A mãe só queria ajudar
Já soubeste? A Aninhas teve o segundo neto! Dona Graça enche a chávena da nora com mais chá. Rapaz, três quilos e oitocentos. Forte e bochechudo, vê lá tu!
Leonor acena, envolvendo a chávena quente nas mãos. Em casa de Dona Graça está sempre frio ela poupa no aquecimento mas à mesa nunca falta nada: travessas de bolos, rissóis, salada russa, como se Leonor ali aparecesse para um casamento e não só para chá.
E vocês, tu e o Miguel, nunca me dão essa alegria? Leonorzinha, mas quanto tempo é que vão esperar? Vocês não têm vinte anos, pois não? O Miguel já fez trinta e um, tu vinte e oito. Olha que está na altura! Dona Graça empurra para Leonor uma taça de doce de abóbora. Eu pensava que já andava de netinho ao colo e vocês sempre a adiar, sempre logo se vê, logo se vê.
Dona Graça, agora as coisas estão difíceis responde Leonor num tom suave, cuidando em não ferir suscetibilidades. Estamos a juntar dinheiro para casa própria. Entre bebê e prestação do banco, era impossível, percebe? Primeiro a nossa casa, depois logo se pensa em filhos
Dona Graça faz um gesto largo, como se enxotasse um mosquito teimoso.
Que tolices! Tenham o bebé e depois logo se vê! Eu e o Artur começámos num quarto de dezoito metros num apartamento partilhado. Criámos o Miguel sem grandes luxos, mas fez-se homem e estudou. E vocês sempre com esses cálculos… assim nunca vão ter filhos!
Leonor bebe um gole de chá, ganhando tempo. Lá fora, o céu de fevereiro está cinzento e a chuva ou será granizo derretido? escorre pelas janelas. Na sala ao lado, faz-se ouvir o velho relógio de parede que Dona Graça trouxe ainda de casa dos pais.
Agora não é assim tão fácil As contas, a alimentação, as fraldas, médicos coloca a chávena na mesa. Vivemos de cabeça à água.
Fico com o neto, ora essa! exclama a sogra, abrindo um sorriso largo. Tu só tens de dar à luz! Depois eu trato de tudo: passeio, dou de comer, acordo de noite!
Leonor sente um aperto: não raiva, só irritação, densa e cansada.
Dona Graça, eu quero criar o meu filho. Não quero ir trabalhar três meses depois de ser mãe, só para ganhar dinheiro. Quero estar com ele. Os primeiros anos são tão importantes
A sogra faz beicinho e vira-se de costas, olhando para a rua. Leonor já conhece a expressão agora vai ficar em silêncio, a arrumar loiça com barulho, a mostrar quanto ficou magoada com as palavras da nora.
Leonor acaba o chá e levanta-se.
Obrigada pelo lanche, tenho de ir. O Miguel pediu para estar em casa às sete.
A sogra acena apenas, sem levantar os olhos. Leonor veste o casaco, beija a sogra na face rápido, sem calor e sai.
No táxi, encosta a testa ao vidro frio, os olhos fechados. Vêem-se prédios cinzentos, outdoors que anunciam hipermercados, gente de gabardina escura a caminhar depressa. Dona Graça não entende: os tempos mudaram. Ter filhos sem pensar, à espera que tudo corra bem, é coisa do passado. Um filho é responsabilidade. Leonor quer dar ao futuro bebé tudo: um quarto só dele, uma boa escola, atividades. Mas para isso uma casa. Própria.
Dois meses depois…
Essa noite, Leonor faz frango assado com batatas para o jantar o preferido do Miguel. Dona Graça tinha ligado no dia anterior a dizer que precisava de conversar. Leonor não ligou: conversas da sogra são quase sempre receitas novas ou queixas dos vizinhos.
Mas quando se sentam à mesa e Dona Graça afasta o prato, Leonor percebe logo que ali há assunto mais sério.
Lembras-te da tia Alzira, prima da minha mãe? pergunta, olhando ambos. Faleceu o mês passado… Coitada.
Miguel faz que sim. Leonor recorda-se vagamente da tia Alzira, de um Natal longínquo.
Pois, ela deixou-me o apartamento. Dois quartos, precisa de uns arranjos, mas é bom, prédio de pedra sólida.
Miguel apita, admirado.
A sério, mãe? Isso é excelente!
Espera atira Dona Graça, levantando a mão. Quero passar o apartamento para o vosso nome.
Leonor fica imóvel, garfo suspenso.
Mas com uma condição diz, olhando fixamente para Leonor. Quero um neto. Ou neta, tanto faz. Dão-me um filho e a casa passa para vocês.
O silêncio toma a cozinha. Só se ouve a torneira a pingar.
Dona Graça fala logo a seguir, rápida, afobada, como se tivesse medo de ser travada.
Agora não precisam de juntar mais nada! A casa é vossa, pronta. E o dinheiro que pouparam pode ir todo para o bebé: carrinho, berço, roupinhas, essas coisas que custam tanto! Assim já não se preocupam com prestações ou contratos de arrendamento.
Miguel olha para Leonor, esperando. E Leonor sente que não há como contrariar. Eles queriam um filho, só tinham esperado por uma solução para a casa. E de repente, tudo se resolve com uma assinatura.
Aceitamos diz Leonor, colocando a mão sobre a do marido. Já queríamos muito, só esperávamos o momento certo.
Dona Graça sorri, luminosa, como se tivesse acabado de receber um prémio.
Um ano depois…
O Martim faz um mês hoje. Leonor embala-o no quarto, murmurando uma cantiga sem letras, quando ouve a porta de casa destrancar-se. Espreita para o corredor, filho bem junto ao peito.
Miguel, estás tão cedo?
É Dona Graça no hall, de sacos nas mãos, sorriso de dona de casa.
Dona Graça? Como entrou?
A sogra ergue a mão: no porta-chaves cintila uma margarida de plástico.
Fiquei com uma cópia, só por precaução. Nunca se sabe, não é? Se precisarem de ajuda e não abrirem
Leonor engole o protesto. Não é o momento. O Martim acabou de adormecer, uma discussão só ia acordá-lo.
Dona Graça já está na cozinha, a sacudir a cabeça perante a pilha de chávenas e uma taça esquecida.
Isto hoje está um caos, Leonorzinha! Loiça por lavar, migalhas na mesa… abre o frigorífico e suspira. Só há iogurte e queijo? O Miguel chega daqui a nada, como é que o vais alimentar?
Leonor segura o Martim, que mexe, mas não acorda.
Estive sempre com ele ao colo, Dona Graça. Ele só adormece assim.
A sogra dirige-se ao quarto do bebé, e Leonor segue atrás. Dona Graça revira o trocador, observa o material do Martim com ar crítico.
Isto aqui não está certo. E essas fraldas, tão ásperas! Não servem para a pele do menino.
São fraldas de flanela, macias.
Sei bem o que são macias! Eu criei um filho, Leonor contrai os lábios. E tu ficas o dia todo em casa. Porque está a casa virada de pernas para o ar?
Leonor aponta para o Martim a dormir:
Por causa dele.
Bah, desculpas riposta a sogra. No meu tempo, fazia tudo: cozinhava, lavava, limpava e ainda cuidava do Miguel. E dei conta do recado, sem dramas.
Vai-se embora passadas duas horas, deixando a casa com os biberões mudados de sítio, as fraldas reorganizadas e uma sensação em Leonor de que foi atropelada.
Quando Miguel chega do trabalho, Leonor espera que coma e depois senta-se bem em frente a ele.
Miguel, isto não pode continuar. A tua mãe entra em casa quando lhe apetece, tem chave dela própria. Eu estou exausta, não durmo, e por cima, levo inspeções dela.
Miguel baixa os olhos.
A minha mãe só quer ajudar, Leonor. Não faz por mal.
Quando é que ela passa o apartamento para o teu nome?
Miguel hesita.
Diz que não tem pressa. Que não importa, que vivemos aqui na mesma.
Leonor crava as unhas na mesa, pálida.
Passam mais três meses…
Dona Graça é visita constante. Aparece a qualquer hora, encontra defeitos no modo como Leonor alimenta o Martim, como lhe troca as fraldas, como o veste para sair. Cada visita termina com lições de moral ou silêncios magoados pela ingratidão da nora. Leonor protesta ao marido e ele encolhe os ombros O que posso eu fazer?
Até que uma noite, Leonor rebenta. Logo que a sogra sai, puxa da mala.
Arruma suas coisas. Depois, as do Martim: fraldas, biberões, brinquedos favoritos. Miguel aparece no corredor.
Vais aonde, Leonor?
Para casa da minha mãe.
Vá lá, isto são discussões, passam
Miguel fecha a mala e encara-o. Ou a tua mãe deixa de meter os pés nesta casa, ou saio eu e o Martim. Decide.
Ele fica calado, a olhar para o filho, para a senhora e para a mala. Depois senta-se no sofá e esconde o rosto nas mãos.
Leonor espera. Cinco segundos, dez, quinze.
Miguel não se mexe.
Ela chama um táxi e parte.
Miguel liga no dia seguinte. E depois. E uma semana depois. Promete falar com a mãe, pede-lhe que regresse. Mas nunca tira a chave à Dona Graça ela continua senhora da «casa oferecida».
O divórcio é assinado meio ano depois. Miguel paga pensão só porque o tribunal decide de vontade própria nunca adiantou um cêntimo.
Leonor volta a casa da mãe, para o quarto de infância com papel de parede florido. A mãe ajuda com o Martim, fica com ele enquanto Leonor trabalha: primeiro meio-dia, depois o dia inteiro. É duro, muito mais duro do que sonhava.
Mas à noite, com o Martim adormecido, a cabecinha no seu ombro, Leonor percebe que vai conseguir. Tem de conseguir. Por ele.
Já que o pai foi demasiado fraco para proteger a família.







