Mais Próximo do Coração, Impossível… Vera e a filha desceram do autocarro à entrada da aldeia. Po…

Mais próxima, impossível…

Madalena e a filha saíram do autocarro junto à estrada, à entrada da aldeia. Por entre as nuvens cinzentas de inverno, um raio de sol rompia, e o frio fazia corar-lhes as faces, enquanto a neve brilhante quase cegava Constança, que semicerrava os olhos.

Mãe, porque é que aquela casa está vazia? perguntou Constança, enquanto passavam por uma das únicas casas abandonadas da aldeia.

Ali morava uma velhinha, já há muitos anos. Nunca vi ninguém da família a visitá-la. Tinha cento e dois anos quando faleceu.

Aquecia o forno sozinha, mas para ir à mercearia ou buscar água, alguém dos vizinhos dava uma mão. Deixavam-lhe sacos de comida ou baldes de água à porta, e no dia seguinte lá iam buscar o dinheiro ou o balde vazio. Nós, as raparigas, também ajudávamos.

E nunca ninguém roubou o dinheiro nem a comida? espantou-se Constança.

Ninguém nunca roubou, não. Achavam que a velhinha era bruxa, tinham receio dela. Um dia, o saco de comida ficou por recolher, e perceberam que ela tinha morrido. Mesmo assim, hesitaram em entrar na casa. Mas, no fim, alguém entrou e trataram do funeral. Desde então, ali ficou tudo ao abandono.

Uma bruxa verdadeira?!

São histórias, filha. Era só uma senhora idosa. Nem se sabia a verdadeira idade uns diziam que duzentos, outros trezentos anos! Depois encontraram a certidão na Junta de Freguesia: cento e dois fazia ela.

Já estavam longe da casa abandonada, rodeadas de habitações cuidadas e quintais com neve limpa.

Talvez seja por isso que ninguém quer aquela casa… têm medo? Constança não deixava de pensar na história da velhinha.

Madalena avistou uma figura conhecida ao fundo do caminho.

Olha, a avó vem aí receber-nos! Vai, corre! disse a mãe, sorridente, e também ela apressou o passo.

Avó! gritou Constança, correndo para os braços abertos da avó Teresa, pronta para a encher de abraços.

Madalena crescera naquela aldeia e adorava voltar. Ali, o ar era mais leve, sentia-se em casa.

Mãe! Madalena abraçou-se à mãe, que a apertava com um braço e, com o outro, aconchegava a neta.

Já pressentia que vinham, por isso fiz uns bolos. Todos os sábados venho cá fora ver se chegam, fico sempre à espera. Então, andamos a gelar aqui? Para dentro, vamos lá!

A casa estava quente, o cheiro a lenha, a bolo acabado de fazer e a algo mais, indefinível, enchia o ar uma fragrância entranhada nos troncos, nas paredes, em tudo, com os anos. Tudo estava como antes. Madalena olhou em volta e sorriu com felicidade sentir-se em casa era reconfortante.

Que bom terem vindo. Ficam muitos dias? Teresa olhou preocupada.

O pai ficou a trabalhar, mãe. Nós não aguentámos mais e viemos. Nas férias do Natal, era para virmos, mas a Constança ficou doente e depois o Alexandre também. Domingo à noite regressamos, segunda é dia de trabalho.

Madalena notou o quanto a mãe tinha envelhecido e foi dar-lhe um abraço apertado. O pai tinha morrido há dois anos, mesmo sendo mais novo. Desde então, a mãe parecia ter perdido as forças a vida na aldeia nunca foi fácil.

Vou servir-vos de comer, hão de vir esfomeadas! Teresa dirigiu-se para a cozinha, separada da sala por um fogão de lenha antigo, e fez tilintar pratos e talheres. Constança foi atrás da avó, sempre a fazer companhia.

Teresa colocou a mesa com calma. Madalena e Constança pareciam que comiam com os olhos, mas saborearam um pouco de tudo e, satisfeitas, a pequena encostou-se ao colo da avó.

Vieste cansada da viagem, minha flor. Estás tão crescida! Ainda me vais passar à frente…

Vamos, vou deitar-te aqui.

Durante anos, aquele cantinho fora de Madalena. A casa era só uma grande divisão, e, quando era preciso, separavam com um armário ou cortina.

Deixa-a descansar, está exausta. Teresa voltou junto da filha. Então, conta lá como têm passado. Está tudo bem?

Está, mãe. Olhe, na estação vimos a dona Filomena, da aldeia vizinha. E ela chamou-me de Carla. Eu disse que sou Madalena, filha da Teresa, mas ela só se lembrava de mim como Carla. Sou assim tão parecida com a sua irmã? Tem uma fotografia dela?

Já viste mais do que uma vez… Teresa desviou o olhar.

Quero ver outra vez, mãe.

Pronto, eu trago, deixa só arrumar a loiça suspirou Teresa.

Trouxe uma caixa antiga, cheia de fotos a maior parte já a preto e branco, bem gastas, mas também algumas a cores.

Olha tu pequenina. Aqui no quinto ano. E a Constança é a tua cara chapada. E esta… Teresa franziu a testa sabes quem é?

Sou eu! Mas não tenho nenhuma assim… sorriu Madalena.

Não, é a tua tia Carla. corrigiu Teresa, com emoção. Bem parecidas, mesmo.

E esta é da formatura disse, mostrando uma foto colorida de uma jovem loira, bonita. Parecia uma artista.

Madalena demorou-se na fotografia.

Engraçado, mãe, mas consigo ver que de ti não herdei muito. olhou para Teresa.

Pronto, está bem, chegou a hora. Já não faz sentido guardar segredo. Teresa fez uma pausa.

A Carla foi tua mãe de sangue, filha… Perdoa não ter falado antes. Foi só para te proteger.

A mãe já tinha idade e não queria mais filhos, andava sempre a fazer força, a carregar sacos e permanecer horas na horta, para ver se a perdia. Mas a Carla nasceu, linda. Eu já tinha quinze anos, tomei conta dela como ama.

Passados anos, como todos, a Carla quis a cidade. Saiu depois da escola e só veio dois anos depois: contigo nos braços. Eras tão frágil que tinha medo de te pegar. E a Carla… Parecia que te tinha dado toda a beleza.

Ficou diferente calada, ansiosa. Uns dias risonha, outros sombria. E dois dias depois, fugiu. Deixou-te aqui e foi-se embora à cidade. Precisava da droga, filha. Só depois percebi. Pouco depois morreu de overdose. Fui ao funeral, a avó já estava doente e não foi.

Ela quis que te levasse ao orfanato, mas não deixei. Pensei: fico contigo afinal, irmã de sangue, não eras estranha. Alguém percebeu, mas ninguém comentou. Na vila, tratei de tudo, fizeram-te o registo em meu nome. E mudámos o nome a Carla chamou-te Bárbara, mas achei melhor ficar Madalena.

Um ano depois conheci o teu pai. Ele era militar, a Carla nunca lhe contou que estava grávida. Regressou, soube de tudo por amigas, e ficou connosco depois de ser dispensado por ferimentos. Nem a mãe recusou. Aqui sem homem é difícil. Depois casámo-nos, sempre feliz. Ele nunca soube das drogas. E eu calada, achei que era melhor que não soubesses. É mais fácil crescer sem saber dessas tristezas. Mas a verdade vem sempre ao de cima. Para mim foste, és e serás sempre filha de coração. Como diz o povo: mãe não é a que pare, mas a que cria.

Madalena ficou atordoada pela revelação. Tanto tempo a esconderem-lhe a verdade!

Para onde vais? assustou-se Teresa quando a filha se levantou.

Preciso de estar sozinha.

Vestiu-se e saiu para a escuridão gélida.

Uma mãe drogada, morreu de overdose! Nunca pensei… E o pai? Será mesmo? Quem sabe… Oh Deus! Isto é tudo tão confuso! Mas porque estou assim? Alguma vez me faltou amor? Tive sempre os melhores pais. E esta avó… Ela podia ter-me rejeitado. Não consigo chamá-la de outra coisa senão mãe.

Tudo isto dói, mas ela ali dentro também sofre… Madalena, já cansada dos pensamentos, gelada, voltou para casa. Teresa continuava sentada como Madalena a deixara.

Desculpa, mãe. Amo-te muito murmurou ela, abraçando-a.

Também eu, filha. Perdoa ter calado tanto tempo.

Porque estão às escuras? entrou Constança, vinda do quarto. Olha, uma foto da mãe! Como tu eras bonita!

Teresa tirou-lhe a fotografia, arrumou-as todas na caixa.

Avó, eu ainda não vi todas! protestou Constança.

O importante é veres a família enquanto cá estamos, filha.

À noite, Madalena não conseguia dormir. Da cama, ouvia também os suspiros e o ranger da colchão da mãe.

Levantou-se e foi até ao quarto da mãe.

Não dormes?

Teresa afastou o cobertor.

Vem para aqui. O chão está gelado.

Madalena aninhou-se junto ao calor da mãe, tal como em criança.

Ainda pensas nisso tudo? perguntou Teresa.

Já não estou aflita. Tu és a minha mãe, sempre foste. Não preciso de outra. A Carla era tua irmã.

Conversaram baixinho até tarde. Depois, Madalena voltou para a sua cama, aconchegou o edredom à mãe, tal como ela fazia quando era pequena, e adormeceu em paz.

No dia seguinte, Teresa acompanhou-as ao autocarro.

Não chores, avó, logo voltamos! gritou Constança.

Madalena abraçou a mãe com força, registando o cheiro doce a lar.

Vai, ou ficas com frio…

Embora o autocarro já tivesse partido, Teresa ficou ali parada a olhar a estrada, os olhos a brilhar com o frio e as saudades.

Foi assim, com trinta e três anos, que Madalena soube que a mãe morreu quando ela ainda era bebé, e foi criada pela irmã mais velha da mãe.

A primeira reação foi a dor da mentira, do segredo. Depois percebeu: as duas eram irmãs de sangue e ambas seriam sempre suas mães. A que cria e ama é a verdadeira mãe do coração. Não há amor mais genuíno que este e ter alguém assim, é a maior sorte da vida.

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