Por favor, aceitem-me de volta

Aceita-me de volta, por favor
Mãe, tu não precisas mesmo Tiago não conseguiu terminar.
Dona Manuela balançou a cabeça devagar, passando os dedos pelo braço da velha poltrona. A casa cheirava aos seus perfumes e à lavanda seca que ela guardava em cada divisão. Mas aqueles aromas, em breve, iam desaparecer.
Isto não é para ti disse ela. É para o Gabriel. O miúdo precisa de um lar. Um a sério, e não uma caixa alugada, onde o senhorio o pode pôr fora a qualquer momento. E aconteça o que acontecer contigo e com a Catarina, filho, a casa deve ficar para o Gabriel. É o que eu quero.
Catarina estava junto à janela, com a mão pousada no ombro do filho. O Gabriel mexia-se inquieto, sem perceber bem por que motivo os adultos falavam naquele tom baixo e cauteloso.
Obrigado Tiago finalmente conseguiu dizer, com a voz embargada. Obrigado, mãe. A sério.
Dona Manuela desvalorizou o agradecimento. Olhou para o Gabriel, e o rosto suavizou-se por completo.
Anda cá, meu querido.
O Gabriel atravessou a sala e deixou-se puxar com ternura. As mãos da avó tremiam um pouco ao segurarem-lhe o rosto.
Sabes, Gabrielzinho? És a melhor coisa que me aconteceu. Tens os meus olhos. O meu teimosia. O meu péssimo gosto para música.
Ó avó murmurou Gabriel, envergonhado mas feliz.
Esta casa é tua continuou Dona Manuela, mais séria. Vai ficar no nome do teu pai, porque ainda és menor. Mas és tu a razão para a entregar agora, enquanto ainda posso. Somos uma família, Gabriel. Quero cuidar de ti como deve ser.
Dois meses depois, Dona Manuela deixou de respirar…
O apartamento de três quartos engoliu-os por inteiro. Aos sábados, Tiago arrancava os papéis de parede floridos, pintava manchas antigas, instalava novas luminárias. Catarina arrumava e rearrumava tudo, tentando encaixar as coisas entre as memórias da mãe.
Gabriel corria de sala em sala, encantado com o espaço. Finalmente, tinha o seu próprio quarto, paredes onde podia colar posters sem pedir autorização.
Pai, posso pôr a secretária junto à janela?
Podes pôr onde quiseres, filho, é o teu quarto.
Tiago observava o filho a organizar bonecos no parapeito. Graças à mãe, tinham uma casa. Devia estar feliz, agradecido.
Ao invés disso, sentia as paredes a apertarem-lhe. Rotina, previsibilidade, dias todos iguais. Acordar, trabalho, casa, jantar, televisão, dormir. Até ao fim…
A cafetaria ao pé do escritório começou a ser o seu refúgio. Entrava lá depois do trabalho, adiando o regresso por meia hora, depois por uma. A barista já sabia o que ele ia pedir. O cantinho perto da janela era, na prática, só dele.
Foi ali que conheceu a…
Ela soltou uma gargalhada ao ver o telemóvel alto, sem receios. O riso abafou o ruído do café. Tiago ergueu os olhos do computador, ela apanhou o olhar dele e, em vez de desviar, ergueu a sobrancelha.
Desculpe disse, sem nenhum pesar na voz. A minha amiga mandou-me a pior piada do mundo. Quer ouvir?
Tiago devia ter recusado. Devia ter terminado o orçamento e ido para casa, com a esposa e o filho.
Força respondeu ele…
Chama-se Patrícia. Trabalhava numa agência de publicidade, odiava o emprego, adorava trocadilhos parvos. Patrícia era viva, espontânea, autêntica.
Estás a afundar-te disse ela na terceira vez que se encontraram.
Eu não estou a afundar. Tenho uma vida boa.
Mas és feliz?
Três semanas depois, acordaram na mesma cama…
Tiago contou a verdade à Catarina nessa noite. Viu o rosto dela mudar enquanto as palavras iam fazendo sentido.
Dormiste com outra repetiu Catarina devagar.
Sim.
Tiago ficou calado. Qualquer coisa que dissesse só tornaria tudo pior.
Catarina atirou-lhe uma toalha. Acertou no peito e caiu no chão um gesto mais triste do que agressivo, que só aumentou a raiva.
Traíste a tua família por uma mulher qualquer? Catorze anos, Tiago. Catorze anos de casamento, e ficaste aborrecido?
Não é aborrecimento.
Então o quê? gritou Catarina. Explica. Porque eu sou estúpida demais para perceber porque é que o meu marido decidiu deitar tudo abaixo!
Tiago passou as mãos pela cara.
Sinto-me a sufocar contigo e com o Gabriel. Todos os dias igual. Trabalho, casa, jantar, dormir. Precisava de sentir algo diferente. Algo vivo, de verdade.
Algo vivo? Catarina riu, mas as lágrimas já caiam Dei-te um filho. Dei-te os melhores anos da minha vida. E tu precisavas de te sentir vivo?
No fundo do corredor, ouviu-se o clique de uma porta. Gabriel tinha acordado e estava escondido no quarto. Tiago sentiu-se engolido pelo pânico por pensar no que o filho podia ter ouvido.
Pronto. Catarina limpou o rosto, borrando ainda mais a maquilhagem. Pronto, Tiago. Queres ir embora? Divorciamo-nos. Não vou prender-te. Mas vamos falar da casa. A tua mãe queria que ficasse ao Gabriel. Ela disse-lhe isso cara a cara…
A casa fica para mim.
Catarina congelou.
O quê?
Os papéis estão em meu nome Tiago não conseguiu encará-la. Legalmente é minha propriedade. Vocês vão ter de procurar outro sítio para viver.
Vais pôr o teu filho na rua sussurrou Catarina, chocada. O teu próprio filho. O miúdo a quem a tua mãe deixou esta casa.
Não estou a expulsar ninguém. Vão ter tempo para encontrar um sítio novo. Eu ajudo com o primeiro mês de renda, com o que precisarem, mas…
És um monstro. Catarina agarrou-se ao tampo da mesa. Não és homem, nem pai és nada. A tua mãe ia vomitar se visse o que te tornaste…
Na manhã seguinte, Catarina fazia as malas enquanto Gabriel, sentado na cama, olhava para as paredes onde só agora tinha colado os posters. O rapaz não olhou para o pai. Não disse nada. Apenas saiu atrás da mãe.
… O divórcio ficou concluído três meses depois. Tiago pagava pensão pouco, mas suficiente para o tribunal. Todos os domingos ligava ao Gabriel, e todos os domingos o telefonema era rejeitado. As mensagens nunca recebiam resposta. As lembranças de aniversário eram aceites, mas sem um agradecimento.
Com o tempo, Tiago deixou de tentar. O miúdo está magoado, dizia para si. Vai crescer vai perceber que os adultos às vezes têm de tomar decisões difíceis.
Patrícia mudou-se para junto dele duas semanas depois de Catarina sair. Encheu o apartamento de velas, almofadas decorativas e música a tocar a toda hora. Cozinhava pratos caros e complicados e fazia questão de ir às compras todos os fins de semana. Ao lado dela, Tiago sentia-se jovem, irresponsável e absolutamente, excitantemente livre.
Mas meio ano depois, o saldo bancário ficou nos quarenta e três euros.
Hotéis, restaurantes, idas impulsivas às lojas que faziam a Patrícia rodopiar com vestidos que custavam mais do que o salário mensal de Tiago para comida. Tudo era tão agradável que ele nem notava o problema, até ver o saldo esvaziar.
Temos de falar sobre os gastos disse Tiago a Patrícia nessa noite.
Depois, fofinho, falamos logo à noite. Vou encontrar-me com as amigas.
Ela deu-lhe um beijo na bochecha, agarrou a mala nova aquela que ele comprou no mês anterior e saiu porta fora.
Nessa noite, Patrícia não voltou…
Na manhã seguinte entrou e disse-lhe que não via futuro na relação. Que estava aborrecida ao lado dele e se sentia a sufocar… Patrícia arrumou tudo rapidamente e saiu tal como entrou: leve e sem peso.
Duas semanas depois, Tiago só se lamentava. Andava pela casa vazia na mesma roupa, deixava louça suja na bancada, nem abria as cortinas. O discurso era só um: todos o tinham abandonado. O filho não falava com ele. A ex-mulher levou o melhor e saiu. E Patrícia, bela e despreocupada, evaporou-se exatamente quando acaba o dinheiro.
Na terceira semana, a auto-piedade deu lugar ao desespero. Tiago tomou banho, fez a barba, vestiu a melhor camisa e atravessou Lisboa até ao endereço que Catarina escreveu na papelada do tribunal.
O prédio era antigo, mas decente. Prédio típico de bairro, paredes recém pintadas, elevador a funcionar. Catarina abriu a porta sem perguntar a razão.
Gabriel chamou ela, por cima do ombro o teu pai está aqui.
Tiago entrou pelo corredor estreito, a observar o espaço modesto onde agora vivia a família. Dois quartos em vez de três. Cozinha pequenina.
Mas ali tudo respirava conforto e vida.
O Gabriel apareceu à porta do quarto. O rapaz tinha crescido nestes meses sem que Tiago o visse de verdade, o rosto perdera algum do ar infantil. E no olhar, quando fitou o pai, não tinha um pingo de ternura.
Gabriel, sei que estás magoado comigo começou Tiago. Mas percebi o erro. Falhei. Mas agora quero mudar tudo. Podemos voltar a ser família. Nós os três. O teu quarto está à tua espera, Gabriel!
Catarina apoiou-se na parede, olhando para o ex-marido sem emoção.
As pessoas mudam continuou Tiago, para ambos. Tive tempo para pensar, e percebi o que perdi. Estou arrependido.
Não perdeste nada respondeu Gabriel, seco. Fizeste uma escolha. Escolheste ela, não nós.
Não é simples, filho.
Não me chames assim Gabriel deu um passo à frente. Expulsaste-nos da casa da avó. Do nosso lar. Escolheste a Patrícia, não nós.
Gabriel, por favor
E se acreditarmos em ti, o que acontece depois? interrompeu Gabriel. Vais conhecer outra e ficar aborrecido, e volta a correr connosco? Como lixo?
Tiago tentou defender-se:
Nunca mais faço isso. Prometo, mudei.
Gabriel abanou a cabeça, devagar.
Não quero um pai destes disse baixinho.
Virou costas e fechou-se no quarto.
Tiago olhou para Catarina, procurando algum apoio.
Catarina, fala com ele. Diz-lhe que percebi no erro, aprendi a lição.
Ela abanou a cabeça lentamente.
Eu também não te perdoaria, Tiago. Mesmo que implorasses. Caminhou em direção à porta. Tens-me nojo. Não porque traíste. Nem porque nos expulsaste. Mas porque só voltaste quando ela te deixou quando não tinhas mais ninguém.
Tiago nem sabia como chegou ao andar de baixo, nem como regressou a casa…
Tiago ficou sozinho nos três quartos, sozinho no apartamento grande. A mãe acreditava que ali ia viver a família dele. Mas já não havia ninguém ali. Ele afastou quem lhe queria bem. E corrigir já não era possível. Demasiado tardeO silêncio da casa tornou-se absoluto, ecoando até nos cantos que Dona Manuela nunca deixava empoeirar. Tiago sentou-se na poltrona velha da mãe, afundando-se no tecido esgarçado, sem perfume de lavanda só cheiro a saudade.
Durante semanas, ficou ali parado, a contar os erros como se fossem contas de um rosário. Olhou para os papéis amarelecidos juntos à lareira o testamento da mãe, a promessa que jurara cumprir.
Uma noite, enquanto a cidade dormia, Tiago abriu a gaveta da cómoda e encontrou a carta que Dona Manuela tinha escrito ao neto. Tremendo, leu o que ela falava: sobre amor, perdão, sobre famílias desfeitas e reconstruídas.
Na manhã seguinte, Tiago voltou a pegar no telemóvel. Mas desta vez não ligou não enviou mensagens. Desceu à rua, caminhou até ao jardim onde via Gabriel brincar antes de tudo ruir.
Sentou-se num banco, observou os miúdos correrem, e deixou o tempo passar. O sol foi caindo, os bancos ficaram vazios, mas Tiago não se levantou. Ficou ali até sentir que o remorso já não era só um peso, mas uma responsabilidade.
Na semana seguinte, assinou a transferência da casa. Entregou as chaves ao advogado de Catarina, sem pedir nada em troca. O apartamento tornava-se oficialmente do Gabriel, como Dona Manuela queria.
Tiago mudou-se para um quarto alugado, paredes nuas, sem memória nem fotos. Arranjou trabalho numa loja, o salário pequeno, mas bastante para gastos. Cada domingo, voltava ao jardim, sentava-se no banco. E, aos poucos, começou a conversar com famílias desconhecidas, a oferecer sorrisos como quem ensaia uma nova vida.
Meses passaram. Numa manhã cinzenta de inverno, Gabriel apareceu junto ao portão do parque. Tiago hesitou, depois ergueu a mão numa saudação tímida.
O rapaz aproximou-se.
Só queria ver se eras mesmo capaz de sair daquela casa disse Gabriel, sem sorrir, mas sem ódio.
Tiago assentiu, respirando devagar.
Era o que a tua avó queria respondeu e o que tu e a tua mãe merecem.
Por um instante, Gabriel pareceu pensar. Olhou para o pai, para o banco, para os campos de relva.
Não sei se consigo perdoar murmurou. Mas talvez um dia.
Tiago sorriu, lágrimas nos olhos.
Espero que sim sussurrou porque vou estar sempre à espera.
Gabriel assentiu. Não ficou, não abraçou. Apenas seguiu caminho.
Tiago observou o filho afastar-se, até desaparecer na curva do parque. O vento trouxe o cheiro da lavanda, como se Dona Manuela o abençoasse uma última vez.
Na solidão, Tiago sentiu o peso do arrependimento. Mas também, pela primeira vez, uma réstia de esperança: agora, ao menos, a escolha era dele podia esperar, podia mudar, podia morrer tentando. E, acima de tudo, podia finalmente aprender que ser família era mais do que habitar paredes: era merecê-las.
O sol rompeu as nuvens, e Tiago ficou ali, no banco do jardim, pronto para começar de novo.

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