ensaiado que me perguntei se ele ainda percebia que já não dizia outra coisa.

Acenei.

Está bem. Compra.

Que mais havia a dizer? Já tinha tentado falar nisto, mais do que uma vez. Acabava sempre da mesma maneira: o António chateava-se, ia fechar-se no quarto, não dizia uma palavra o resto da noite. E de manhã a Dona Rosa ligava, voz de santa ofendida, a perguntar se estava tudo bem entre nós. Um ciclo do qual deixei de procurar saída.

O António sorriu, satisfeito, e voltou ao telemóvel.

… A terceira fila era ótima, via-se tudo: o cenário, o brilho dos atores, cada pequeno gesto. Só que o António virou-se logo para a mãe, e nem um segundo se lembrou de mim.

Dona Rosa sentou-se do lado direito do filho e começaram logo a comentar o folheto, a entrada, a reconhecer conhecidos que ela dizia ter visto no bar. Eu, do lado esquerdo, a olhar para o palco sem prestar atenção, mesmo antes de a peça começar. No intervalo, António levou a mãe à cafetaria e fiquei na sala, porque ninguém me convidou, e eu também não ia implorar companhia. Quando voltaram, ela relatava-lhe tudo o que se tinha passado, como se ele tivesse estado ausente dali. Fui virando o folheto, pensando que a fila três não valia metade do que paguei.

Na viagem de regresso, também a três. Primeiro deixámos Dona Rosa no prédio dela, e fiquei dez minutos sentada no carro, enquanto o António lhe ajudava com a porta e ouvia os recados de última hora. Quando finalmente se sentou ao volante, vinha com o ar mais leve, satisfeito.

Correu mesmo bem, não achaste?

Assenti e virei a cara para a janela. Não apetecia falar, por isso disse só que estava cansada. Na verdade, nem sono tinha só não tinha vontade nenhuma de conversar, porque tudo o que dissesse ia ficar perdido no ar, sem chegar ao lado de lá.

Os dois meses seguintes foram tal e qual imaginei. Dona Rosa vinha cá quase sempre, o António passava cada vez mais tempo com ela e eu, quase sempre sozinha em minha própria casa, ouvia-os rir e conversar na cozinha. Os jantares a dois quase desapareceram, as folgas de fim de semana passaram a ser só idas à casa da mãe dele ou passeios obrigatórios a três. Deitava-me cedo, acordava com aquela angústia no peito, que se tornou rotina e já não estranhava.

… Em março, recebi um prémio bom no trabalho, daqueles que não se esperam. Pensei três dias antes de decidir. Quinze dias na Madeira. Tudo incluído. Mar, sol, hotel com boas recomendações. Passei uma semana a analisar viagens, comparar quartos, ler comentários, ver a distância à praia. Achei que podia ser o nosso recomeço, um tempo só para nós os dois, longe de tudo.

António, reservei-nos umas férias disse, quando nos sentámos à mesa para jantar, e pus-lhe o papel da reserva em frente. Madeira, quinze dias em junho. Mar, praia, tudo incluído. Gastei o prémio, mas vale a pena.

Ele leu, olhou para mim com uma expressão de surpresa quase feliz, e acenou.

Que bom, Mariana. A sério, parece ótimo.

Suspirei de alívio. Talvez ainda fosse possível. Talvez fosse só preciso afastar-nos daqui para as coisas voltarem ao normal. Dormi naquela noite melhor do que em meses.

No dia seguinte, António chegou a casa, sentou-se ao jantar, esperou que pusesse comida nos pratos e, como quem apenas comenta o tempo, disse entre duas garfadas:

Mariana, contei à minha mãe das férias. Ela gostava de ir também, podes marcar mais um lugar?

O garfo ficou suspenso a meio caminho. Larguei-o devagarinho, olhei-o nos olhos, a tentar distinguir se estava a brincar ou era mesmo sério.

Desta vez não calei.

Não, António. Não vou de férias com a tua mãe.

Ele parou de mastigar e olhou-me como se eu tivesse dito um disparate qualquer.

Mariana, não faças isso. Ela fica triste sozinha, já não vai ao mar há três anos. Custava-te muito?

Levantei-me e fui até à janela, agarrei o parapeito com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Senti tudo o que vinha engolindo há meses subir, quente e imparável, até à garganta.

Que vá com as amigas! Tem cinco, António, cinco senhoras que se juntam todas as semanas para um cházinho! Que vá com elas, e que nos deixe em paz!

Mariana, é a minha mãe. Por favor…
Eu sei que é a tua mãe! virei-me para ele, toda a contenção de meses a rebentar num só grito. Eu sei perfeitamente, porque ela está à nossa volta vinte e quatro horas por dia! O cinema é com ela, o gelo é com ela, o teatro, os jantares! Estou cansada de ser a segunda mulher destes teus relacionamentos, António, percebes isso ou não?!

António afastou o prato e levantou-se, cruzando os braços.

Estás a ser egoísta, Mariana. Não percebes o que é estar sozinha.

Não percebo, nem sou obrigada! És o meu marido, António! Marido! Só quero umas férias normais contigo, a dois, finalmente! Não me apetece mais passar dias deitada numa espreguiçadeira a olhar para ti e para a tua mãe a discutir a tensão dela, enquanto eu fico ali de lado, invisível!

Ele apertou os olhos e afastou-se um pouco.

Estás a ser injusta. Olha, é simples: ou a minha mãe vai connosco, ou não vou.

Fiquei a olhar para ele, demoradamente. E nesse instante, cá dentro, alguma coisa partiu de vez.

Pronto. Nesse caso, vou eu sozinha.

Passei por ele, fui ao quarto, tirei a mala debaixo da cama e atirei-a para cima da colcha. António apareceu logo à porta.

Mariana, mas estás a fazer o quê? Pára, vamos conversar.

Temos sempre conversas, António. E acabam sempre na tua mãe. Peguei num vestido do cabide e pus delicadamente na mala. Vou tratar do divórcio. Não aguento mais viver numa relação a três, onde sou sempre a mais.

António ficou calado, encostado à ombreira, finalmente a perceber que, desta vez, eu não estava só a discutir tinha decidido.

… Dois meses depois, estava deitada numa espreguiçadeira ao lado da piscina do hotel na Madeira, aquele mesmo das fotografias e opiniões que tinha pesquisado tanto. O sol batia-me nos ombros, o cheiro do Atlântico vinha suave, e o copo gelado formava gotas de água. Ninguém ao lado a falar da tensão ou das vizinhas, ninguém a reclamar. Só eu e era perfeito. Bebi mais um trago, fechei os olhos e pensei que devia ter tratado disto muito mais cedo, em vez de perder dois anos com alguém que nunca soube ser adulto.

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Ou a Mãe Vai Junto, ou Ninguém: Quando Um Casamento a Três Não Cabe Numa Casa Portuguesa
Estás a Transformar o Teu Filho num Fraco – Porquê pô-lo nas aulas de música? Dona Lurdes passou pela nora tirando as luvas. – Olá, Dona Lurdes. Entre, por favor, é um prazer vê-la. O sarcasmo não tocou a sogra, que atirou as luvas para a cómoda e virou-se para Maria. – O Rui contou-me ao telefone. Está radiante, disse — vou tocar piano! Isso é coisa de rapaz? Queres fazer dele menina? Maria fechou a porta devagar, a conter-se para não gritar. – Significa que o seu neto vai estudar música. Ele gosta muito. – Gosta! – Dona Lurdes bufou como se Maria dissesse um disparate. – Tem seis anos, não sabe do que gosta. És tu quem deve guiar. Rapaz, herdeiro, meu neto – o que estás a criar dele? A sogra foi para a cozinha, ligando a chaleira. Maria seguiu, maxilares cerrados. – Quero criar um filho feliz. – Estás a criar um molengão! Devia ser futebol! Judo! Para ser homem, não… Piano! Maria encostou ao ombral e contou até cinco. Não adiantou. – O Rui pediu. Pessoalmente. Ele adora música. – Adora! – a sogra desdenhou. – O Sérgio com a idade dele jogava à bola na rua! E o teu só as suas escalas? Que vergonha! Algo partiu dentro de Maria. Aproximou-se da sogra. – Já acabou? – Não acabei! Já queria te dizer… – Eu também queria dizer, – Maria baixou a voz – O Rui é MEU filho. E é a mim que cabe decidir como criá-lo. Não admito intromissão. Dona Lurdes corou de fúria. – Tu… como é que falas comigo?! – Saia. – O quê?! Maria pegou no casaco da sogra e deu-lho. – Saia da minha casa. – Estás a pôr-me na rua?! Eu?! Maria abriu a porta, agarrou o braço da sogra e levou-a até à saída. Dona Lurdes resistiu, mas Maria foi mais firme. Empurrou-a para fora. – Hei de conseguir! – Dona Lurdes gritou, furiosa. – Não deixo que estragues o meu neto! – Adeus, Dona Lurdes. – O Sérgio vai saber de tudo! Maria fechou a porta, recostou-se, expirou devagar. Continuaram a ouvir-se gritos abafados, depois passos na escada. Silêncio. A sogra esgotou-lhe a paciência – sempre a criticar, a dar conselhos, a ditar regras. O Sérgio desculpava: “A minha mãe só quer o melhor”, “Tem experiência”, “O que custa ouvi-la?”. Ele idolatrava-a. Maria aguentava, dia após dia, visita após visita. Mas não hoje. Sérgio chegou perto das oito. Maria ouviu a fechadura, soube que a sogra já lhe telefonara: o gesto brusco com as chaves, o andar pesado até à cozinha, sem olhar para o filho Rui que via desenhos animados. – Rui, querido, senta-te aqui – Maria pôs os auscultadores e ligou o desenho favorito. – Vou falar com o pai. Rui acenou, Maria fechou a porta do quarto e foi à cozinha. Sérgio estava à janela, braços cruzados. Nem se virou. – Expulsaste a minha mãe. Nem perguntou. Constatou. – Pedi que fosse embora. – Atiraste-a pela porta! – Sérgio soltou, tenso. – Chorou duas horas ao telefone! Duas horas, Maria! Maria sentou-se, exausta. – Não te preocupa que ela me tenha ofendido? Sérgio hesitou. Depois encolheu os ombros. – Ela só se preocupa com o neto. Qual o mal? – Chamou o nosso filho de molengão. Um menino de seis anos. – Exagerou, mas a minha mãe tem razão. O Rui precisa de desporto. Espírito de equipa… Maria olhou-o longamente, até ele baixar o olhar. – Obrigaram-me a fazer ginástica na infância. Cinco anos, Sérgio. Cinco anos a chorar antes dos treinos. Sofria, magoava-me, implorava para sair. Sérgio calou-se. – Até hoje não posso entrar num ginásio. Não desejo isso para o meu filho. Se ele quiser futebol, ótimo. Mas só se ELE quiser. Sou contra obrigar. – A minha mãe só quer o melhor… – Então que tenha outro filho e o crie como quiser – Maria levantou-se. – Não admito intromissões, nem dela nem tu, se estiveres do lado dela. Sérgio ia responder mas Maria já saíra. Não falaram o resto da noite. Maria adormeceu Rui e ficou tempo a ouvi-lo respirar. Dois dias em silêncio. Sérgio fez uma graça ao jantar, Maria sorriu — o gelo começou a quebrar. Na sexta-feira já conversavam, mas evitavam falar da sogra. No sábado Maria despertou cedo — oito horas, cedo de mais para o fim de semana. O que a acordara? Depois ouviu o clique metálico na porta. Alguém a abrir. Maria foi ao corredor, coração a saltar — ladrões? Em pleno dia? A porta abriu. Era Dona Lurdes, com um molho de chaves, a sorrir vitoriosa. – Bom dia, minha querida. Maria descalça, de pijama, viu a sogra a entrar como dona da casa. – Onde arranjou essas chaves? Dona Lurdes acenou com elas. – O Sérgio deu-mas. Veio cá, pediu desculpa e deu. Para eu poder ver o neto, já que me barraste a entrada. Maria piscou, tentando processar. – O que faz aqui? A esta hora? – Vim buscar o Rui. Inscrevi-o no futebol, hoje é dia de treino! A raiva fez Maria disparar para o quarto. Sérgio fingia dormir — Maria viu os ombros tensos. – Levanta-te! – Maria, não agora… Arrancou-lhe o lençol e levou-o pela mão até à sala. Dona Lurdes já se sentara no sofá, folheando uma revista. – Deste-lhe uma chave – Maria parou no meio da sala, segurando o pulso do marido – Da MINHA casa. Sérgio calou-se, embaraçado. – Esta casa é minha, Sérgio. Comprei antes de casar, com o meu dinheiro. Como pôde dar uma chave à sua mãe? – Muito mesquinha! – Dona Lurdes lançou a revista. – Só pensas em ti! O Sérgio pensou no filho, por isso deu. Para eu estar com o neto, já que me proíbes de entrar. – Cale-se! A sogra engasgou de choque. Maria só olhou o marido. – O Rui não vai ao futebol. A não ser que queira. – Quem decide isso não és tu! – a sogra levantou-se. – Tu não és nada! Só estás de passagem na vida do meu filho! Achas que és única? O Sérgio só te atura por causa do menino! Silêncio. Maria virou-se lentamente para o marido, de cabeça baixa. – Sérgio? Nada. Nem uma palavra para a defender. – Muito bem – Maria acenou. Um estranho frio apoderou-se dela. – Se sou passageira, esse caminho acaba aqui. Fique com o seu neto, Dona Lurdes. Já não é meu marido. – Não tens coragem! – a sogra empalideceu. – Não tens direito! – Sérgio, – Maria em voz baixa – Tens meia hora. Arruma as tuas coisas e vai. Ou eu ponho-te fora em pijama, não me ralo. – Maria, espera… – Já conversámos. Virou-se para a sogra com um sorriso torto. – Pode ficar as chaves. Hoje troco as fechaduras. …O divórcio demorou quatro meses. Sérgio tentou voltar, telefonou, trouxe flores. Dona Lurdes ameaçou tribunal, pensões, contactos. Maria contratou um bom advogado e nunca mais atendeu. Passaram dois anos depressa… …No auditório da escola de artes, Maria sentada na terceira fila, apertava o programa: «Rui Silva, 8 anos. Beethoven, Ode à Alegria». O Rui entrou em palco, sério, concentrado, na camisa branca e calças pretas. Sentou-se ao piano. As primeiras notas encheram o auditório e Maria deixou de respirar. O seu filho tocava Beethoven. O seu filho de oito anos que pediu para ir para música, que praticava horas seguidas, que escolheu esta peça para o concerto. Quando tocou o último acorde, o público aplaudiu como nunca. Rui levantou-se, curvou-se, procurou a mãe e sorriu — aberto, feliz. Maria bateu palmas com todos, sentiu lágrimas a escorrer pelas faces. Tudo certo. Fez tudo certo. Pôs o filho acima de tudo — acima das opiniões, do casamento, do medo. Assim é ser mãe…