O meu amigo diz que me ama, mas nunca me escolheu.
Já vamos nisto há três anos. Três anos de encontros às escondidas, três anos de ouvir promessas recicladas ao ponto do ridículo. Três anos de uma relação que só existe quando a esposa dele não lhe está a ver o telemóvel.
Eu não entrei na vida dele a saber que era casado. Demorei uns meses até descobrir continuavam juntos como um casal típico de Cascais, com direito a brunch ao domingo. Mas nessa altura, já eu estava metida até ao pescoço.
Desde o início, tudo era por atacado, sempre com condições! Víamos-nos só em determinados dias, a horas estratégicas, sempre em sítios onde ninguém nos conhece nem sequer um café em Setúbal, só para não arriscar. Ele nunca podia ficar a dormir. Viajar comigo? Nem pensar. Eu nunca podia publicar uma foto nem de costas!
Se eu lhe escrevia à noite e não respondia, eu já sabia, não era preciso ser vidente em Fátima.
Se desaparecia aos fins de semana? Mais que óbvio.
A vida dele estava sempre noutro lado. E a minha parecia uma sala de espera, à espera das sobras do tempo dele.
Perguntei-lhe muitas vezes diretamente se ia deixar a mulher. Sempre com aquele ar zen, de quem já rodou muitos pratos de bacalhau à Brás. A resposta era sempre a mesma sim, mas não agora. Estava à espera do momento certo. Não era fácil, eram muitos os detalhes a tratar. Ela precisava dele. Não queria magoá-la. Ouvi isto tantas vezes que já nem posso ouvir a frase. Novas desculpas, novos prazos, novas migalhas de esperança.
Eu era quem se adaptava.
Mudava agendas. Cancelava planos. Aprendi a não perguntar muito, para não haver cenas. Se ele viajava com ela eu ficava calada. Se tinham aniversário de casamento eu fingia que era só mais uma terça-feira. Quando ele aparecia, ressacado de discussões matrimoniais eu era o ombro amigo.
Eu era a que ouvia.
A que compreendia.
A que esperava.
E mesmo assim, nunca fui a escolhida.
Houve alturas em que acreditei mesmo que ia acabar tudo de vez. Ele chegou a dizer que tinha falado com o advogado. Eu voltei a dizer que assim não era feliz. Mais uma vez andei à procura de quarto em Lisboa ao preço de ouro. Voltei a acreditar. Voltei a apostar tudo.
Mas havia sempre qualquer coisa o trabalho, a família, dinheiro, não é o momento. E eu ficava. Congelada numa história empancada.
Entretanto, a minha vida seguia. As minhas amigas casam, mudam-se para Aveiro, fazem planos e jantares de casa nova. Eu mentia. Dizia que estava sozinha, ou que era qualquer coisa sem rótulo. Não conseguia contar a verdade, já sabia o que iriam responder. Mesmo assim, eu fiquei. Não porque fosse parva. Porque gostava dele. Ou achava que gostava. Sinceramente, já começo a duvidar.
O que dói mais não é ele não largar a mulher.
O que mais custa é nunca se ter posto ao meu lado.
Se ela desconfiava ele afastava-se de mim.
Se havia tensão lá por casa eu evaporava.
Se tinha de escolher entre olhar para mim ou manter-se de bem com ela ela ganhava sempre.
Nunca fui escolha.
Fui sempre o plano B. O que pode esperar no banco de suplentes.
Ainda estou com ele. Mas já não sou a mesma.
Quero-o, mas estou cansada.
Cansada de ser compreensiva.
De esperar.
De viver de migalhas de tempo e amor.
Preciso mesmo de um conselho, para finalmente decidir o que fazer.
Será que há mais alguém enredada nisto?
O que diriam vocês a esta mulher, se estivesse agora mesmo à vossa frente?






