O meu relacionamento com a ex-mulher terminou dentro de um tribunal frio de Lisboa. Não vou apontar culpados, porque numa relação, sabemos bem que a responsabilidade recai sobre os dois.
Mas os factos não mentem: a minha segunda esposa encontrou refúgio nos braços de outro. O escolhido foi um empresário abastado que, há anos, viera de longe e acabara por abrir uma pequena pastelaria ali no nosso bairro de Campo de Ourique. Ao início tentou esconder o caso, mas rapidamente perderam o pudor e já nem se preocupavam em evitar olhares alheios.
Depois, num final de tarde chuvoso, apareceu em casa de rosto fechado e informou-me que dava entrada com o pedido de divórcio e pretendia reclamar metade do nosso apartamento. Imaginava ela que eu ficaria nervoso, que me roeria de ansiedade. Enganou-se. A verdade é que a casa tinha sido comprada exclusivamente com o meu dinheiro, poupado escudo a escudo, ganho com o meu suor. A ex-mulher nunca investiu ali nada, além dos dois anos que lá viveu. E agora tinha a ousadia de exigir direitos.
Recebi tudo isto com a serenidade de quem já fora ferido antes. Nem fiz questão que mudasse de ideias ou evitasse o processo judicial. Só aguardei calmamente pelo momento em que seria obrigada a pagar as custas judiciais depois de perder. Tinha experiência amarga do passado no primeiro casamento, andei três longos anos nos corredores do tribunal da Relação. Nenhum de nós cedia, o que gerava escândalos a cada audiência.
A verdade é que a minha primeira mulher saiu vencedora: ficou com metade do pouco património que tinha, graças a um advogado muito astuto. Acabei desalojado no apartamento que me foi deixado pelo meu pai.
Desta vez, soube jogar melhor. Quando conheci a minha segunda mulher, já tinha um T2 que, com muito esforço, eu próprio renovei. No entanto, por precaução, coloquei-o em nome do meu irmão Hélder o único homem em quem confio sem hesitar. Quando a tempestade do divórcio chegou, estava protegido. Oficialmente, não possuía nada. Depois do que vivi, jurei para mim que nenhuma mulher voltaria a aproveitar-se da minha boa fé.






