Na véspera do Ano Novo, o inesperado presente da esposa deixa Miguel arrasado: vinte anos de casamen…

Mesmo à beira do Ano Novo, a esposa de Manuel preparou-lhe um presente inesperado, daqueles que podiam derrubar até um navio em dia de tempestade. Vinte anos de vida a dois, que ele imaginava felizes, uma filha bela que se casou cedo, já com um neto nos braços deles. O que podia querer mais? Viva e sê feliz, pensava ele. Mas nem tudo era bonança, afinal. Manuel dedicou-se inteiro à família, passou anos a fio a conduzir camiões de longo curso, ausente de casa por meses, só para garantir que nada faltava aos seus.

No entanto, como num conto atravessado de névoa, a mulher de Manuel já secretamente entretinha um namoro com outro. Ela dizia saudades no telefone, chorava para o travesseiro, Estou a contar os dias, tenho a almofada encharcada de lágrimas. Tudo se desfez naquela velha história em que o marido regressa de surpresa de uma viagem. Manuel não armou escândalo. Calado, meteu as roupas e papéis numa mala, sentou-se no carro e foi. Saiu das luzes da cidade do Porto e encostou na berma. Mãos a tremer. A realidade parecia um espelho partido.

A sua vida: tudo pela casa e pela família. Mandava a mulher e filha de férias para o Algarve, comprara até um Fiat novo, renovara o apartamento. Deu casamento de princesa à filha, trazia lembranças de cada rota, ligava quatro vezes por dia, ansiava pelo regresso e ela, nos bastidores, bordava mentiras. Acreditava-se esperto mas, afinal, nem a brisa da traição sentiu.

Muitos colegas tinham casos nas estradas, mas a ele nunca faltou força de vontade amava a mulher, respeitava o lar. Senteu-se ridículo. Agora, com o carro ligado, não sabia sequer para onde ir. Os pensamentos dançavam descompassados como folhas no vento. Decidiu: voltava à sua aldeia em Trás-os-Montes, trezentos quilómetros de distância, longe de tudo e todos. O telefone zumbia ensurdecedor vinte chamadas perdidas, mulher e filha. Desligou. O coração caiu-lhe no estômago, como se alguém lhe atirasse um balde de água gelada.

A vida piscava-lhe à frente dos olhos: o dia no registo civil, a chegada da filha da maternidade, o primeiro dia de escola dela, os regressos com ramos de flores tantas cenas alegres agora tingidas de nostalgia e tristeza. Como não viu que tudo já se esvaziara? Até a sogra, em tempos, lhe dissera, A felicidade não está no dinheiro. Vais perder o marido. Não é de bom tom que ele esteja meses fora. As velhas da aldeia também lançavam olhares e frases enigmáticas. Manuel nunca acreditou. Agora, guiava sem rumo, guiado apenas pelo instinto.

Seria que a aldeia ainda existia? Não voltava há dez anos. Talvez apenas as paredes ruídas resistissem. E guiava, guiava através de serras, sob um céu carregado de neve, enquanto o vento uivava. Parou num supermercado de beira de estrada, encheu sacos sem pensar, como se fosse para um lugar onde nem pão se encontrava e não se enganava. Abandonando o asfalto, mergulhou pelos campos brancos. Outrora aldeias seguiam-se umas às outras, agora só uns poucos pontos de luz brilhavam. A neve começava a encobrir tudo. Mas Manuel lembrava bem cada curva e recanto do caminho, era o seu chão.

A mãe, coitada dela, nunca quis sair da aldeia. Viveu sozinha, recusou o convite para o Porto: Aqui estou em casa, não me arranques as raízes. Nas cidades murchava… Ficou lá até ao fim. Manuel velou-a, pregou as janelas da casa e não voltou desde esse dia.

A tempestade engrossava e Manuel avistou finalmente a entrada fantasmagórica da sua aldeia. Portas entaipadas, janelas negras. Só uma casa junto ao caminho anunciava vida por um fio de luz. Ali era o seu recanto, a cerca tombada, as tábuas pregadas por ele. No meio do nevoeiro, encontrou o velho molho de chaves escondido atrás do beiral Aqui ninguém fecha portas, só quem vai embora. O guizo do ferro retumbava na porta leve, que qualquer sopro de vento podia arrancar.

Com dificuldade, entrou, iluminando o corredor com o telemóvel. Apertou o interruptor: a sala acordou numa luz fria e solitária. Tudo no mesmo lugar de há dez anos. Só a ausência materna atravessava o ar, húmido e poeirento. Foi buscar lenha ao anexo, reacendeu o antigo fogão de ferro, e num instante a madeira crepitou feliz, como se fosse seu destino, aquecer o lar do filho. A casa foi ganhando calor, um cheiro modesto de trigo e infância. Fora, a neve rugia. Manuel encheu um balde na antiga bomba de água ainda resistia milagreiramente e pôs chá no fogo.

Lavou a sala, limpou as prateleiras com pano húmido, sem sequer pensar, por hábito, como a mãe sempre lhe ensinou. Em pouco tempo, tudo parecia limpo, quente, acolhedor. Espalhou na mesa as compras feitas à pressa: chouriço, queijo, pão, uma lata de feijoada. Tinha relógio antigo e, quando deu onze da noite, disse em voz alta: Pronto, quase Ano Novo. Novo começo ou assim esperava, sem saber como. Amãe dizia: De manhã é que se vê tudo mais claro. Amanhã penso. Agora, é deixar o velho ano passar.

Abriu uma garrafa de vinho do Douro, mas antes do primeiro gole, uma batida violenta assustou-o. Quem haveria, por ali, àquela hora? Abriu a porta. Na soleira, uma mulher, cachecol branco nos ombros, os olhos grandes, chorosos de desespero.

Não sei como se chama, eu estou cá há só três meses O meu filho está mal. Acho que é apendicite. Está a doer-lhe como me doía a mim em pequena. Vi a luz, corri. Anda a piorar

Manuel nem pensou, já vestia o casaco, ia buscar a pá para abrir caminho na neve.

O vento abrandou, e lá foram: ele com o miúdo ao colo, febril, a mãe a conduzi-lo pelo branco. Encontraram a estrada nacional: algumas passagens já meio limpas, mas outras tiveram de escavar a neve. Chegaram ao hospital de Mirandela ao cabo de hora e meia, chamaram o cirurgião. A mãe sabia: era apendicite, o miúdo foi operado às duas da madrugada.

O Ano Novo entrou murmurou Manuel.
Desculpe, estraguei-lhe o réveillon.
Não diga isso. O importante é que tudo passou.

Os dois esperaram horas no corredor o tempo dilatava no silêncio dos azulejos. Ao fim, o médico apareceu:
Foi por pouco. Mais um bocado Agora vão descansar.
Preferimos ficar aqui até de manhã, muito longe para regressar agora…
Como queiram. Bom Ano Novo.

Quando Rute, era esse o nome da mãe, pode entrar, o menino Ruca já voltava a si. Rute ficou no hospital, Manuel voltou à aldeia, reacendeu o lume, comeu e caiu para o sono num torpor pesado. À tarde visitou o hospital. Ruca estava melhor, só lamentava não ter esperado pelo Pai Natal.

Ele vem todos os anos, deixa um presente debaixo da árvore. Desta vez, não deve ter conseguido entrar eu sei que ele usa a porta, não a chaminé, já sou crescido.
Olha que esta noite vi pegadas grandes na neve perto da tua casa. Se nevou esta noite e não eram nossas, talvez o Pai Natal passou aí.
Mas a casa estava fechada ficou parado e foi-se embora. Fiquei sem a minha carrinha de bombeiros

Manuel sorriu.
O Pai Natal, muitas vezes, escondia-me os presentes na entrada, ou no celeiro Tens de procurar quando voltares a casa.
Era bom Estive bem comportado todo o ano, não fui Rute?
Rute assentiu em silêncio.

Ruca, o médico não deixa a mãe ficar, tenho de ir. Não tenhas medo, há muitos meninos aqui contigo.
Sou crescido. Mãe, vai procurar o meu presente, se não, o gelo engole-o.

Rute e Manuel saíram juntos e ela desabafou, Obrigada por inventar essa história. Nem consegui comprar-lhe presente, o dinheiro falta Fugi de Lisboa com o meu pequeno, o marido batia-me, até ao Ruca chegou a levantar a mão. Fugimos de noite, só com o que conseguimos carregar. Esta casinha ficou da minha tia, ninguém sabe que estamos aqui. Começamos de novo

Manuel fez sinal à loja: Vou buscar-lhe a carrinha de brinquedo. O miúdo precisa acreditar. Comprou-lhe também rebuçados, e voltaram estrada fora. Rute era nova, dez anos mais moça que Manuel, não queria aceitar nada.

Não podemos aceitar, é demais Porque gastar tanto num menino que não é seu?
Faz-me bem. Quem sabe não faço, pelo menos, alguém feliz neste Ano Novo.

Manuel ficou na aldeia uma semana. Não se aborrecera. Entre limpar neve, tratar da lenha, ajudar Rute, visitar Ruca no hospital pela primeira vez longe da mãe. O menino recuperou bem, logo teve alta, mas ficou triste ao ver que as pegadas do Pai Natal já a neve apagara. O presente estava escondido no galinheiro Ruca achou-o, gritou de alegria, certo de que a magia era real: Mãe não tinha dinheiro, como é que Manuel sorriu. Dar é melhor que receber.

Para celebrar o regresso, Rute convidou Manuel a jantar.
Obrigada, Rute. Faz-me falta o carinho de um lar.
Onde está a sua família?
Foi-se não falemos disso.
A noite passou depressa. Com Ruca a dormir, Manuel despediu-se.
Dava tudo para ficar, mas tenho de seguir viagem. Ficarei na vossa memória?
O Ruca vai perguntar de si.
Logo se vê se volto. Gosto muito de vocês. Adeus.

Partiu. Vagueou três semanas, mas nunca os esqueceu. Após o próximo serviço, antes de decidir o futuro, foi ao Porto visitar a filha e o neto não foi à casa antiga, apenas informou a ex-mulher que pedia divórcio.

Em vez de voltar ao Porto, puxou a mala e foi, mais uma vez, para a aldeia. Não lhe saíam da cabeça nem Rute, nem Ruca.

Ruca estava à porta, parecia adivinhar.
Demorou, mãe esperou muito.
Disse isso?
Não. Mas eu percebo, sou crescido. Fica cá, mãe precisa falar. Eu vou brincar.

Manuel entrou. Rute cumprimentou-o e virou-se à panela.
Pensei que não aparecia mais. O que veio cá fazer, no fim do mundo?
Precisava de tempo para pensar. Foram vinte anos Mas tu nunca me saíste da cabeça. Aceitas-me?
Rute olhou-o, olhos nos olhos. Aproximou-se e abraçou-o.

Acabaram a viver juntos. No verão, Manuel arranjou o telhado, levou água canalizada, reformou o banho. Iluminaram o quintal, compraram galinhas e uma cabra, fizeram horta. Alugaram a casa de Rute aos lisboetas de férias. A vida ganhou outro tom. Ruca nunca mais largou Manuel e começou a chamar-lhe pai.

A vida é um bicho estranho. Ninguém sabe a sorte que lhe calha. Como os avós dizem: viver não é atravessar um campo há sempre outra curva no sonho, sempre outra surpresa à espera, entre as sombras e os clarões desta terra portuguesa.

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Големият български развод