Último Vestido
Filha, a filha da minha colega Dona Teresa Alves vai casar e quer encomendar contigo o vestido de noiva. Aceitas fazer?
Não, mãe, tenho imenso trabalho, não consigo dar conta. Que procurem outra costureira.
Ela só queria mesmo contigo, dizem que costuras como ninguém. Toda a gente recomenda o teu trabalho.
Mas mãe, não dá mesmo
Pronto, vão ficar desiludidas, claro…
Margarida trabalhava em casa, e os clientes nunca faltavam. Muitas vezes, tinha de recusar pedidos. Desde pequena sabia que queria costurar começou a fazer roupa para as bonecas e, acabada a escola, nunca teve dúvidas em que área seguir. Era meticulosa na costura, as roupas assentavam sempre na perfeição, e os clientes adoravam. Além do prazer que sentia a trabalhar, a costura dava-lhe um bom rendimento. Apesar das lojas cheias, muitos ainda preferiam encomendar a uma modista.
Uma semana depois, a mãe entrou de olhos vermelhos no atelier.
Filha, aconteceu uma tragédia… A Lara, a filha da Teresa Alves, que queria encomendar o vestido, morreu num acidente com o noivo. Iam visitar familiares em Coimbra, o Rafael adormeceu ao volante durante a noite. O carro saiu da estrada e foi contra uma árvore. Eram tão novos, tão felizes… Preparavam o casamento, e de repente o destino foi cruel. Em vez de casamento, agora é funeral Não dá para acreditar
Margarida ficou devastada. Como a vida pode ser tão injusta…
Agora os pais vão ter de comprar vestido de noiva para a enterrarem nele… Nem chegaram a encomendar… Que horror, enterrar uma filha assim
Nessa noite, Margarida ficou a costurar até tarde, cheia de pensamentos tristes. Ela própria nunca conseguiu ter filhos os médicos diagnosticaram-lhe infertilidade. Custou-lhe aceitar, mas já tinha feito as pazes com isso. Já tinha 43 anos e sabia que a idade não ajudava. Pensou em como seria doloroso enterrar uma filha, solidarizando-se com os pais dos jovens.
De repente, a janela abriu-se sozinha com uma corrente de ar forte. Margarida, intrigada, foi fechá-la; achava estranho, porque estava tudo bem fechado… Quando voltou ao lugar de trabalho, deparou-se com uma rapariga ao pé da mesa. Parecia translúcida, quase etérea.
Pronto, já vejo coisas… Devo estar mesmo cansada, isto só pode ser cansaço…
Costure-me um vestido, por favor. Não tive a oportunidade de casar aqui, mas quero partir vestida como imaginei Este será o meu último vestido Agora eu e o Rafael estaremos juntos para sempre. Foi o destino…
Desculpe, mas quem é a menina? Isto é alguma partida?
Sou a Lara Só consigo contar contigo para fazer o vestido como o sonho.
Conseguiram dar-me uma última oportunidade de escolher como irei, e sabes, não sinto medo. O Rafael estará comigo Só quero estar bonita, pela última vez…
Margarida não sabia o que pensar. Seria mesmo possível estar a viver aquilo? Parecia coisa de filme. Não podia ser verdade…
Decidiu ir dormir. Era provável que a mente lhe pregasse partidas, de tanto pensar no acidente.
Na manhã seguinte, deitou-se imediatamente ao trabalho, convencendo-se de que tudo fora fruto de exaustão e imaginação.
Nessa noite, preparou-se para deitar mais cedo. Depois de arrumar tudo, a névoa trouxe de novo a imagem da jovem.
Estou a habituar-me a este estado… mas custa ver a minha mãe tão triste Tentei comunicar-lhe, mas ela não consegue captar as minhas mensagens. Tu consegues Nem toda a gente tem essa sensibilidade.
Lara, e depois? Para onde vais depois de seres enterrada? Vais para o céu?
O meu guia diz que por agora fico cá, no lugar onde vivi. Depois, ele vai conduzir-me até lá Não posso contar mais, não é permitido. Muitas coisas foram-me reveladas. Na verdade, a morte não é assustadora é apenas passagem para outro mundo, onde continuamos a existir. Quando for o momento, reencarnarei, talvez menina, talvez rapaz Agora, quero terminar esta vida como uma noiva. Por favor, ajuda-me.
Margarida ficou sem palavras. Como poderia costurar um vestido para alguém que partiu, ainda por cima segundo o pedido dela mesma…?
Mas nem sei como queres o vestido, nem as tuas medidas… E como explico isto à tua família?
Costura, confia. Tudo há de correr como deve ser. Olha, é este o vestido.
A jovem rodopiou, vestida de branco, no centro da sala. O modelo era rendado, cheio de pormenores, lindíssimo.
Margarida pôs-se a desenhar o esboço, anotando detalhes cuidadosamente. Quando terminou, a rapariga esfumou-se como névoa.
No dia seguinte, viu o desenho pousado na mesa. Afinal, não foi sonho.
Foi à loja comprar a renda e o tecido mais elegantes que encontrou. O tamanho calculou a olho Lara era esguia. Assim que voltou a casa, pegou logo na tesoura e linhas. Quando deu por si era quase noite, e o marido abanava-a, preocupado.
Margarida, estás bem? Nem pareces tu, andas muito estranha. Passa-se alguma coisa?
Depois conto… Não sei se ias acreditar ou pensar que estou com a cabeça perdida… Por isso, deixa ficar assim, sim?
Dois dias depois, o vestido estava pronto. Nunca lhe saiu um vestido tão fácil e perfeitamente. Até parecia que tinha tido ajuda invisível. Quando o vestiu no manequim, emocionou-se. Pena que a Lara não tivesse tido oportunidade de o usar em vida…
Nessa tarde, a mãe chegou com novidades:
Olha, não conseguem enterrar a Lara Primeiro atrasaram-se com o corpo, depois problemas com papéis E ninguém consegue arranjar um vestido próprio, as lojas recusam vender, uma confusão A Teresa está desfeita.
Mãe, fiz o vestido da Lara Liguem a eles, digam para virem buscá-lo. Vai ter de ser assim.
Filha, mas nem ias fazer, nem chegaste a tirar as medidas
Mãe, acredita, é para levar. Vai dar certo.
No dia seguinte, a família de Lara veio buscar o vestido. Margarida recusou-se a aceitar dinheiro.
O funeral de Lara e Rafael foi no mesmo dia. De maneira inexplicável, o vestido serviu na perfeição, o corpo parecia maleável, como se ainda estivesse vivo.
Margarida, ela parecia uma princesa, com um sorriso sereno Que Deus os guarde a ambos…
Uns dias depois, Margarida sonhou com Lara. Ela dançava com Rafael, sorridente, num jardim maravilhoso, cheio de flores estranhas e pássaros a chilrear ao longe, um riacho a correr suavemente.
Quando terminou o bailado, Lara olhou para Margarida, radiante:
O vestido é um sonho, obrigada! Estou feliz! E em breve terás a Alice na tua vida. Ajudei-a a encontrar-te
Margarida acordou sobressaltada. Lara estava feliz, gostou do vestido, então tudo valeu a pena. Mas quem seria a Alice?
Margarida voltou ao trabalho habitual. Às vezes, ia visitar a amiga Leonor para descontrair. Tomavam chá e recordavam tempos antigos.
Oh Leonor, tenho andado mal disposta, tenho de ver o estômago, nem ginecologista vou há que tempos. Acho que o período já me fugiu, deve ter começado o climatério. Amanhã vou, pago consulta particular, não me apetece esperar horas.
Devias ter ido há mais tempo! Trabalhas demais, esqueces de ti!
***
Margarida, está grávida. Não deixa de ser surpreendente, com a sua idade é mesmo raro
Ai doutora, não brinque! Dizem-me há anos que sou infértil. Veja melhor isso…
Não há qualquer dúvida. Veja, lá está a sua bebé braços, pernas, coração forte, está tudo ótimo. E é uma menina. Parabéns!
Margarida saiu do consultório a chorar de alegria. Era um milagre. Depois de tanto esperar Uma menina Ali estava a Alice de quem falara Lara, a filha tão desejada.
Comprou flores e foi ao Cemitério dos Prazeres procurar a campa de Lara. Nem sabia direito onde estava sepultada, mas os pés levaram-na até lá, sem hesitar.
Obrigada, Lara. Deste-me o maior presente do mundo, a minha filha Espero que tu e o Rafael também estejam felizes onde quer que estejam
Deixou as flores sobre a lápide e foi para casa de coração leve e sorriso nos lábios, acariciando a barriga. Se não tivesse ajudado com o vestido, talvez nunca tivesse recebido esta bênção. Faz o bem, e o bem volta sempreNo mês seguinte, as amigas prepararam um pequeno chá de bebé para Margarida, inundando-a de mimos e esperança. Quando finalmente chegou a hora, Alice nasceu saudável, forte e com um olhar sereno que Margarida jurava reconhecer.
Na primeira noite com a filha nos braços, uma brisa leve entrou pela janela do atelier. Margarida olhou para o céu e viu, entre as estrelas, dois pontos brilhando juntos, como se dançassem devagar. Sorriu com lágrimas nos olhos.
Ali, no silêncio abençoado, soube que cada linha, cada ponto, cada vestido costurado ao longo dos anos tinha sido também um fio para tecer o destino dos outros e agora, finalmente, o seu próprio.
Beijou a testa de Alice, prometendo-lhe amor todos os dias. Do outro lado da vida, alguém sorriu de volta.






